A bizarra fixação do PAN pelas práticas culturais pré-capitalistas

O Partido Pessoas Animais e Natureza (PAN) decidiu  trazer para a agenda dos debates nacionais o tema dos veículos a tracção animal. Segundo o deputado deste partido, os animais que puxam carroças “são sujeitos a excesso de carga, alimentação deficitária” e ainda “falta de proteção contra intempéries”. Por outro lado, há cavalos que “ficam cerca de oito horas seguidas a fazer circuitos e esperas ao sol, o que leva à rápida desidratação dos animais”. Impressiona-me muito esta reiterada arte do animalismo lusitano de conseguir gerar sucessivos debates (touradas, circo, a águia Vitória, carroças) que desviem constantemente a opinião pública da grande questão animalista do nosso tempo:  o sacrifício diário e silencioso de milhões de animais anónimos em ambiente de produção industrial. Se somarmos todos os touros, a águia Vitória, os animais usados no circo e aqueles que empurram carroças, iremos obter uma cifra possivelmente abaixo dos 0,0001% do conjunto dos animais domesticados que são diariamente abusados neste país. Os outros 99,9999% que são cruelmente explorados em contexto de produção intensiva parecem não interessar a estes activistas.

Se visitarmos a página oficial do PAN que contém notícias de todas as acções do partido, constatamos que, nas 50 notícias que foram publicadas no último meio ano, não existe uma única referência à pecuária intensiva. A futilidade desta inacreditável opção estratégica, que reduz o potencial do animalismo a uma crítica isolada de certas manifestações pré-capitalistas (para não dizer mesmo pré-históricas) de abusos a animais, deixando para terceiro plano o questionamento do modo como a sociedade capitalista lida com a questão animal, mantém incriticáveis os hábitos culturais da esmagadora maioria da população, assentes sobre a exploração massiva dos recursos naturais. Ela vem assim desviar a crítica animalista das práticas atrozes dos industriais da carne, do peixe, do leite, do queijo, dos ovos, etc., que continuam a cometer impunemente e sem suscitar praticamente nenhum debate todo o género de monstruosidades aos animais que em Portugal continuam a sofrer longe da compaixão animalista. A regra de ouro para os industriais é simplesmente que o façam em relativo segredo (ou seja, dentro de quatro paredes), jamais em público, porque é isto que de facto mais aflige o animalismo burguês lusitano: que os atentados à vida animal se processem diante dos olhos das pessoas (e das pobres criancinhas!), numa arena, num circo, num estádio, na televisão, nas ruas, já que para a consciência destes animalistas o que não se vê não existe. Siga a festa. Banalize-se a atrocidade. E aproveite-se a última promoção do folheto do hipermercado.

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O animalismo português continua a não ver um grande tema de ‘debate nacional’ numa sinistra linha de produção em cadeia, onde vive e morre silenciosamente o gado de que 99% dos portugueses se alimentam. Continua a ignorar a formatação capitalista da vida animal, preferindo centrar-se na denúncia de práticas culturais pré-capitalistas, como são as touradas, os circos ou as carroças, que representam uma ínfima percentagem das práticas culturais do nosso tempo que envolvem animais. Há uns 200 anos atrás, um tal movimento poderia sem dúvida ter apresentado utilidade. Hoje, ele não manifesta mais do que futilidade, servindo acima de tudo para reproduzir “a imagem asséptica e edulcorada que actualmente se tem do mundo animal” (Francis Wolff), uma imagem antropomorfizada, mitificada e distanciada da realidade, cujo estereótipo são os simpáticos animais da Disney. Perante a banalização da mercantilização de todas as formas de vida, manipuladas enquanto recursos passivos e inertes com o único fim de rentabilizar capital, ele existe à margem dos principais reptos deste período histórico. Será talvez um dia recordado em notas de rodapé de livros de história, como uma bizarra curiosidade de uma época tão pouco atenta aos seus mais urgentes desafios. Enquanto ele teimar em não perceber a especificidade de um mundo continuamente formatado pelo capital, milhares de milhões de animais continuarão a ser diariamente explorados e torturados por humanos sem outra preocupação que a de tudo reduzir a mercadorias e sem outra meta que a de incrementar lucros e produtividade.


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About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

15 thoughts on “A bizarra fixação do PAN pelas práticas culturais pré-capitalistas

  1. Acha que é bizarro? Eu acho que é apenas e só a tradicional hipocrisia dos animais Umanos a manifestar-se.

    Há uns cinco anos atrás fiz um vídeo a que dei o título

    “Auditores da Qualidade McDonald’s – Anúncio antes de edições”

    Coloquei-o no youtube… Foi removido! Motivo?

    “ATTENTION

    The following video(s) from your account have been disabled for violation of the YouTube Community Guidelines:

    Auditores da Qualidade McDonald’s – Anúncio antes de edições – (voza0db)

    Sometimes people do get hurt and it’s inevitable that these events may be documented on YouTube. However, YouTube is not a shock site. It’s not okay to post gross-out videos of accidents, dead bodies or similar things intended to be shocking, sensational or disrespectful. If a video is particularly graphic or disturbing, it should be balanced with additional educational or documentary context and information.”

    O vídeo apenas demonstra aquilo aqui referido:”O animalismo português continua a não ver um grande tema de ‘debate nacional’ numa sinistra linha de produção em cadeia, onde vive e morre silenciosamente o gado de que 99% dos portugueses se alimentam.”

