EPÍSTOLAS (1) Sobre o bolchevismo de cordel

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Há, no terreno político, uma variação de bolcheviques particularmente curiosa. Não há tema sobre o qual não tenham todas as certezas, sobretudo se o tema fizer parte do cardápio bolchevique. Há luta nos professores? Eles sabem como deve ser, mesmo que façam tudo ao contrário. Há luta nos estivadores? Eles sabem como tudo  não devia ser, mesmo que nada façam para lá de uns cliques no sofá. Há luta nos desempregados? Eles rapidamente se aplicam a destruir a concorrência. Há luta no movimento social? Eles aparecem tarde mas a tempo de não deixar mais do que ruínas. Em todas as lutas, em todos os sectores, são os primeiros a dar lições, mesmo que não estejam dispostos a aprender nenhuma. São, por conseguinte, o melhor aliado dos reformistas. Face a bolcheviques assim, toda a concorrência ganha, quanto mais não seja por exclusão de partes. Curiosamente, eles que tanto pregam os seus pergaminhos sindicais, mormente na banca, assistimos à destruição do sector sem que se visse sequer um discreto abaixo-assinado. Passam os anos, reuniões após reuniões, resoluções atrás de resoluções, o regime interno radicaliza-se para justificar a deriva eleitoral, onde mais não fizeram do que destruir todas as pontes em nome de conquista nenhuma, na praia do mais abjecto populismo. “Tudo pelo Partido Revolucionário!” dizem, quase sempre perdigotando, mas só se fazem ouvir quando sistematicamente insistem em fazer entrismo nas organizações que abjuram. Todos os outros não fazem nada bem feito, ainda que eles, os bolcheviques, a única coisa que fazem há anos é minar o trabalho que quem não é bolchevique leva a cabo. BE, Plataforma 15 de Outubro, Movimento Sem Emprego, Que Se Lixe a Troika, Juntos Podemos, Agir… uma após a outra, as frentes de propostas mínimas, infinitamente blasfemadas pela doutrina, são os únicos palcos onde aparecem a cantar as suas loas. Poucas vezes para trabalhar, claro, que “não se constroem organizações inimigas”, e sempre para apontar, nos narizes dos demais, os dogmas que eles só cumprem na ponta do dedo indicador. Esta gente é tão bolchevique, mas tão bolchevique, que me espanta não haver uma revolução a cada quinze dias e que quem não é bolchevique não apareça furado num qualquer paredão ou no fundo de um poço. Não basta escreverem textos onde demonstram à plebe como é ser bom bolchevique, é preciso passarem, por uma vez na vida, a trocar palavras por actos e mostrarem como se faz uma cabana. Não basta protocolos secretos onde arquitectam tudo de cátedra sem o desconforto da democracia de base, é preciso desenhar o futuro do povo e a fórmula da felicidade da classe operária no terreno concreto. Não basta gritar vivas aos sovietes, é mesmo preciso ser um bocadinho soviético.

11 thoughts on “EPÍSTOLAS (1) Sobre o bolchevismo de cordel

  1. Por uma questão de objectividade mínima (abaixo da qual deixa de ser possível qq diálogo), convém esclarecer alguns pontos obscuros deste discurso “bolchevique de cordel”.
    Em 1º lugar, repare-se que não há aqui o mínimo laivo de atitude construtiva. Claro! Isso é demasiado complicado para quem só tem certezas absolutas, mas critica os outros por as terem também. É o típico caso do espelho.
    Depois, e passando ao concreto, surge uma referência, por exemplo à luta dos professores onde “eles fazem tudo ao contrário”. Quem esteve lá sabe perfeitamente o que se passou. Foram as bases e os activistas do MAS que dinamizaram a luta, tendo de combater simultaneamente em duas frentes: o ME de Crato e a FENPROF do burocrata Nogueira. E os resultados não envergonham ninguém. Foi na cedência de Crato que fez cair o governo de Vitor Gaspar (a última gota). Foram tb as bases junto com os activistas do MAS que derrotaram a Prova de Acesso. E se houve quem fez tudo ao contrário, foram os sindicatos burocratizados e foi a RUBRA (da qual fazia parte o Menor) que, na altura, publicou uma edição sobre educação e não teve uma única palavra sobre a luta dos professores. Perguntei à Raquel porquê e não obtive resposta adequada. Afinal, quem é que faz tudo ao contrário?
    Anda aqui alguém a enganar alguém, e eu, como pessoa normal, não gosto de ser enganado nem ver alguém a enganar os outros.
    Não me parece que com esses métodos se possa ir a algum lado.
    A direita agradece reconhecida…

    Não esbanjámos…….Não pagamos!!!

    1. Eu nunca fiz parte da Rubra que eu aqui é mais é bolos. O que é o MAS? Que comentário esquisito… É aquele partido que defendeu a revolução fascista da Ucrânia?

  2. sou da póvoa de varzim, passo por aqui às vezes e salvo raras excepcões vejo sempre os mesmos marcianos a falar de mundos estranhos.
    porque não dão uma volta pela merda do país a descobrir quem luta e em que condições é que luta?

    1. O nosso amigo poveiro tem toda a razão. Aqueles que andam sempre muito ocupados em destruir, naturalmente nem têm tempo para se dar conta que há lutas em curso. Sobre a participação do MAS na luta dos estivadores, ela já vem desde 2013, tempo em que nenhum partido o fazia. Neste momento os activistas do MAS já colaram mais de 400 cartazes da manif em Lx e arredores. E o menor, quantos colou?

      Não esbanjámos…..Não pagamos!!!!

  3. quando a verdadeira revolução acontecer, os queridos escritores “intelectuais” que populam por este blog serão dos primeiros a serem considerados traidores de classe e desaparecer misteriosamente, suponho.

      1. De vez em quando faço uma visita para me rir um bocado, continuem com a revolução camaradas!

      2. e não me leve a mal mas da mesma forma que de vez em quando gosto de visitar um museu também gosto de cá vir ver os fósseis, para mim são são entretenimento, uma comodidade, é positivo. Quase turismo. Não leve a mal. Guilty pleasure.

      3. Desdobrado em pseudónimos, este Marialva analfabeto não é mesmo capaz de “popular” daqui pra fora… Já agora, o que é uma “comodidade”?

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