Notas para uma crítica radical do turismo (VI)

O turismo, uma revolução semiótica sem precedentes

A indústria turística permite ao capitalismo unificar todo o território do planeta pela globalização de uma mesma linguagem. Se a oferta turística é potencialmente infinita, não o são os códigos que permitem decifrá-la. Tudo o que antes era interpretável graças ao uso de uma imensidade de códigos locais tornou-se interpretável à luz de um pequeníssimo conjunto de códigos de tipo universal. Este mundo semioticamente novo que o turismo inaugurou foi já exportado para praticamente toda a parte, pelo que a explosão da indústria turística representa a maior e mais rápida revolução semiótica na história da humanidade.

Uma breve nota sobre semiótica

A semiótica baseia-se na ideia chave de que todo o género de sistemas não-linguísticos (indumentária, tecnologia, arquitectura, paisagem, etc.) que participam da vida social poderão constituir campos semânticos. Ferdinand de Saussure, fundador da ciência moderna da linguagem, chamou semiologia à “ciência que estuda a vida dos signos no seio da vida social”. Hoje melhor conhecida por semiótica, esta ciência estaria encarregue, segundo Saussure, de revelar em que consistem os padrões consolidados de significação, a que chamamos signos, que os actores de uma sociedade usam para comunicar e quais as leis que os regem.

Ao interrogar-se sobre o modo como o mundo envolvente se torna semântico, a análise semiótica contribui assim para desvendar o papel que os lugares e as coisas possuem na vida dos agentes históricos e na construção da sua sociedade e identidade. Esta análise parte da premissa de que a cultura material pressupõe a existência de uma mensagem, um emissor, um receptor, a tomada de contacto entre ambos, o contexto da mensagem e um código que permite decifrá-la.

O turismo enquanto recodificação que simplifica – para melhor vender – o território

Quando viaja, o turista é receptor de múltiplas mensagens de carácter diverso, que poderá ser cultural, arquitectónico, paisagístico, gastronómico, patrimonial, histórico, artístico, entre muitos outros. Os agentes turísticos, enquanto preparam e organizam minuciosamente a experiência de consumo que pretendem vender, moldam o conteúdo dessas mensagens, ou simplesmente o seu contexto, de modo a torná-las descodificáveis pelo uso de um pequeno conjunto de códigos de tipo universal – os quais poderão ser operativos e úteis para um turista californiano, alemão ou filipino, quer ele esteja na Mongólia, no Alasca ou em Cabanas de Tavira. É este o milagre unificador do turismo que permite tornar equivalente e complementar, aos olhos não importa de quem, o que é essencialmente único e incomparável. A simplificação e redução dos códigos que permitem ao turista decifrar o mundo à sua volta permitem à indústria turística melhorar a rentabilidade do seu negócio, já que tornam o imenso planeta, com a sua diversidade cultural, à mercê do consumidor mais analfabeto.

Mas aprofundemos a análise. É porque institui um novo conjunto de códigos para interpretar o mundo circundante que a indústria turística torna universalmente interpretável, logo universalmente vendável, o território desse mundo. O turista só compra o que consegue decifrar. Um bazar em Marraqueche, uma casa de fados no Bairro Alto ou uma paisagem da Gronelândia serão muito mais facilmente vendáveis se as mensagens que comunicarem forem rapidamente decifráveis pelos seus receptores, não exigindo destes qualquer tipo de esforço intelectual. É com o recurso a atributos universalmente descodificáveis como são a grandiosidade, a espectacularidade, o exotismo, o insólito, a pseudo-antiguidade ou o pitoresco que se codifica o mundo turístico. Também determina a semântica deste novo mundo o contexto em que se dá a tomada de contacto entre este e o turista. Esse contexto poderá ser, entre outros, de aventura, de adrenalina, de bem estar, de diversão ou de evasão, e isso determina fortemente os significados que cada turista é capaz de atribuir aos lugares, monumentos e paisagens visitados.

