Pequeno guia dos mais caricatos argumentos sobre o turismo lisboeta

O turismo que devora Lisboa – fazendo-a já suplantar o Algarve em número de hóspedes e receitas de hotelaria – instalou-se por fim como um dos tópicos escaldantes deste verão. Muitos dos analistas que habitualmente escrevem em blogs ou jornais apreciam sem reservas o fenómeno e acham mesmo que o boom da especulação turística do território é uma oportunidade irrecusável para a capital. Outros preferem destacar os seus perigos.

Os argumentos de quem tem analisado o turismo lisboeta vão do extremo dos que praticam o culto das identidades locais, mesmo que paradoxalmente seja para vendê-las ao turismo, como é o caso da empreendedora Catarina Portas – que tem sabido plagiar, com assinalável sucesso comercial, António Ferro -, até ao extremo neoliberal, igualmente bem posicionado no debate, dos que não desdenham a sagrada oportunidade que a explosão turística representa para a valorização imobiliária da “estrumeira” em que o centro de Lisboa estava convertido. Entre estes dois extremos (ambos interessados, assinale-se, na especulação ainda que de recursos diferentes) encontramos uma ampla gama de analistas que, pertencendo à classe média, como aliás todos os outros, pouco mais têm feito do que defender a afirmação territorial desta classe, servindo a sua argumentação para legitimá-la como a nova proprietária dos velhos bairros do centro histórico de Lisboa. Argumentam que a cidade acaba por beneficiar enormemente da “requalificação urbana” que ocorre graças ao impulso da especulação turística, “revalorização” essa que corresponde exactamente a uma hegemonização da cultura material que define e caracteriza a classe média.

E pelo caminho também tropeçamos, ainda que bem menos do que o que seria desejável, num ou noutro pensador singular, como é o caso do inconfundível Tiago F. Duarte, que defende que à calamidade turística, como àquela da gentrificação, nada de estruturado há que lhes possamos opor; porque, para ele, o desastre capitalista não se ultrapassa, habita-se, subverte-se, bloqueia-se – de que formas e com que consequências é que ninguém sabe.

Uns como outros acabam por oferecer-nos uma preciosa caricatura de alguns pontos de vista que marcam múltiplos debates políticos actualmente em curso. Proponho-vos por isso este pequeno guia. Porque à boleia do turismo, o que aqui se discute não é meramente se devemos ou não vender Lisboa aos seus visitantes, mas sobre o lugar do capital, da especulação, da identidade ou dos pobres lazeres da classe média em toda a vida presente.

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Ressuscitando António Ferro

Uma parte substancial dos comentadores, fazendo lembrar o argumentário saudosista do Partido da Terra, dedica-se a chorar a perda da identidade autêntica de Lisboa. Costuma, num tom de lamento, escrever coisas do género: “Cada vez que um restaurante ou um café opta pelas ementas com fotografias, traduzidas para inglês, francês, alemão ou italiano, ou quando opta por abrir mais uma esplanada espalhada por um passeio já cheio, ou quando começa a oferecer “full English breakfast!” ou “authentic cod experience”(…), cada vez que isso acontece, Lisboa perde mais um bocadinho dela própria, e arrisca-se a acabar por ser uma mera extensão da Rua Augusta. É inteiramente compreensível que um dono de restaurante tente apanhar o euro do turista, mas a longo prazo, é uma opção desesperada que vai descaracterizar a Lisboa que amamos e que, ironicamente, é a razão que trouxe os turistas até cá” (Lucy Pepper, Observador).

