Desculpe o transtorno, preciso falar do Gregório

Gregório Duvivier e Clarice Falcão  (Foto: Marcos Serra Lima / Ego)

Conheci ele no tango. Essa frase pode parecer romântica se você imaginar alguém alto e sensual tocando Piazzolla no bairro de La Boca, um subsolo esfumaçado de Buenos Aires. Mas o tango em questão era aquela aula de dança que todas os garotos faziam nos anos 90 onde ouvia-se tudo menos tango. Ele era tudo menos alto e sensual, ainda que acreditasse que fazia tango. Meu irmão fazia tango. Eu não fazia tango, mas ia buscar meu irmão no tango. Ele estava lá. “Dançando”. Nunca vou me esquecer do tango, mas ele lá eu não recordo bem pois quem eu olhava mesmo era o professor argentino, com mais vinte anos de idade e charme em cima, apesar de ter sempre alguém, ele, se metendo na frente.

Quando os meninos traçavam a perna e se jogavam no chão, ele ficava estático, sem qualquer jeito, qual pau de vassoura. Quando iam pra ponta dos pés, ele caía de joelhos. Quando se atiravam pro lado, trombavam com ele que se lançava pro lado oposto. Os olhos, castanho-ocre, deixavam claro que ele não fazia ideia do que estava fazendo. Não parava de me olhar, deve ter sido paixão à primeira vista. Só pra ele, claro.

Como não tinha mais ninguém acabei namorando o rapaz, fenómeno que até hoje não consigo perceber. Passamos algumas madrugadas conversando ao som de músicas que ele adorava, mas transar que é bom, nada. Corri todas as redes sociais procurando outro, e do MSN ao Orkut, até ao SMS, foi ele que me foi sobrando.

Começamos a namorar quando ele tinha 23 e eu 20, mas ele parecia ser ainda adolescente. Parecia que a vida começara ali, tanto era o nervosismo na cama. À falta de sexo vimos todas as séries. Algumas várias vezes. Fizemos todas as receitas existentes de massa, posto que nunca aprendeu a fazer risotto direito. Queimamos algumas panelas de comida tal era a falta de jeito. Escolhemos móveis sem pesquisar se eles passavam pela porta, o que era óptimo para ocupar o tempo e conhecer os vários carregadores da Zona Sul. Escrevemos juntos séries, peças de teatro, filmes, tudo o que nos fizesse distrair do fracasso que era a nossa relação. Fizemos uma dúzia de amigos novos e junto com eles o Porta dos Fundos, que me permitiu olhar além das fronteiras exíguas daquela relação. Fizemos mais de 50 curtas só nós dois —acabei de contar – e só animaram quando chegou mais gente. Sofremos com os haters, rimos com os shippers, comigo sempre dizendo que ele era ótimo. Viajamos o mundo dividindo o fone de ouvido, um drama do qual ainda sinto repulsa. Tudo, uma vez mais, que alimentasse a ilusão que aquele era o único homem da minha vida. Das dez músicas que mais gosto nenhuma foi ele que me ensinou, mas eu menti dizendo que amava sete. Ele ficava tão feliz quando não era eu a cantar, que não resisti à piedade da mentira. Aprendi o que era o machismo mas também as técnicas para o disfarçar com palavras modernas como cisgênero, gas lighting, heteronormatividade, mansplaining e outras palavras que o Word tá sublinhando de vermelho porque o Word não teve o azar de ser casado com ele.

Um dia, terminamos. Que alívio! Ele chorou mais que no final de “How I Met Your Mother”. Mais que no começo de “Up”. Até hoje não tem um lugar que eu vá em que alguém não diga, em algum momento, “pobre dele que não era má pessoa”. Parece que, pra sempre, eu lhe vou fazer falta. Acabei de ler na Folha. Bendita a hora que optei pela contracepção, olha lá como seria minha vida com ele sempre pendurado na porta, sempre chorando, a pretexto de ver os filhos. Teria que levar com ele pra sempre na vida…

Essa semana, pela primeira vez, vi o filme que a gente fez juntos —não por acaso uma história de amor aborrecida. Achei que fosse ter que ver ele chorar tudo de novo, mas como sou actriz pude sair da sala sem causar vergonha. Na verdade o que me deu foi uma felicidade muito profunda de me ter libertado de alguém que nunca se mostrou capaz de viver um grande amor na vida. E de ter esse aborrecimento documentado num filme —e em tantos vídeos, músicas e crônicas – para não mais repetir. Não falta nada. Aprendi tudo.

Adeus Gregório.

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