Gostam tanto do burkini que lhe chamam écharpe

Lucy Willis, The Green Sari, Chennai, 2005

De todos os aspectos do debate sobre o burkini, aprecio particularmente aquele que nos mostra que mesmo os poucos progressistas que não aceitam a via proibicionista, sejam ainda assim incapazes de defender a liberdade de escolha sem colocar reticências no direito a cobrir o corpo com panos. “Ah e tal eu sou pela liberdade, mas aquela escolha não tem liberdade nenhuma”. Para paternalismo, paternalismo e meio.

Podia, e alguém devia, dedicar-se ao tema com a densidade que o tema merece, mas à falta de tempo, lembro apenas que a questão da proibição do burkini é meramente ideológica. No campo estético, as mulheres e os homens ocidentais, sentem-se tão fascinados com a magia dos panos que sem qualquer imposição do patriarcado adoptaram como moda o costume mudando-lhe apenas o nome.

A turba islâmico-proibicionista não tem assim qualquer problema de gosto. De resto, sendo a turba ocidental, não precisam ir mais longe do que nas suas próprias famílias para se perceber os tantos trajes obscurantistas que dominam as suas tradições culturais. Seja nas roupas dos bebés, dos jovens baptizados, das freiras de todas as idades, nas fardas dos estudantes ou dos militares, nos vestidos de noiva, nos fatos dos trabalhadores de escritório e até no dos defuntos e nas viúvas enlutadas, fica claro que se o problema fosse a opressão mais gente andava doida por se libertar das suas próprias amarras.

Os proibicionistas, como é bom de ver, repetem aquilo que dizem combater. Estão espantosamente perto da minoria muçulmana que impõe às mulheres o uso de panos. Mas os moralistas também, com a agravante de não entenderem que a sua indignação ético-estética é a gasolina que os dois lados do proibicionismo mais anseiam.

Importa pois lembrar a frase de Jorge Furtado, no seu documentário “Ilha das Flores”, que dizia, e bem, que “a liberdade é a palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique, nem ninguém que não entenda.” – Os acólitos da superioridade ocidental, que andam com dificuldade em domar o impulso de definir a liberdade dos outros, talvez um dia venham a perceber que a emancipação e a libertação dos povos ou se faz por sua obra, ou o seu nome é retrocesso. Os costumes superam-se ou duram, por vontade exclusiva de quem os pratica. A proibição é, naturalmente, tão reaccionária como a sua obrigatoriedade, ainda para mais imposta por agentes externos à comunidade que os reivindica.

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16 thoughts on “Gostam tanto do burkini que lhe chamam écharpe

  1. O triunfo dos movimentos opressores chega quando são as pessoas a desejar a repressão elas mesmas. Perguntamos, como Espinoza, porque lutam pela escravatura como se da sua liberdade se tratasse? Também podemos falar da falsa consciência em Marx, da interiorização da culpa em Nietzsche como grande vitória cristã, de como o desejo pode desejar a própria repressão como pensou Reich, de como os corpos se podem tornar muito dóceis, domesticados, em Foucault. Muito paternalismo, se toda a filosofia é um paternalismo… queimemos os livros? Dizer que alguém não tem que seguir os mandamentos da religião, que não vai parar ao inferno, que é livre, que se pode libertar desses preconceitos, sim, dizer isso é ser paternalista, ou melhor, dizer que existem pessoas que vivem e fazem escolhas completamente determinadas pelo preconceito religioso é ser paternalista, pois… repito: o triunfo dos movimentos opressores chega quando são as pessoas a desejar a repressão elas mesmas.

    E em relação às roupas, não são nenhum sinal de opressão, muito pelo contrário, são o completo oposto disso!! só haverá caso de opressão se houver (e ainda há) proibição de tirar alguma coisa. Pelo contrário, funcionam como potenciação do nosso estar aí, seja na moda ou fora da moda. A não ser que achemos que o próprio acto de existir, de estar aí, seja opressivo, o que seria um bocadinho triste…

    1. Creio que estamos de acordo. Lutar contra a religião é um dever tão significativo como o de respeitar quem quer que seja por ser crente. Ninguém perderá a fé na ponta do bastão, isso é certo.

      1. Eu não defendo a proibição, as pessoas podem ir para a praia ou para o campo como quiserem. A questão está no preconceito religioso, que não posso deixar de dizer que é uma aberração. E quando as pessoas vêm dizer que as pessoas andam assim vestidas por que é a vontade delas… vontade delas? é uma nova moda que surgiu este verão? vontade de quem, essa é a questão fundamental! essa é toda a questão!

  2. Essa questão parece-me pouco polémica. A vontade é sempre construída socialmente. Quando quem usa o costume o quiser deixar saberá por certo abrir caminho para se libertar dos trapos. Não havendo injecções de liberdade, cada um terá mesmo que descobrir as fronteiras das sua.

