Insurreição, guerra e comunismo – o papel da amizade

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Uma das teorias que o comité invisible deu a conhecer no seu mais recente livro (“A nos amis” – Outubro de 2014) foi a de que, residindo nas tecnologias, mercadorias e infra-estruturas que enquadram e organizam a vida quotidiana, mais do que nas tradicionais instituições, o poder se exerce hoje reticularmente, através de um aparelho mundial de contra-insurreição, “uma rede mundial de dispositivos locais de governo” disseminados por toda a sociedade, que assim se converte, toda ela, num imenso teatro de guerra. Esta teoria “do governo enquanto contra-insurreição” é abordada num texto publicado num novo espaço da cena blogosférica lusa, intitulado “Focas robots” como contra-insurreição – Amizade e cuidado de si, de Espinoza a Tiqqun”, que passo muito sucintamente a apresentar.

Um robô amigável num lar de idosos, desempenhando com maior ou menor talento o papel relacional e emocional de um animal de companhia, desencadeia um raciocínio sobre como as “necessidades emocionais satisfeitas por máquinas” são uma metáfora do presente estado civilizacional regulado por uma “ideologia de desenvolvimento individual, empreendedorismo e relações de baixa intensidade”. Esta ideologia elimina a possibilidade da amizade/afinidade/comunhão – poderosas ferramentas políticas, como veremos – e, consequentemente, da irrupção de uma “qualquer alternativa ao neoliberalismo individual.”

É defendido que a “comunidade de singularidades” aberta pela amizade se contrapõe simetricamente à população de indivíduos equivalentes, governável por múltiplos dispositivos de controlo, de que são compostas as democracias liberais: “A amizade elimina as equivalências; não é possível considerar um amigo enquanto parte de um conjunto, mas apenas enquanto um outro cuja existência muda a nossa própria existência. A amizade é baseada numa proximidade demasiado estreita para que se considere um amigo enquanto outra coisa que não um outro eu [heteros autos].”

A amizade não é aqui convocada senão como técnica para destruir esse velho alvo situacionista, hoje mais actual do que nunca, formado pela individualização, a separação e o isolamento (Debord: “O isolamento funda a técnica e, por sua vez, o processo técnico isola. Do automóvel à televisão, todos os bens seleccionados pelo sistema espectacular são também as suas armas para o reforço constante das condições de isolamento das multidões solitárias.”) A atomização das multidões solitárias, doravante programada, automatizada e robotizada, é uma das mais poderosas armas ao serviço da contra-insurreição. É neste quadro que a amizade se deve impor como uma técnica para a guerra diária pela insurreição e o comunismo. E é neste sentido que o autor observa: “A experiência de encontro com um amigo afecta alguém alegremente, torna-o poderoso, forma uma comunalidade entre si e o amigo”. “A amizade torna-se uma forma de eliminar o mito do indivíduo, um método para encontrar poder e intensidade, a estrutura para uma política comunista com dentes.”

Se o maior desafio do poder é o de conservar-nos perpetuamente deprimidos, moribundos, impotentes, isolados – ainda que, graças às focas robots, facebooks e outras técnicas, “nos conceda a ilusão da amizade ao mesmo tempo que lhe retira qualquer potência” -, o desafio da amizade deverá ser o de despertar “o pior cenário para o Império” que é o de nos encontrarmos “uns aos outros na nossa tristeza.” Esta ideia poderosa, que curiosamente já aqui fomos encontrar em David Harvey (quando aborda as ideias e práticas emancipatórias que podem nascer da frustração perante a abundância inacessível do shopping), serve para enfatizar o poder subversivo e desestabilizador da amizade, um poder que, sendo afinal de contas político, este texto tem o mérito de nos ajudar a compreender. E uma lição que se poderá certamente extrair da sua leitura é que a política é uma prática que está longe de se esgotar nas relações institucionais que formalmente definem o funcionamento das democracias representativas.

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

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