“Equinócios”, por Kareef

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Desenho de Filipa Malva 

É estranho e belo ter-te aqui outra vez. Como se fosse a primeira vez tremo ao sentir-te subir as escadas. Já tinha passado tanto tempo desde que a tua pele tocou a minha. Vesti o mesmo vestido da primeira estação, refiz a mesma trança, usei o mesmo perfume. Quando chegaste não me beijaste. Eu não te beijei. Reconheceste-me o cheiro. Ciosa da minha timidez imperturbável pela tua presença, senti-me fechar até que a ebriedade e o desejo sacudissem a dormência dos sentidos e empurrasse a timidez janela fora e pudesse estar inteira. Podias não estar ali, tudo em ti estava um sobressalto. Ambos parecem reféns, cristalizados. Ela queria dizer-lhe que ele lhe sabia bem estar ali. Mas ficou calada. Ele queria dizer que queria estar ali. Mas ficou calado. As conversas giraram em torno dos outros como insectos que voam junto à luz com o risco permanente tão perto. Foi a primeira vez que estiveram juntos em liberdade, mas estranhamente estavam menos livres. Inteiros mas longe. A noite de São João com as suas fogueiras sob as estrelas e os balões noutro lugar a encherem a noite de luz. A calma imperturbável do silêncio e da música. Aos poucos ela sentiu a timidez descolar-se dela. Parecia que era tudo como a primeira vez. A timidez a cortar-lhe as palavras, e aos poucos a deixá-la em paz, a música. Quando ele a beijou pareceu-lhe ouvir o mar do primeiro mergulho. Tal como o vestido, a trança e o perfume. Voltaram as ondas pelos corpos, cansados da espera, impacientes. Ela sem vestido e ele vestido, as pernas dela num abraço no corpo dele.Os corpos desenrolaram-se um no outro como ondas. Enredaram-se depois num abraço, em silêncio, deixando os corpos sozinhos contar os segredos que havia para contar. Ele partiu debaixo da madrugada das luzes no céu e das fogueiras. Com ela ficou o cheiro e o corpo dele em todo o lado. Voltarão por certo noutra noite.

A noite havia ficado a meio. A distância era uma nota que se ouvia alto, apesar da saudade que os corpos não puderam saciar por completo. A noite retomou-se como se a madrugada a tivesse mantido intacta. A única mudança foi o fim do desassossego. Ela havia perdido a timidez. Ele já esquecera o sobressalto. Mergulharam nas músicas para se descobrirem nelas, entre lampejos. Voltariam a rasgar a pele um do outro, a deixar os corpos suados e do avesso, terminariam o conto sem receio do fim do quarteto das estações. Viriam mais? Terminariam o conto por ali? Ambos se perguntaram em silêncio. Ela sente que falta liberdade a esta forma de ser livre. Ele não quer ser livre de outra maneira. Marcaram encontro pela vontade, mas serão as luas a decidir se os astros se colocam de acordo. Ambos foram embora deixando os corpos despojados e a partitura ao fundo coberta de roupa. A razão, tal como a roupa vestiu a estante, cobriu a montanha de livros acabados.

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