“RAPortugal 1986 – 1999”, por Soraia Simões*

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Terminei o meu trabalho de campo, dando assim início ao trabalho escrito. Não o teria terminado já se o tempo que me é imposto para o realizar não intentasse a esta auto delimitação.

Também neste terreno em que agora, e até Janeiro do próximo ano, me debruço sinto uma organização da ausência da memória, que Fernando Rosas há dias, no decorrer da homenagem prestada na reitoria da Universidade Nova de Lisboa, apelidava, num outro campo histórico, de (des) memória.

É curioso perceber como entre a segunda metade da década de 80 e meados da de 90 a cidade de Lisboa reagiu a uma série de confrontos sociais e culturais vindos de áreas geográficas ora circundantes ora distantes do centro. Ora se distanciou ora se representou por via daquilo que eram as preocupações, expressas nos discursos e práticas culturais, sonoras e musicais, de gentes vindas dessas áreas.

A «organização da ausência de memória», descrita por Fernando Rosas, é, quanto a mim, neste campo em que agora trabalho, nada mais do que uma tentativa exaustiva de limitar as memórias que fazem parte do caderno de afectos daqueles que foram os sujeitos transformadores de uma história. É ainda ao circunscrevê-la, em fontes, para a maioria da sociedade ao cariz hegemónico da imprensa e do audiovisual uma tentativa de não permanência da leitura dos actores dessa história no panorama nacional da sociedade e da cultura.

Ora é aqui que a história oral pode ter, e tem, um papel fundamental. A construção de um imaginário político e social ancorado em definições e em agendas políticas cuja matriz foi parte da discussão interna de um grupo de pessoas que crescem num espaço social distante do dominante, num domínio onde, sob o ponto de vista musical, sonoro e literário, estava ainda tudo para fazer em Portugal (o do «rap») foi também uma clara apropriação daquilo que eram as ânsias e angústias desses sujeitos e as suas vontades de emancipação no imaginário cultural nacional.

Na prática muitos deles nunca fizeram parte do corpo de texto, embora tivessem servido muitas notas de rodapé que justificou o corpo de muitos textos.

Um agradecimento público on-line aos que comigo têm partilhado as suas memórias e arquivos pessoais e ajudaram com isso a que me sentisse próxima do (in) visível.

*Investigadora IHC – FCSH/NOVA, Direcção Associação Mural Sonoro, RAPortugal 1986-1999, projecto financiado pela DGArtes

 

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