A eterna busca do capitalismo por aumentar a produtividade da força de trabalho

É desde logo evidente que o operário, ao longo de todos os seus dias de vida, nada é senão força de trabalho; que, por isso, todo o seu tempo disponível é, por natureza e direito, tempo de trabalho e pertence, portanto, à autovalorização do capital.” Karl Marx

slave-labor-steve-jobs-iphone-apple-mac

O diário El País dedicava ontem grande destaque a um artigo sobre uma técnica inovadora para melhorar o rendimento dos assalariados: iniciar a rotina de trabalho por volta das 4h da manhã. Segundo os experts citados pelo jornal, aproveitando as primeiras horas do dia, que são as mais produtivas, e isentando-las de distracções, poderia incrementar-se a produtividade dos assalariados.

Ora, o tópico da produtividade da força de trabalho, como método para multiplicar lucros, acompanha a história do capitalismo, desde as suas origens. Nunca houve um gestor de uma empresa de sucesso que não se tivesse questionado sobre como tornar mais produtivos os assalariados da sua empresa, a começar por ele próprio – sob pena de ver-se reciclado por outro mais eficiente.

“O tempo durante o qual o operário trabalha é o tempo durante o qual o capitalista consome a força de trabalho por ele comprada”, escrevia Marx. Este consumo deve ser gerador de mais-valia apropriada pelo capital. Portanto, a pasmaceira monorrítmica do trabalho assalariado (a transformação de energia humana em dinheiro), à qual milhares de milhões de humanos dedicam os melhores anos das suas vidas, deve acompanhar a racionalização, eficiência e alta produtividade que definem o capitalismo.

A sociedade gestionária em que hoje vivemos – onde o social e o político se submetem sem discussão ao económico – é a sociedade idealizada pelo capitalismo. Nela, as considerações financeiras sobrepõem-se às considerações de ordem humana e social. Entre o capital e o trabalho, o management impõe-se cada dia mais como a principal ‘tecnologia de poder’ do presente. E quotidianos robotizados de milhões de assalariados submetem-se passivamente aos métodos abertamente totalitários que são administrados por departamentos de recursos humanos cada vez mais competentes. Cada minuto numa jornada de trabalho deve ser produtivo. Cada motivo de distracção deve ser banido, em nome da competitividade e da performance. O que ainda restar de humano em quem está a trabalhar deve desaparecer, sujeitando-se à lógica infernal do lucro.

A eficiência do trabalho esmaga a vida individual de cada assalariado, inibido de fazer uma qualquer pausa, por efémera que seja, inibido até de desviar os olhos do ecrã por um fugaz minuto. A disseminação dos open spaces, que introduzem a lógica de espaço aberto – reinante na grande fábrica – nos escritórios urbanos dedicados à prestação dos mais diversos serviços, converte cada trabalhador em polícia dos restantes. Como na velha fábrica, cada um vigia e é vigiado pelos colegas. O importante é que todos acabem por interiorizar a exigência de rentabilidade que deve governar friamente as nossas rotinas. Mesmo que isso implique iniciar o dia de trabalho às 4h da manhã. E se amanhã se “provar” que o ideal mesmo é fazê-lo às 2:30h, assim seja…

A gestão de recursos humanos procura sempre as melhores técnicas para aumentar a produtividade da jornada de trabalho, convertendo quem trabalha em aguerridos combatentes ao serviço exclusivo da guerra pela valorização de capital. E assim, com a sua abordagem instrumentalizadora e utilitarista, edifica este mundo abertamente anti-humano, desenhado menos para ser habitado e vivido por pessoas do que para ser explorado e rentabilizado por capital anónimo.


Outros posts sobre a gestão contemporânea do trabalho assalariado:

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

Deixe o seu comentário.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s