André Freire e Carlos Matos Gomes: o bófia bom e o mau incendiário

14088948_10154554482429379_1443280363_nEstava a tardar. O rocambolesco do episódio e a justa indignação justificava a hesitação, e com ela o silêncio inicial da “variação humanista” da islamofobia. Carlos Matos Gomes, um dos que tardou mas que não se fez rogado, equiparou a ida à praia de uma mulher vestida, pasme-se, à defesa de actos terroristas como aquele que abalou a cidade: “Com aquela vestimenta ela está a transmitir uma clara mensagem de cumplicidade com o autor do atentado do 14 de Julho – está dizer eu tenho e bato-me pelos mesmos princípios do camionista”. Para Carlos Matos Gomes, cuja sabedoria no tema nem sequer lhe permite perceber que em causa não estava um burkini, a senhora interpelada e humilhada pela polícia, por ser “irmã de fé” do terrorista, foi à praia apenas e só para desafiar a República, “fazer-vos engolir o fel das vossas leis”. Estarão todos os católicos preparados para responder pelos cúmulo jurídico dos crimes da Igreja? Terão todos os judeus que responder pelo cadastro hediondo de Israel? Estou certo que mudando o sujeito e o credo, o ateísmo farsola de Carlos Matos Gomes cairá com estrondo vociferando a resposta certa. 

Para quem não sabe ou lembra, Carlos Matos Gomes é um dos “Capitães de Abril”, pelo que não se compreende que agora escreva, a justificar o injustificável, que as “leis foram feitas dentro de um dado contexto e para serem aplicadas dentro desse contexto”. Para que não sobrem dúvidas sobre a subscrição à lei e aos actos da polícia naquele naufrágio geral, declara sem pudor que “os polícias da República Francesa estão a fazer é a defender-nos desse retorno à idade das trevas”. Não se espantem. Para Carlos Matos Gomes a mulher que foi importunada na praia pode mesmo ter “a obrigação de cumprir esta missão provocatória que outras mulheres islâmicas tiveram, ao serem coagidas a vestirem-se com um colete de explosivos e a fazerem-se explodir.” Estaria ali quase por certo mais uma obediente militante do Daesh, cujo zelo da polícia deve por certo ser também obra do diabo, tal é a publicidade que tem dado aos seus costumes, graciosamente elevados a símbolo de liberdade pelo fanatismo proibicionista que se abateu sobre a Europa em geral e sobre a República Francesa desta maneira tão particular, que tão perto os coloca em matéria de valores de aqueles com quem, apesar da abjura, o Ocidente sempre fez belíssimos negócios sem olhar um segundo para os direitos das mulheres.

Poderíamos ter alguma condescendência. Afinal Carlos Matos Gomes já deixou claro o seu arrependimento por, à data da Revolução, não ter entregue à ONU “o processo de transição para a independência das colónias”. Recentemente ainda mais a propósito, deixou também claro que está de armas e bagagem na guerra das civilizações, um soldado do “Je Suis Charlie”, que acusa todos os que não foram Charlie não o foram “porque entendem que é razoável e defensável que um homem, ou uma mulher (…) assassinem outros homens e mulheres precisamente por fazerem uso do dom do livre arbítrio com que esse Deus dotou os seus filhos, deixando-os livres para pensarem mal, para pecarem, para renegarem quem os animou!”. Podíamos pensar que Carlos Matos Gomes é apenas uma voz isolada, cuja ignorância não seria subscrita por nenhuma alma cuja opinião seja moldada por mais do que a “conversa de táxi” que Carlos Matos Gomes diz andar a levar a vítima em ombros como se fosse uma heroína. Mas não. Outros, com mais crédito, se têm juntado ao coro.

André Freire, cientista e tudo, partilha cada uma das palavras de Carlos Matos Gomes e à boleia deixa a recomendação da prosa, “ao cuidados de alguns esquerdistas, relativistas e multiculturalistas, e quejandos…, que andam por aí, muito indignados pela proibição do uso da Burka em locais públicos nas democracias ocidentais!”. Ele, claro, não deixa ninguém com dúvidas: “sou totalmente favorável à proibição do uso da Burka em locais públicos nas democracias ocidentais”, numa pérola que não se coíbe de proteger “por razões de principio na defesa de direitos fundamentais”. 14101637_10154556788544379_1918950511_n

Em nome do “Liberté, Egalité, Fraternité”, escrever-se-á agora “Dévoilée, Deshabillée, Humilliée”, e teremos por certo André Freire a afirmar que em nome do primeiro há que pagar o preço do segundo. Lá está “convém não esquecer!”, ora pois, a lágrima que se percebe nos olhos de ambos, quando pensam que grave mesmo é a “a falta de assertividade na defesa dos nossos valores”. É que outra não tem feito a Europa, numa sucessão de guerras que semearam o ódio que se somou ao ódio acumulado por séculos de colonialismo. Se algum dia tivermos a sensatez e a coragem de preferir alguma falta de assertividade na defesa dos valores ocidentais, onde se inclui a possibilidade de deixar quem queira ir à praia sem ter que se despir, talvez se abra a possibilidade do mundo ficar em melhores lençóis do que aqueles que agora se apressam a incendiar em nome da liberdade.

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