Vivam os ‘anti-sistema’!

a propósito do despejo do Banc Expropriat, na Gràcia (Barcelona)

Manifestação dos ‘anti-sistema’, ontem na Gràcia (Barcelona)

Sem nos darmos muito bem conta, vivemos no totalitarismo. Apesar de toda a alardeada liberdade (que se cinge afinal de contas à liberdade para consumir: ao contrário do refugiado, o turista, esse insaciável consumidor de aventuras, viaja livremente, desconhecendo fronteiras), a pressão para nos identificarmos com o ‘sistema’ é absoluta. Essa pressão é-nos feita em toda a parte: na escola, no supermercado, na farmácia, na empresa, na televisão, na publicidade, no jornal, na paisagem. E, por estar em todo o lado, torna-se invisível. Deixou de haver um vazio, onde não somos pressionados para a identificação com o ‘sistema’. Como nos regimes fascistas/estalinistas, somos – mais do que meramente controlados e vigiados – estimulados a uma identificação total com o poder. Devemos interiorizar o sistema. Torná-lo nosso – parte de nós. E portanto amá-lo, defendê-lo, conservá-lo.

Durante o Estado Novo, o governo fascista manipulara toda a cultura, tornando-a mediadora da sua ideologia: da arquitectura aos manuais escolares, passando pela paisagem rural/urbana, o folclore, os lazeres, o património histórico e os conteúdos mediáticos. E assim procurou criar o seu homem novo, um homem que se identificasse sem reservas com o novo sistema social. O bom cidadão era aquele que, encarnando o sistema, tornava a censura e a repressão dispensáveis. Para tornar-se duradouro, o poder incorporava-se na cultura, a partir da qual ele era eficazmente interiorizado. Como qualquer outra ideologia, a ideologia fascista reproduzia-se na esfera pública, mas a sua enorme eficácia advinha do facto de também se reproduzir na esfera privada. Tratava-se portanto de uma ideologia omnipresente, que se incorporava na totalidade da realidade para, a partir dela, impregnar as práticas. Em consequência, os seus valores (as suas “verdades indiscutíveis”) enraizavam-se profundamente em quotidianos e imaginários. Quem deles divergisse seria um perigoso ‘anti-sistema’. Perseguido pela polícia, caluniado pela opinião pública, psiquiatrizado pelo padre.

Falar do poder totalitário fascista (e da sua eficácia na formação das massas) é falar precisamente desta ubiquidade do poder, desta sua incrível capacidade para estar em toda a parte (nos livros, nos monumentos, nas pontes, na gastronomia, nos lazeres, na música, na arquitectura das casas, dos aeroportos ou das escolas…) e, a partir daí, assediar todos os cidadãos, torná-los seus partidários. Os vazios, a partir dos quais se poderia perspectivar criticamente o poder, são obsessivamente eliminados; um por um. A existência de vazios (esses lugares imprevisíveis) é, sublinhe-se, uma das maiores ameaças a qualquer poder instituído, que assim, e como que por um primitivo instinto de sobrevivência, procura ocupá-los, preenchê-los com a sua ideologia. Para o poder, os vazios só existem para serem rapidamente preenchidos: primeiro envia-se a polícia de choque, depois são devolvidos ao capital e ao espectáculo.

Fogueira 'anti-sistema', Gràcia, Barcelona
Fogueira ‘anti-sistema’, Gràcia (Barcelona)

No bairro da Gràcia (Barcelona), foi fundado em 2011, nas instalações de uma antiga agência bancária, um espaço colectivo que promove práticas e experiências contrárias ao sistema dominante. Aquele que fora um “banco dos ricos, dos ladrões, dos caloteiros, converteu-se num centro social para as pessoas, ele é agora um espaço ocupado, libertado da banca e da lógica do dinheiro.” A ideia consistia simplesmente em abri-lo “a todos aqueles que tivessem alguma iniciativa sem passar pela mediação do dinheiro e do lucro pessoal”: biblioteca, costura, dança, pintura, meditação, teatro… Um lugar com uma clara vocação ‘anti-sistema’, portanto.

Na verdade não é preciso muito para ser-se rotulado de ‘anti-sistema’. Não respeitar a propriedade privada é mais do que suficiente (os ciganos que desde há décadas, em Portugal, ocupam casas devolutas ou pedaços de terra abandonados são talvez o protótipo mais arcaico do ‘anti-sistema’ português). O caso torna-se mais agudo se, ao desrespeito pela propriedade privada, somarmos a rejeição dos restantes pilares da sociedade capitalista: atomização social; capital anónimo; gestionarismo; produtivismo; consumismo; (des)informação mediática; contaminação do meio ambiente; mercantilização; turismo; venda da força de trabalho; especulação imobiliária; lucro.

O violento desalojamento em curso do Banc Expropriat vem mostrar pela enésima vez a vocação totalitária – porque anti-pluralista e hostil a discursos alternativos, a outros projectos políticos e modelos sociais – desta sociedade: somos livres para tudo, menos para fundar lugares e vidas que não traduzam a lógica do sistema capitalista. A luta pela conservação do Banc Expropriat é parte de uma luta infinitamente mais ampla pela abertura de horizontes que nos permitam continuar a sonhar a vida fora do capitalismo.

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

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