Destes analistas da coisa urbana que, perante a avalanche turística, optam por procurar refúgio no bastião potencialmente xenófobo da identidade, o caso mais famoso vem sem dúvida de uma especuladora profissional de portugalidade: “Não podemos estar de braços abertos a tudo. Tem de haver estratégia. Sobretudo, o que me preocupa realmente é matar a galinha dos ovos de ouro. Ou seja, os turistas vêm a Lisboa porque gostam de uma cidade que não é ainda uma cidade perfeita, que é uma cidade com charme, antiga e que ainda tem algumas coisas de manufactura que não existem noutras cidades da Europa. Quando um hotel aparece a querer despejar as lojas que lá estão há cem anos, o que esse hotel está a fazer é matar a galinha dos ovos de ouro, como é o caso do Hotel Bordallo Pinheiro que, para existir, vai despejar uma loja com 99 anos, a Cerâmica de Sant’Ana(Catarina Portas, Jornal i).

Esta crítica do turismo satisfaz-se com a reaccionária celebração das identidades locais. Parte do questionável pressuposto de que é natural uma determinada cultura local manter-se pura e imaculada, como se ela não fosse sempre o resultado de um processo de contágio de outras culturas. Ela vê a museificação do que considera ‘autêntico’ e ‘genuíno’ como a política correta de gestão da forma urbana.  Para ela, turismo em Lisboa, sim, mas sem interferir nesta política de congelamento do território; ou melhor, estimulando essa política de criação de parques temáticos de portugalidade, indiferentes à passagem do tempo e vendáveis aos turistas, sedentos de representações folclóricas e caricaturais.

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Desalojar para investir

No outro pólo, há, e não são nada poucos, os que aplaudem euforicamente o desenvolvimento do negócio imobiliário impulsionado pelo turismo e a consequente expulsão de comércios e populações do ‘centro histórico’: “Para multidões de jovens famílias, a possibilidade de desalojar inquilinos com rendas irrisórias libertou apartamentos no centro da cidade e encorajou a sua renovação de forma a que hoje, de Braga a Faro, há uma vida no centro das cidades que não se via há décadas. Para quem quer saber de justiça, a atualização das rendas deixou que muitos senhorios pudessem ter algum retorno daquilo que herdaram em vez de subsidiarem inquilinos mais ricos do que eles” (Ricardo Reis, Dinheiro Vivo). Para estes analistas, o território não é mais do que um recurso na mão de uma elite de investidores (sendo que neste caso 80% são estrangeiros) à procura de valorizar capital e o turista o agente necessário à reconstrução de Lisboa: “O turismo, os vistos gold e os reformados franceses são os únicos com dinheiro para financiar a reconstrução da baixa. Sem turismo e investimento estrangeiro a reconstrução em vez de se fazer em 20 anos levaria 50” (João Miranda, Blasfémias).

Para o centro histórico deixar de “ser uma estrumeira”, estes escribas neoliberais defendem portanto que “em vez de olharmos para o turismo como se fossemos uns miseráveis a quem sai o Euromilhões e que devolvem o prémio, preferindo continuar na miséria porque não sabem o que fazer com o dinheiro, devíamos estar a tentar descobrir como é que conseguimos continuar a ter cá turistas a darem-nos dezenas de milhares de milhões de euros todos os anos” (Tomás Belchior, O Insurgente).

Poderia multiplicar os exemplos dos louvores à rentabilização turística do território, mas, por economia de espaço, citarei só mais um: “Bastava o mínimo de coerência e estudo, ou até ir de vez em quanto ao tal centro histórico da cidade, para se perceber que não há qualquer sangria do centro histórico motivada pelo turismo, ou pelos estrangeiros que vêm para cá viver, ou pelo investimento imobiliário. O que há é precisamente o contrário, um vislumbre de vida e de viço. Durante as décadas e décadas em que Alfama perdia população, ninguém quis trocar o conforto de Telheiras pela realidade de Alfama. E agora que Alfama é mais visível, que está na moda, que aparece na imprensa internacional, que tem franceses com bom aspeto a irem ao pão de manhã e miúdas giras a estender roupa, e casas recuperadas em que apetece viver quando se olha da rua lá para dentro, agora que finalmente os moradores de sempre conseguem rentabilizar as suas casas ou parte delas, melhorar as suas vidas, do que se lembram é de vir pedir a intervenção do Estado e do município para… ‘estancar a sangria’.” (João Taborda da Gama, DN)

