Elogio da viagem não-turística

Caro-Diario-2

Quando se discutem as virtudes e os desastres do turismo, há uma confusão que logo assalta os debates: vincula-se tacitamente o ‘turista’ a todo aquele que viaja. E assim fala-se do turismo como algo de universal e inevitável. Este envenenamento dos debates é absolutamente absurdo quando pensamos que a viagem remonta à pré-história e o fenómeno contemporâneo do turismo tem as suas raízes na época romântica. Dir-me-ão que, antes do romantismo, as viagens faziam-se por razões essencialmente económicas ou biológicas, mas jamais por motivos de ordem exclusivamente cultural. É falso. Como os pré-historiadores bem sabem, a curiosidade sempre levou o homem a lugares remotos, desligados da satisfação de quaisquer necessidades quotidianas de ordem prática/funcional. Os homens paleolíticos europeus, por exemplo, visitaram obsessivamente grutas recônditas por razões de ordem estritamente cultural. Não viajavam até galerias profundas, de difícil acesso, à procura de comida nem de abrigo, mas por motivos bem distintos, que hoje sabemos serem de natureza puramente simbólica.

Não se deve subestimar a complexidade do bicho homem, mesmo durante as épocas mais remotas. Reduzi-lo, à boa maneira positivista e materialista, à satisfação de necessidades de ordem meramente prática leva-nos a ignorar a parte mais interessante do seu comportamento e do seu pensamento. Deslocar-se pelo território, pelos mais obscuros motivos e também pelos mais triviais, está na essência desta estranha espécie que, exactamente por isso, detém um impressionante conhecimento acumulado sobre a geografia do planeta. Viajar, seja qual for o motivo, está-lhe no sangue; fazer turismo não – está no sangue, isso sim, do capitalismo.

O turismo, como algures procurei demonstrar, é a organização da viagem dentro de moldes capitalistas. Trata-se da indústria que manipula o território para aí fabricar imagens e experiências vendáveis àqueles que viajam. Convertida no consumo passivo e obediente de serviços e mercadorias, a viagem é esvaziada tanto da liberdade como da imaginação que Nanni Moretti revela no filme Querido Diário quando, passeando na sua Vespa, se apropria subjectivamente do território de Roma. A diferença entre as incursões do cineasta e as dos turistas aos bairros romanos está no vínculo profundo e subjectivo que o primeiro, ao contrário dos últimos, cria com a cultura dos territórios explorados. É aliás a existência de um vínculo de qualquer natureza – desde que suficientemente profundo – com um território que permite a um viajante interagir activamente com este e descer a um nível mais profundo do que aquele em que opera a indústria turística. Sem vínculos, a viagem deixa de potenciar uma apropriação subjectiva do território, sendo esta substituída pela versão manipulada e superficial que é apresentada e vendida nos roteiros turísticos. A esta versão, pré-estabelecida e estandardizada, destinada a uma contemplação desde fora e passiva, nenhum turista tem nada a acrescentar.

Em Querido Diário, Nanni Moretti passeia por Roma, numa viagem por diversos bairros que lhe despertam a curiosidade, as memórias e a fantasia. Enquanto observa as fachadas, explora a sua imaginação e também reconstitui a história da cidade: “Garbatella, 1927, Villaggio Olimpico, 1960…” No passeio apaixonado de Moretti pelas ruas, pontes e bairros de uma das cidades mais turísticas do mundo nunca vemos… turistas. Nem tão pouco as imagens que são expressamente modeladas para o consumo turístico. Percebemos rapidamente que a relação do cineasta com a cidade não é mediada pela mercadoria turística. Roma não é para Moretti um lugar substituível, um lugar equivalente a qualquer outro. Existe uma relação profunda entre o cineasta e a cidade, que não é redutível a um consumo passivo, preguiçoso das suas paisagens, dos seus lugares, das suas arquitecturas. Nas suas sucessivas derivas, ele apropria-se activa e livremente do espaço, ao qual sempre decide regressar. E é justamente esse constante regresso que dá à viagem a capacidade de despertar memórias e emoções subjectivas.

A Roma de Moretti não é aquela que os turistas avidamente fotografam e onde nunca aparece nenhum residente com histórias pessoais, vinculadas a biografias verdadeiras, para lhes contar. Não é a encenação turística de San Pietro, da Piazza Navona, de Trevisi, da Piazza di Spagna, esses parques temáticos cuidadosamente organizados para o consumo por empregados de lojas e restaurantes, vendedores, cozinheiros, falsos artífices, seguranças privados, polícias e guias profissionais. A viagem de Moretti nunca nos leva a nenhum desses shoppings de imagens – desabitados, vigiados e geridos para multiplicar capital – que tornam o território num bem de consumo instantâneo.

Se falo aqui desta experiência de Nanni Moretti é porque, quando viajo, me revejo nela. Quando digo “viajo”, não me refiro a ir necessariamente a um qualquer lugar remoto. “Viajo” sempre que percorro livremente um território, incluindo o do meu dia-a-dia, com a predisposição de observá-lo de uma perspectiva diferente daquela que uso quando me limito à satisfação das minhas necessidades mais imediatas. Viajo sempre que passeio por um território distraído da minha rotina, dos seus horários e obrigações. Sempre que a minha imaginação se liberta das tarefas mais rotineiras enquanto se depara com as materialidades que dão substância a uma geografia. A verdadeira distância da viagem não é aquela que se toma relativamente ao território, mas ao quotidiano.

Também poderia dizer que viajo sempre que me torno capaz de perspectivar o território como se de um filme se tratasse (não advirão precisamente a força e o fascínio do cinema do facto deste invariavelmente nos fazer tomar distância relativamente ao nosso quotidiano, abrindo à imaginação um novo horizonte?). Viajar resulta para mim dessa habilidade, num certo sentido voyeurista, para converter o território num filme, documentário ou ficção – mas para os cinco sentidos. Trata-se porém de um filme em tudo oposto à encenação turística, já que nele não nos é negado o envolvimento, a participação, a interacção, a apropriação, ao contrário do turista cuja experiência do território, obsessivamente mediada pela câmara fotográfica, se resume a uma contemplação obediente, passiva e superficial, já que circunscrita à pitoresca capa do território onde competem entre si os múltiplos espectáculos turísticos, cada dia mais padronizados, previsíveis e vulgares.

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

6 thoughts on “Elogio da viagem não-turística

    1. Claro que não há turista que não se ache um viajante. A questão é que há viajantes que não são turistas (não são consumidores de espectáculos), ainda que seja cada vez mais raro e difícil encontrarmos algum, uma vez que o turismo se tornou hegemónico na mediação da viagem.

      1. claro. ficam nos locais onde ficam os turistas, comem onde comem os turistas, vieram no avião onde vieram os turistas. mas não são turistas porque sabem que é o nanni moretti. tá bem abelha.

      2. (Há comentários que, para lá de ignorarem mais de metade do texto que comentam, representam um retrocesso tão descomunal nos debates que não resta outra opção que não seja de os ignorar…)

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