    Foi nessa altura que deitei fora o lixo youtube e desde então só uso vimeo (quando uso!)

    Fica aqui o vídeo, e já agora mais alguma realidade sobre animalismo Umano!

    Quanto ao PAN… Não dá para mais! Já deve de estar com medo de perder o lugar nas próximas eleições e assim sendo não quer trazer o animalismo para o debate!

  2. Qual é a alternativa.? Era importante dizer. Tanta erudição anticapitalista,pré capitalista,post capitalista,deve propor nos uma solução alimentar para a carne que temos de consumir.Obrigado.Fico à espera.

  3. Mas alguém consegue levar a sério o parlamento? O PAN, partido que diz defender os animais, não parece querer abolir a exploração animal. O Bloco de Esquerda, partido feminista burguês, apoia e participa da opressão dos animais, ignorando completamente a forte ligação histórica que existe entre feminismo e vegetarianismo. Esta gente está mais preocupada em falar coisas que as pessoas querem ouvir do que aquilo que as pessoas precisam de ouvir. E não importa se toda a produção industrial de carne é absolutamente abominável, se o seu impacto ambiental é tremendo ou se, ironicamente, faz mal à saúde. Existe algo de muito sádico nesta sociedade que prefere matar animais a comer vegetais e legumes.

    1. Obrigado José Rodrigues, por nos fazer descobrir o seu fascinante blog. De facto há uma convergência enorme com o que tenho escrito. E há muitos e muito bem fundamentados argumentos para somar aos que já apresentei. Haverá sem dúvida que continuar a desmontar este enigmático movimento representado pel(a maior parte d)o animalismo português. “O inquérito tem de ser continuado.” E para isso contamos com o seu indispensável auxílio. Um abraço do Alentejo.

  4. Seria ingenuidade pensar que o PAN não considera a criação intensiva de animais o grande “coração das trevas”, o mal a debelar. Creio que a omissão quanto a este assunto é estratégica: começar primeiro por aquilo que é consensual, por aquilo que já encontra eco na visão genérica, aburguesada, que “a sociedade” tem dos animais: proteger os animais de companhia, proibir as touradas, etc.
    É uma estratégia. Pode concordar-se ou não com ela, pode ou não dar resultados. Pode ou não ser legítimo que um partido que é intrinsecamente anti-“sistema” se acerque dele com falinhas mansas. Mas que o PAN tem como fim último o boicote a todos os produtos de origem animal, disso não tenho dúvidas.
    Dito isto, sou mais de rupturas e menos de consensos. Mas não tenho uma fórmula.

    1. A única ingenuidade aqui é a Andreia acreditar que o PAN é um partido anti-“sistema”. Nas questões animalistas, o PAN materializa exactamente a visão antropomorfizada, asséptica, edulcorada, fútil e superficial que a burguesia portuguesa tem da vida animal. Por isso, ele aborda as questões “consensuais”, como a Andreia – e muito bem – lhes chama; as questões que a burguesia e o sistema consideram legítimas, apesar da sua evidente superficialidade e futilidade. Os empresários do agrobusiness, da mineração ou das grandes construtoras (estradas, pontes, linhas de TGV, aeroportos) riem-se destes anjinhos inofensivos, dado que não colocam o mais pequeno entrave aos seus negócios, apesar destes representarem um risco de exploração massiva ou extinção para 99% dos animais. A formatação capitalista do planeta pode continuar a reproduzir-se em paz. Será isto o anti-“sistema”?

      Por outro lado, “se visitarmos a página oficial do PAN que contém notícias de todas as acções do partido, constatamos que, nas 50 notícias que foram publicadas no último meio ano, não existe uma única referência à pecuária intensiva.” Acha isto normal para um partido anti-“sistema”, defensor da vida animal?

      O único “sistema” que o movimento anacrónico do PAN efectivamente reprova e combate é o medieval (carroças, circo, touradas, tiro aos pombos)…

  5. Sabe, Duarte, eu acho que o PAN não se assume como um partido anti-“sistema” (se é que alguém ou algum partido ou movimento pode sê-lo sem mácula), mas se defende, como defende, o veganismo e o fim de toda a exploração animal, é necessariamente um partido que pretende subverter, a partir de dentro, a ordem em que se encontra. Há maior sustento para o capitalismo do que a exploração animal? Boicotar produtos animais não será a forma mais eficaz de rejeitar o capitalismo, de o pôr em perigo? Se o PAN quer fazê-lo com sorrisos e voz mansa, quem sabe?
    E compreendo a omissão sobre estas questão em entrevistas, ainda que preferisse uma acção explícita. Desconfio de que nenhum partido chegaria ao parlamento caso falasse sobre a abolição da criação intensiva e a infâmia que é comer carne, peixe, ovos, leite, etc. O PAN procura conquistas graduais. Foi calculista e começou por onde era mais fácil. Como disse, não sei se é a melhor estratégia, mas é uma estratégia. Não invalida o trabalho de outros movimentos, talvez amacie o caminho para ideias mais “extremas”.
    Também me pergunto se a utilização de animais em carroças não é sobretudo, hoje em dia, uma nostalgia burguesa, utilizada em casamentos, passeios turísticos, etc. Não sei se há tanta gente como isso a utilizar animais como trabalhadores nos campos.

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