É a crise do sindicalismo, estúpido!

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Robbie Fowler celebra um golo pelo Liverpool em solidariedade com os estivadores da cidade, abandonados pelo sindicato amarelo mas apoiados por um movimento nacional e internacional sem precedentes, onde estiveram, entre outros, os estivadores portugueses.

Não há crise do sindicalismo, genericamente falando, há crise dos sindicatos que não sindicam ou dos sindicatos que ao invés de representar trabalhadores representam os patrões. Os trabalhadores cansaram-se de alimentar aparatos de burocratas cuja única função passou a ser a salvaguarda do seu lugar-tenente e os grilhões a uma concertação que ano após ano os levou a assinar o óbito dos seus próprios direitos.

A culpa, porém, não pode ser de todos no geral e de ninguém em particular, correndo-se o risco de amnistiar quem tem toda a culpa e virar as costas a quem não só não tem culpa, como tem o mérito de manter viva a capacidade de resposta de alguns trabalhadores. É o caso dos estivadores, que não é à toa que têm uma taxa de 100% de sindicalização. Unidos mas capazes de discussões frontais, independentes mas sem perder de vista a unidade de acção, basistas mas com direcção, conscientes e organizados, os estivadores são hoje um exemplo vivo de que o sindicalismo está mais actual do que nunca e que, pasme-se, além de defender uma profissão faz escola no combate à precariedade que querem impor a todos os sectores do trabalho.

Esta é uma luta onde o espaço em cima do muro é uma armadilha. É inaceitável que um patrão leve a cabo um despedimento colectivo com uma mão, para com a outra contratar um exército de precários sem direitos nem experiência adequada, pretexto para que se lhes pague um salário de miséria. É uma hipocrisia a imposição de serviços mínimos por se tratar de um sector estratégico, mas não ser estratégico contratar os estivadores necessários sem ser em modo de mercado escravo e capazes de fazer serviços máximos. Não se pode ceder à chantagem dos prejuízos que uma greve causa sem olhar antes para o lucro que os trabalhadores garantem a quem se limita a piratear a exploração dos portos, mantendo inclusivamente salários em atraso. Não é aceitável que o porto de Lisboa tenha sido vendido a um grupo turco com vista à aplicação do modelo chinês de trabalho e que sequer tenha sido salvaguardado um contrato colectivo de trabalho capaz de garantir não só a dignidade dos trabalhadores portuários como o fornecimento da cidade e do país com o profissionalismo que a sua condição estratégica exige.

Se o actual governo não revogar a lei dos portos do anterior governo não pode esperar outra coisa senão o mesmo combate, a mesma oposição. A esquerda que mantém apoio a este governo está obrigada a assumir esta questão com uma linha vermelha, porque a legitimidade que invocam para poder governar depende precisamente da sua coragem de não deixar tudo na mesma. Se a maioria dos eleitores lhes deu votos suficientes para formarem um governo e uma maioria, esse governo e essa maioria tem que ser fiel à mudança política que dizem representar.

2 thoughts on “É a crise do sindicalismo, estúpido!

  1. “Não é aceitável que o porto de Lisboa tenha sido vendido a um grupo turco com vista à aplicação do modelo chinês de trabalho e que sequer tenha sido salvaguardado um contrato colectivo de trabalho”.
    A crise do trabalho tal como o conhecemos no centro é indissociável da sua expressão global onde o “modelo chinês de trabalho” é a expressão máxima das contradições do capitalismo mundial – por se tratar aí de um proletariado com uma história muito diferente do do centro – embora os trabalhadores precários europeus sejam tanto parte do proletariado mundial quanto os trabalhadores chineses submetidos às regras do modelo local estamos perante um novo proletariado cujas condições de vida e de trabalho são claramente regressivas tanto num caso como noutro os direitos conseguidos estão-se desarticulando tudo dependendo da resposta e da orientação sindical decididamente anti-capitalista.

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