Ora é justamente deste complexo de códigos e contextos, tão característicos da sociedade do espectáculo, que deriva a nova semântica do território, tornando obsoletos os velhos significados a que as populações locais o costumavam associar. De salientar que esta recontextualização turística do mundo sensível dispensa as contextualizações até aqui operativas e conhecidas. Este mundo, cuja única finalidade é ser consumido, torna-se portanto descodificável pelo uso de códigos universais ao dispor de qualquer turista, independentemente do seu background cultural.

Viajar tornou-se assim uma actividade tão fácil e passiva como comprar roupa numa loja da Zara ou da Mango, à porta de casa ou num país distante. Pesquisa, investigação, interacção, crítica ou contextualização histórica são tudo conceitos que se tornaram dispensáveis do léxico de praticamente qualquer turista. Mesmo o turista cultural, aquele que é atraído pelo consumo de mercadorias simbolizando a autenticidade e o ‘típico’ que supostamente definem uma cultura/identidade local, agradece que aqueles conceitos se tenham tornado obsoletos e praticamente desnecessários quando ele, falando inglês e sem nada de substancial alterar nos seus hábitos quotidianos, descobre uma nova cultura.

Os parques temáticos turísticos: uma selecção de imagens (e de histórias) facilmente vendáveis

Épocas houve em que viajar, quando não motivado pela mera expansão bélica, mercantil ou religiosa, exigia um conhecimento razoavelmente aprofundado das culturas, sob pena de se tornar impossível ao viajante explorar e mover-se pelo território e penetrar na cultura. Hoje, quando a viagem se está a tornar em mais uma experiência de consumo, previsível e entediante como tantas outras [“Passamos de um canal para outro, de uma moda para outra, de umas férias de três dias para as seguintes, e já não há nada que nos espante ou entusiasme” (Ballard)], é inversamente mais fácil a um viajante mover-se pelas ruas formatadas para o turismo de Alfama, do Barri Gòtic ou do Quartier Latin precisamente se não se possuir nenhuma capacidade intelectual para contextualizar cultural, política e historicamente as paisagens, arquitecturas e lugares que definem esses territórios.

Tornados parques temáticos, estes bairros devem ser experienciados já não em função da sobreposição de histórias concretas e verdadeiras a que poderiam fazer referência, mas em função exclusivamente dos seus atributos pitorescos e exóticos. A sua contextualização à luz por exemplo de uma história local – que é feita de uma sucessão de conflitos e tensões – é assim substituída pela versão simplificada e mentirosa da história vendida pelos guias turísticos, que invariavelmente apresentam o passado a preto e branco, como o resultado de processos lineares. Estes bairros tornam-se apelativos supermercados de imagens, facilmente vendáveis – mas sem qualquer ligação às vidas de quem efectivamente os habita e habitou.  Não é por isso de espantar o papel que a câmara fotográfica subitamente adquire na (intelectualmente e também fenomenologicamente empobrecida) experiência turística do território.

Também os monumentos históricos são frequentemente mobilizados para a criação de parques temáticos que, neste caso, vendem essencialmente a identidade de uma nação. O património que as instituições culturais de cada país geralmente escolhem para apresentar e vender ao turismo é, como já mostrei detalhadamente, manipulado visualmente com o fim de glorificar grandes feitos nacionais. Ele corresponde assim a uma criteriosa selecção de imagens unívocas e homogéneas que não traduzem as tensões e os conflitos do passado, ao não ecoarem as histórias e os acontecimentos que determinaram as resistências e oposições ao poder que abalaram a história. Perpetua-se deste modo a memória dos grupos que dominaram a história – memória esta que propaga a versão politicamente correcta do passado nacional. E assim se agrada também ao turismo, já que não há turista que não agradeça que as imagens que são seleccionadas para consumo ofereçam uma versão reduzida mas grandiosa e imponente – logo facilmente apreensível – da história. E pouco ou nada interessa que essas imagens sejam constantemente manipuladas com fins ideológicos.


Notas para uma crítica radical do turismo (I): A falsificação do real

Notas para uma crítica radical do turismo (II): O turista – esboço de definição

Notas para uma crítica radical do turismo (III): O turismo, uma invenção do capitalismo

Notas para uma crítica radical do turismo (IV): O turismo prolifera lá onde o território se separa dos seus habitantes

Notas para uma crítica radical do turismo (V): Tendências gastronómicas promovidas pelo turismo

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

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