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Expulsar para higienizar

Entre os dois extremos acima enunciados, há quem, sendo mais centrista e estando genuinamente identificado com a visão do mundo da classe média, não consiga ficar indiferente “aos prédios de cara lavada, aos passeios recauchutados, às esplanadas animadas, às lojas que se atarefam para dar vazão a uma nova freguesia” (João Berhan, Malomil). Para estes analistas que vêem no turismo uma possibilidade muito interessante para a tão desejada ‘requalificação urbana’, “o turismo é uma máquina de transformação urbana e é bom que se perceba quais são as várias dimensões dessa transformação, seja no mercado imobiliário, seja no espaço público, seja na revalorização de determinadas áreas” (Álvaro Domingues, Expresso).

Pouco importa aqui se, para que os bairros se “revalorizem”, a lei do mercado provoque a expulsão quase instantânea dos seus moradores menos abastados e respectivos comércios. Pouco importa que a finalidade da requalificação/revalorização urbana seja a de tornar atractivos e vendáveis, a uma nova classe de gente que disponha de meios para tal consumo, bairros até aí desprezados pelos investidores, visto que eram incapazes de atrair consumidores. Para estes analistas, o que verdadeiramente importa é que bairros decadentes sejam subitamente “revalorizados” e que, graças à recodificação e limpeza (em sentido simultaneamente figurado e literal) a que são integralmente sujeitos, se tornem finalmente capazes de atrair a classe média – da forma das fachadas ao interior dos comércios nada escapa à vaga recodificadora/higienizadora que se impõe ao território. Para eles, a política correta de gestão do território urbano é assim uma política de higienização urbana (assunto tão discutido no Brasil mas ainda tão ignorado em Portugal) onde tanto se limpam da paisagem as materialidades das classes ‘populares’ que dão má imagem aos lugares como os próprios moradores que usam e habitam essas materialidades. Em suma: o turismo – este levar a todo o lado o mundo da classe média -, e desde que controlados alguns excessos ocasionais, será obviamente bem-vindo.

“Tudo é turismo”

Há também aqueles – e são inúmeros – que não se cansam de martelar que “todos somos turistas, mesmo os que não se sentem forçosamente identificados com aquilo a que chamamos turismo” (Vítor Belanciano, Público). Há várias formas de argumentar esta suposta universalidade do turismo, sendo que a mais sofisticada é provavelmente aquela que se fundamenta na evidência de que todos sem excepção estamos sujeitos à grelha infraestrutural que é responsável pela gestão contemporânea da cidade, permitindo o controlo social, a reprodução do capital e, logo também, o aparecimento do turista e das indústrias a ele associadas (Tiago F. Duarte, Medium).

Desta óptica – que faz radicar na evidência de que ninguém escapa ao capital o menos evidente facto de tão pouco ninguém conseguir escapar ao turismo -, a crítica “vulgar” do turismo que o denuncia enquanto “imposição do “falso”, do “inautêntico”, do “espectacular” ou do “simulacro”” não passa de “birra reaccionária”. Se quiséssemos ser revolucionários adultos, teríamos de aprender não a ultrapassar o desastre capitalista, mas antes a habitá-lo (Tiago F. Duarte, l’obéissance est morte). Perante o totalitarismo do capital e das suas indústrias, como as que compõem o turismo, seria assim tempo perdido procurar propor-lhes alternativas – para o lixo as notas para uma crítica radical do turismo. O caminho será outro: em vez de elaborarmos críticas que possam servir de ferramentas para negarmos a sociedade do espectáculo, devemos aceitá-la como a base dos nossos subversivos e poéticos empreendimentos. Mas não será este revivalismo autonomista do pós-estruturalismo (crente de que nada há a opor às estruturas objectivas do capital a não ser a nossa fantasia subjectiva, livre e espontânea para habitá-las e subvertê-las) mais ingénuo do que a velha crítica (estruturalista) que ele procura superar?

