Propaganda Olímpica

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É uma foto excepcional, de vários pontos de vista, mas não creio que a sua massificação seja inocente. Ao contrário de uma parte importante do que tenho lido sobre o assunto, esta fotografia está longe de ser uma ode ao convívio entre os povos. Bem ao contrário das boas intenções de quem só vê isso, parece-me evidente que esta imagem será usada à exaustão para fazer passar a ideia de que todas as alemãs – e com elas todas as ocidentais – são o expoente máximo das mulher livre – e que todas as mulheres que usam véu – e com elas todas as muçulmanas – são a encarnação da mulher oprimida. Mas a semiótica não fica por aqui. A egípcia, em representação do “outro”, faz um ataque de garras cerradas mas encontra o “nosso” bloqueio, onde as mãos abertas arrecadam a empatia de quem, sem armas, se defende. No final, já sabemos, ganhará a Alemanha para alívio de todos democratas de chinelo.

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Não são raras as excepções. Esta outra fotografia, que retrata o auto-retrato de duas atletas das duas Coreias, mais depressa maltrata a história do que a diplomacia. Não sei nada das atletas, mas sei que quem as expôs ao exercício leva mais água no bico do que o espírito olímpico. A turba, uma vez mais, canta loas e pinta corações, mas estará a ver para lá da generosidade dos seus olhos?

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Yusra Mardini, refugiada síria que se salvou da vala comum em que se transformou o mediterrâneo, salvou-se a nadar e ajudou outros a salvarem-se. Não precisava ter ido aos jogos olímpicos para ser uma heroína da humanidade. Vive em Berlim mas não se quis fazer representar pela bandeira da Alemanha. A propaganda, pasme-se, até aqui tentará roubar o heroísmo alheio, mesmo quando ele é esclarecido. Yusra Mardini, uma entre muitas vítimas dos joguetes de quem transformou a Síria num atoleiro, vai contribuir para desconstruir a imagem negativa que nos têm imposto sobre os refugiados, mas será quase impossível resistir à pressão de ser “vendida” como alguém que triunfou graças à generosidade dos povos que a acolheram. Assim se esconde, simultaneamente, quer a responsabilidade do que se fez para lá das fronteiras do ocidente, quer o exército de gente que luta com e pela vida contra os exércitos que dia após dia fazem endurecer a carapaça onde a Europa cerrou fronteiras.

2 thoughts on “Propaganda Olímpica

  1. E os podólatras, senhor, os podólatras? Esta gente tapa o cabelo e anda descalça quando o que ao não falta aí são os punheteiros podólatras. Tapam-se, tapam-se e deixam de fora a tentação ocidental.

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