Catarina Portas e a especulação turístico-comercial da identidade

1943

“Perante este processo de indiferenciação do espaço-tempo urbano, o desejo de reafirmar um sentimento de identidade e de caracterização vai procurar uma satisfação ilusória nos monumentos históricos e nos outros testemunhos do passado cultural de uma cidade. A museificação dos centros históricos que daí provém não produz uma revitalização real da vida social dos centros das cidades, mas sim um misto de especulação turístico-comercial e de garantia da consciência social.” Leonardo Lippolis

O case study Catarina Portas daria para umas quantas teses académicas sobre cultura material e reprodução identitária. Por isso, e apesar de não ter qualquer pretensão académica, voltarei uma vez mais a ele.

Celebrada em coro pela imprensa [em peças tão variadas e ao mesmo tempo tão parecidas no seu afã promocional como “O futuro do passado” (Revista Evasões), “As andorinhas d’A Vida Portuguesa já voam no Intendente” (Público) ou “Sonham, podem e fazem” Visão], a empreendedora alfacinha descobriu um novo filão comercial: mercantilizar a identidade nacional – a verdadeira, a autêntica, a pura; não confundir, por favor, com nenhuma contrafacção made in China. Mas comecemos por recordar, uma vez mais, o que está em jogo quando se discute o papel da identidade na constituição das relações que definem a sociedade, a história, a vida.

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Sempre que falamos de identidade, falamos dessa luta permanente, travada no interior de qualquer grupo, pelo congelamento dos significados e das formas que definem a cultura e, por conseguinte, a sociedade. Os adeptos da proscrição do movimento e do conflito na cultura – na linguagem, na estética, na política, no território, no corpo – tornam-se fervorosos partidários da construção identitária: António Ferro, o Partido da Terra, Catarina Portas. É a imposição social de um determinado património cultural que lhes permite conservar intacta e inalterável, durante um período mais ou menos largo, uma dada identidade, que pretendem manter ao abrigo dos caprichos da história. Para eles, pode por exemplo considerar-se português – ou seja, pertencer de pleno direito ao respectivo território – apenas quem se identificar com um dado património, já que é essa identificação que define “o que é ser português”.

Estabilizar no tempo e no espaço um património – mantê-lo intacto, subtraí-lo às relações efémeras e imprevisíveis em que tudo se inscreve – não é portanto uma tarefa neutra do ponto de vista ideológico, visto que ela promove na sociedade a reprodução e conservação de  uma dada ordem que, relativamente a uma geografia humana dada (no caso citado, o território português), tanto inclui (portugueses brancos) como exclui (estrangeiros, portugueses ciganos ou portugueses descendentes de chineses, de brasileiros, de cabo-verdianos…). Para Catarina Portas, quem, ao contrário dela, não possuir nenhum vínculo (sentimental, biográfico), nenhuma familiaridade com a cultura material que é vendida nas suas lojas fica excluído da sua definição do que é “ser português”. Por isso digo e repito que há obviamente algo de genuinamente fascista nesta definição. 

O que há aqui de novo é o facto de, perante a indiferenciação do território urbano às mãos do McDonalds, da Zara, do shopping, dos aeroportos, das auto-estradas (enfim, dos não-lugares), uma ilustrada elite ‘de esquerda’, crescida nos melhores bairros e educada nas melhores escolas e instituições burguesas da capital, decidir recuperar e plagiar António Ferro, esse grande pioneiro da celebração da identidade nacional pela mediação da cultura material. Confrontada com a globalização do espaço e dos costumes, esta esquerda une-se assim à extrema direita quando escolhe refugiar-se no bastião da identidade. Em vez de optar pelo risco de caminhar para o novo, para o desconhecido, para o inédito, ela prefere a comodidade e o privilégio de um suave regresso ao passado. Mas será que isto é assim tão surpreendente num país onde praticamente toda a gente acha normal “a defesa e a promoção da Lusofonia como forma identitária de afirmação”?