    1. É precisamente porque há vontades, desejos que não são construídos, que deixam o homem abandonado à sua condição mais animalesca digamos, nada espirituais, nada dignos de uma imagem divina da qual seríamos o espelho, que foi necessário construir máquinas morais terríveis, para que o corpo desaparecesse, e passássemos a ser só alma. Deixemos ver apenas os olhos que são o espelho da alma…

      (já agora, a questão que parece agora pouco polémica, parecia muito polémica quando, e é verdade que já passaram algumas horas, escreveu o primeiro parágrafo deste texto que aqui comento)

  3. Sim, por favor continua a dizer que existe um paralelismo óbvio político e simbólico entre uma echarpe e um burquini. E continua a dizer que não cometes qualquer paternilização da mulher muçulmana quando a comparas à tua avó que vestia de preto porque o teu avô tinha morrido. E sim diz-nos também que a libertação feminina é um contínuo irreversível ignorando a forma como as mesmas mulheres se vestiam nos anos 70 no Afeganistão e no Irão. E sim caro autor ignora que o Burquini, Niqab e Hijab derivam do mesmo versículo no Corão e aquilo que ele significa. Esconde aos teus leitores que as questões nas praias francesas derivam de um discurso numa mesquita local onde foi pedido aos fiéis que levassem as suas mulheres à praia como um acto de resistência dos filhos de deus à laicidade do estado francês. Continua por favor a dar ao oprimido o direito de oprimir e esmaga os últimos 50 anos de feminismo. Algures no afeganistão, um mulher está feliz pela tua primária relativização acerca dela. E já agora aproveita e vai pastar com o teu feminismo hispter.

    1. Nos anos 70, o Afeganistão e o Irão eram ocupados (por via de fantoches nacionais) e a esmagadora maioria das mulheres duplamente oprimidas. Pastarei por certo, mas nunca na onda que a reboque de paleio libertário acaba a gritar pela polícia a qualquer pretexto. Essa relva fica toda para outros.

    1. “Esconde aos teus leitores que as questões nas praias francesas derivam de um discurso numa mesquita local onde foi pedido aos fiéis que levassem as suas mulheres à praia como um acto de resistência dos filhos de deus à laicidade do estado francês” – diz a autoridade no alto do seu anonimato. Pastar é pois um bom conselho. Faça bom proveito!

  4. Só para efeitos de organização do debate, dizer que os comentários mais recentes não foram escritos pelo primeiro anónimo. Por isso sinto que a questão do pasto não me é dirigida. A não ser que agora me queiram também sugerir um belo prado. Nesse caso eu vou.

  5. E se um gajo quiser andar vestido com farda nazi (Hugo Boss design…)? – Pode?… – No “dossier Burkini” falamos de liberdade individual, opção estética, ou de valor simbólico?… O Islão é uma religião como as outras? Acomoda a democracia? Respeita liberdades? Aceita outras religiões em paridade de direitos? Aceita apóstatas?… Ou é supremacista, teocrata, machista, anti-democrata, opressor e violento?… A roupa consentida ou obrigatória deve ser lida como fenómeno de moda ou como expressão política?…

    1. Espero que uma turba de anti-fascistas façam o que deve ser feito sem ser preciso nem lei, nem polícia. Há batalhas se se fazem na rua e no campo das ideias, dar ao Estado esse poder é tornar o Estado mais nazi do que o nazi que fala.

  6. http://www.independent.co.uk/news/people/burkini-ban-france-beaches-hijab-iran-a7201011.html

    O que ela diz, principalmente, é que enquanto que a proibição do burkini em França é um escândalo, já o uso obrigatório de hijab no Irão interessa muito pouco. É como aqueles fenómenos estranhos: se há um atentado em França é o fim do mundo, se há um atentado no Irão muda-se de canal para ver os golos do Benfica… continuamos a tropeçar nisto… – “Ms Alinejad said the controversy surrounding the ban on burkinis signifies how voiceless women are in Iran, where a child is obliged by law to wear a hijab from the age of seven but this will rarely make a news story.” “The issue in France has dominated news internationally. For this reason, she says her campaign focuses specifically on Iran in order to give women there a platform from which to speak.” “I think their campaign is strong enough, so I am here to talk about those people who do not have any freedom in their homeland.” Proibir o burkini é mau, ser a favor da proibição do burkini é ainda pior, mas, certamente (Thanks Ms Alinejad) que o assunto não fica encerrado por aqui, há muita coisa para discutir ainda. Que alívio! A Alinejad agradece que se fale internacionalmente da obrigação no Irão, e tanto quanto se falou da proibição em França. O que ela não sabe (sabe!) é que para um ocidental parece mal falar dessas coisas…

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