“Da Infâmia”, por Diana Luís

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Conheci a Maria Macedo numa época de activismo aguerrido em relação às praxes académicas, na sequência da perplexidade e horror do que tinha acontecido uma vez mais, desta vez no Meco, em que seis jovens morreram na sequência ou relacionado de alguma forma com praxes académicas. Esta mãe, envolvida num caso que eu também conhecia, mas já longínquo, de 2007, veio agradecer-me o que eu estava a fazer, ao dar a cara (correndo riscos que uma vez ou outra se aproximaram do risco físico) contra este fenómeno de imbecilidade atroz que por diversas (demasiadas) vezes conduziu jovens à morte ou à incapacidade, sem falar dos inúmeros casos de danos psicológicos que infelizmente, num país em que a saúde mental ainda é tabu, nunca poderemos contabilizar. Eu garanti a esta mãe que ia fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para, se não travar, pelo menos fazer o que fosse possível para denunciar todos os casos que vão ficando na obscuridade com o tempo. Para que desta forma a morte atroz do seu filho não tivesse sido completamente em vão. Para que a morte do seu filho pudesse ajudar outros filhos a evitarem a morte ou ganharem a consciência de que são seres humanos dignos e capazes de dizer que não a ordens abjectas de gente, que de gente tem muito pouco.

O funeral do Diogo Macedo decorria, e a tuna de que fazia parte tinha sido convidada para tocar a sua música preferida. Nesta altura a mãe foi informada que teria sido uma hemorragia cerebral súbita. Triste, mas credível, algo que nos pode suceder a todos. Foi então que a polícia interrompeu o funeral com a suspeita de que afinal, o Diogo teria sido assassinado. Ficou provado que a morte tinha sido fruto de agressões que aconteceram numa situação de praxe, numa tuna da Universidade Lusíada de Famalicão, a mesma tuna, os mesmos tunos que aceitaram tocar no funeral do amigo (amigo?) que tinham assassinado, ou visto assassinar, ou souberam quem assassinou, dias antes. A Universidade foi obrigada a pagar uma indemnização de 90 mil euros a Maria Macedo. Indemnização essa que não chega para reparar uma vida de ausência, de uma morte estúpida e incompreensível, de um homicídio. O Público cita “O relatório da autópsia ao cadáver de Diogo Macedo desfia um rol de lesões: um hematoma extenso no cerebelo, uma fractura da primeira vértebra cervical, duas escoriações no lábio, uma escoriação na orelha direita, múltiplas equimoses no tórax, múltiplas equimoses na região lombar e uma equimose no testículo.” Diogo Macedo foi brutalmente espancado e assassinado pelos que teoricamente o queriam apenas integrar.

E agora, volvidos nove anos do caso, os arguidos que nunca foram condenados pelos já conhecidos pactos de silêncio e uma amnésia selectiva que ocorrem sempre a estes grupos de gente que não é gente,  volvidos nove anos do caso, um dos arguidos decide processar Maria Macedo, por ter referido o seu nome num programa de televisão. Em 2013 Maria Macedo deu novamente a cara à sua dor em solidariedade com os pais dos jovens do Meco, para que não se repita, para que esta barbárie termine. Olavo Almeida deve ter pressentido a sorte grande, ao pedir uma indemnização de 120 mil euros, um autêntico terceiro prémio do EuroMilhões à custa da dor sem nome de uma mãe que perde um filho. Este mesmo Olavo Almeida que terá tocado no funeral do colega que ou assassinou, ou viu ser assassinado à sua frente, ou soube quem assassinou e silenciou-se. Se este tal Olavo Almeida estivesse realmente preocupado com o seu bom nome ou com a filha de três anos e as suas futuras pesquisas na Internet, nunca se sujeitaria a um processo que seria inevitavelmente mediático. Se este Olavo Almeida estivesse realmente preocupado com a educação do seu filho de três anos, ensinar-lhe-ia valores humanos, como a decência, o respeito, a empatia, a compaixão pela dor alheia.

Por mim, Maria Macedo, terá o meu apoio incondicional, tal como terá o apoio de qualquer ser humano com um pingo de decência. Quanto a Olavo Almeida, terá de viver o resto dos seus dias com dois crimes na consciência: um que cometeu ou não, que viu ou não cometer, que soube ou não que ocorreu; e outro, de condenar novamente uma mãe que já sofreu o maior sofrimento que pode existir, a uma nova humilhação, por um elemento que, querendo ou não, esteve envolvido, directa ou indirectamente, no assassinato do seu filho.

9 thoughts on ““Da Infâmia”, por Diana Luís

  1. “de gente que não é gente”

    Assim sendo não passam de animais degenerados! Claro que tenho de incluir nesta classificação todos eles… Os que praxam e os que se deixam praxar, pois ambos não foram educados de forma a que os tais valores “decência, o respeito, a empatia,” e sem dúvida alguma o mais importante deles todos (e que não é um valor) a compaixão

    Se a progenitora tivesse educado seu filho de forma a que alcançada esta fase idiota da praxe o mesmo a rejeitasse… Hoje não estaria aqui a escrever sobre mais um belo exemplo da degeneração desta espécie animal.

    1. É possível que para a geração corrente, que agora começam a ser pais, com o acesso à informação existente ter uma ideia mais bem-formada sobre a praxe e os riscos que lhe estão associados do que por ventura seria para a geração da D. Maria Macedo.

      É repugnante sugerir que ela tem de alguma forma culpa no que levou à morte do filho, até porque os filhos são livres de fazer juízos de valor e escolhas que por vezes escapam àquilo que os pais aconselhariam fazer.

      Ao menos sabemos que ela hoje se impõe contra as praxes e compreende o custo máximo da mesma. Já outros (alguns dos pais dos alunos que morreram no Meco) continuam a achar que o melhor é que a mesma continue como sempre.

      Dê-se crédito onde é devido e não atiremos pedras a alguém que já sofreu demasiadas perdas.

  2. E, que tal uma praxe ad posteriori do mesmo quilate a esse FDP?

    Deveria-se dar caça a essas ‘tunas’ de atrasados mentais-são estes FDP que ósdespois vão para os desgovernos, governar a populaça infantilizada!

  3. Praxes? São para atrasados mentais. Nunca praxei nem me deixei praxar. Mas é simples: quem não quer, não participa. Quem participa, se correr mal, é culpa própria. Na dúvida, os Tribunais pronunciam-se. Chama-se a isso LIBERDADE, um conceito inacessível aos vossos cérebros comunistas.

      1. De facto nem todos os atrasados mentais são praxados… da mesma forma que restam poucas dúvidas de que aqueles que praxam ou se deixam praxar deixam muito a dever à inteligência e senso comum.

  4. A essa corja de biltres enfatuados na capinha de estudantes, eu fazia como diz o Brecht:
    “Nós bem sabemos quem tu és, mas atendendo às tuas boas qualidades, vamos encostar-te a um bom muro e carregar uma boa espingarda com umas boas balas…”

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