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“Se não podemos levar máquinas, nem automóveis, nem aviões, se não podemos teatralizar a nossa exposição com (…) modelos de comboios e paquetes (…) – porque não fazer uma parada de indústrias regionais, tapetes, mobílias, faianças – tudo quanto nos dá carácter, todas essas coisas pobres que são a riqueza, afinal, da alma de uma nação?” António Ferro, 1929 (in: Diário de Notícias de 4 de Junho)

“Ao longo dos últimos anos pesquisámos, do Norte ao Sul de Portugal, produtos de criação e fabricação portuguesa (…) que atravessaram gerações e nos tocam o coração. (…) São marcas registadas na memória e comercializam uma forma de viver. Relembram o quotidiano  de uma época e revelam a alma de um país. Estes produtos são nossos. Estes produtos somos nós.” Catarina Portas, 2016 (in: Manifesto da loja A Vida Portuguesa)

Eis, em síntese, a missão histórica de toda e qualquer identidade: resgatar a cultura do fluxo temporal e de toda a fecunda contradição que este encerra, com o fim de mantê-la imune ao contágio, ao contacto, ao exterior, para assim perpetuar o conforto e o prestígio que resultam da conservação de uma determinada ordem social. As identidades, enquanto legitimam a pertença a um dado território (às suas instituições, infra-estruturas, etc.), têm em comum o facto de promoverem a indiferença e a desconfiança relativamente a tudo o que, diferindo delas, se movimenta em seu redor (nomeadamente estrangeiros, migrantes, refugiados) – e que elas procuram por todos os meios silenciar. Enquanto negação do movimento, a identidade é também negação da vida. Não por acaso todos os actos de genocídio da história foram desencadeados pela defesa e imposição de uma identidade concreta – em detrimento de uma qualquer alteridade. Se a Europa se fecha hoje dentro de um bunker impenetrável para milhões de pessoas, não será, em última instância, para salvar a identidade dos europeus?

Mas Catarina Portas é também um case study fascinante pelo esquizofrenismo: ‘critica’ nas redes sociais e nos jornais o turismo, a quem afinal de contas empacota e vende a identidade ressuscitada. É paradoxalmente o turismo ‘destruidor’ da identidade, ao estimular a indiferenciação do território, que permite à empreendedora revitalizar, pela via da mercantilização, essa identidade entretanto caída em ruínas. Mas, mesmo que C. Portas não fosse intelectualmente esquizofrénica e que a sua crítica ao turismo fosse genuína e radical, essa crítica não teria de fundamentar-se na defesa e na exaltação da identidade nacional, ou de qualquer outra identidade.

Gostava de sublinhar um ponto que para mim é fundamental: a crítica ao turismo – ou, mais genericamente, à formatação capitalista do planeta – não deve satisfazer-se com a perigosa e reaccionária celebração das identidades locais, enquanto refúgio ao ciclone globalizador com que o capital anónimo varre hoje todo o planeta. Nunca existiu no planeta, contra as vontades dos piores tiranos, uma cultura que fosse pura, imaculada, imutável, petrificada. Todas as culturas sempre se alimentaram de outras culturas, vizinhas ou distantes, como demonstra a mistura cultural da nação que hoje mais influi na história do planeta. Também Portugal, velhíssimo país com fronteiras que constam entre as mais antigas do mundo, é o resultado de uma tremenda mistura cultural que se pode constatar na(s) sua(s) música(s), gastronomia(s), arquitectura(s), etc. Hoje como sempre, Portugal continua em transformação. Imigrantes africanos, sul-americanos, asiáticos trazem novos produtos, ideias e costumes aos bairros de Lisboa, tal como milhões de portugueses regressados da emigração e outros ‘retornados’ do continente africano.

É neste quadro vivo e diacrónico, com matizes cambiantes que são impossíveis de reproduzir numa imagem única, estática, sincrónica, que a especulação turístico-comercial procura decretar os limites e as fronteiras da identidade portuguesa. É precisamente este exercício que Catarina Portas faz quando reconstitui e vende ao turismo – sedento de representações folclóricas, caricaturais, redutoras, logo também facilmente apreensíveis – a imagem da portugalidade. Uma imagem que destaca as qualidades e características que, por terem supostamente permanecido iguais e indiferentes à passagem do tempo, permitem, segundo a empreendedora alfacinha, distinguir e individualizar aquilo que ela considera ser o povo português – puro, autêntico e genuíno.

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About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

4 thoughts on “Catarina Portas e a especulação turístico-comercial da identidade

  1. Excelente artigo que deixa bem claro que para alguns tudo se compra e vende, até a “identidade”. Gosto sobretudo da capacidade de abordares a tua crítica ao turismo sem diabolizar, nem cair no racismo etnocêntrico dos turistofóbicos. Continuo sem concordar no essencial – ou eventualmente no acessório – mas é reconfortante poder debater o tema sem a nauseabunda histeria dos esclarecidos que nunca têm dúvidas. De resto, na tua contemporização, deixa no ar alguns dos motivos pelos quais o turismo não me tira o sono na maioria dos locais do mundo. Abraço

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