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Uma síntese

Sob a aparência de estarmos aqui meramente diante de diversas modalidades de enfrentar a mercantilização em curso do território lisboeta, o que temos – e é isto que verdadeiramente interessa – são caricaturas de propostas ora complementares ora antagónicas de entendimento e de organização da pólis: a proposta identitária, que deseja ressuscitar (ainda que seja para comercializar) a portugalidade perdida enquanto identidade legítima de um povo genuíno e de um território museificado; a proposta neoliberal, exclusivamente preocupada em atrair capital, desejando eliminar os entraves (humanos) à sua rápida multiplicação; a proposta que se limita a traduzir a mundividência da classe média, procurando legitimar a disseminação e hegemonização da cultura material desta classe; a proposta autonomista pós-estruturalista, a única efectivamente original mas nem por isso menos caricata, que sonha com uma paradoxal superação do omnipresente mundo capitalista através, não da sua negação, mas da sua livre e espontânea apropriação.

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

4 thoughts on “Pequeno guia dos mais caricatos argumentos sobre o turismo lisboeta

  1. Quanto às opiniões de direita – são expressões da ideologia dominante, lugares comuns neoliberais, seja na versão dura ou na versão (cosmo)politicamente correcta (um piropo em inglês soa sempre melhor) – não há nada a “debater” com esta gente.

    A posição do Tiago F. Duarte parece ser simultaneamente demasiado pessimista (não há nada a fazer, o sistema é total…) e demasiado optimista (a “livre e espontânea apropriação do omnipresente mundo capitalista “, a multitude que se auto-organiza e essas coisas…). É uma boa descrição do mundo tão apreciado pelos do outro lado, mas as suas virtudes ficam por aí (o que não é pouco) – aliás, quem melhor do que eles “aprendeu a habitar o desastre capitalista”?

  2. Só agora dei conta e tentarei regressar com mais vagar. Há inúmeras operações em curso de reapropriação da cidade, tendo várias ganho atenção mediática nos útlimos meses: falo obviamente dos bairros periféricos à volta de Lisboa. Relativamente ao guia para ser um não turista, lamento, mas não sei de que modo as práticas que tu ali descreves, interessantes sem dúvida, podem ser a base de qualquer tipo de resistência senão extremamente atomizada. O que me leva a pensar que não há absolutamente nada que me garanta que os milhões de turistas pelo mundo fora não andam, também eles, entregues à sua contemplação fenomenológica do imediato. Utilizando os teus termos hegelianos, não vejo como é que podem “negar a sociedade do espetáculo”.

    Acho que há coisas a fazer, que passam por construir infraestruturas de classe. São extremamente materiais e imediatas e estão em curso. Já agora, já se esboçava tanto uma caricatura como uma crítica mais sofisticada do “autonomismo pós-estruturalista” não? é que não só não digo que não há nada a fazer como participo em várias instâncias onde efectivamente se fazem coisas, ironicamente num nível bastante mais intenso, potente e capaz do em todos esses meandros que choram a desgraça à espera que lhe venham as condições objectivas cair na mesa do café…

    abraço

    1. Tiago, às vezes penso que a tua teoria da reapropriação do sistema tem algo de profundamente… trotskista: não se nega a sociedade desenhada pelo capital, antes se procura humanizá-la para assim se poder devolvê-la à comunidade. A grande diferença, claro, é que os trotskistas querem tomar o ‘grande’ Poder (situado no centro da sociedade – a partir de onde a comandarão e policiarão), enquanto tu acreditas numa massa difusa de pessoas, sem líderes, tomando directamente para si os ‘pequenos’ poderes, dispersos, foucaultianos, os quais até aí se exerciam subtilmente (ou brutalmente) contra elas por exemplo através de infra-estruturas…

      Abraço do campo e votos de uma excitante aventura por terras de sua majestade!

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