Ser português segundo Catarina Portas

“Para mim, fazer a loja [A Vida Portuguesa] sempre foi uma questão de identidade. (…) A minha curiosidade sempre foi no fundo responder a uma pergunta que é: o que é ser português?” Catarina Portas

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Se António Ferro tivesse sido estilista, como teria vestido as suas modelos?

Será possível, em 2016, habitarmos um mundo que é formatado pelo capital anónimo que, como um furioso ciclone, varre e destrói os equilíbrios económico-sociais conhecidos, mas que simultaneamente preserva uma cultura reaccionária, centrada na reprodução de identidades nacionais, puras, petrificadas, imutáveis? Como já mostrei noutro lugar, a empreendedora Catarina Porta está convencida que sim – e há toda uma renascente indústria da pureza identitária e da nostalgia (feita de sabonetes, rebuçados, mantas ou brinquedos) que agradece.

Perante a deserção em massa, acelerada pela pressão turística, dos antigos residentes e comerciantes dos chamados bairros históricos de Lisboa, poderia tomar-se a opção política de pensar como se poderão criar condições para o seu regresso (abrindo guerra ao capital imobiliário, por exemplo). Ou pode simplesmente assumir-se que, perante a imparável avalanche turística, o melhor mesmo é rentabilizar turisticamente esses bairros, torná-los supermercados de imagens, pitorescas, exóticas, nostálgicas, os quais são vendidos aos turistas como parques temáticos de portugalidade, apesar de prescindirem dos seus antigos habitantes – afinal, a portugalidade, essa ideologia da direita nacionalista agora descoberta pela esquerda urbana, sempre passou muito bem sem os portugueses.

Catarina Portas, no seu empreendimento ideológico-empresarial (com direito a manifesto e tudo) que plagia sem jamais citar o projecto original de António Ferro de revitalização e purificação da identidade portuguesa através de “produtos de fabricação portuguesa”, tem explicado ao longo das várias entrevistas que regularmente concede à imprensa os diferentes aspectos da sua batalha pela conservação e mercantilização da portugalidade. Escolhendo uma ao acaso, obtemos uma autêntica lição sobre reprodução identitária, congelamento da história e saudosismo cultural. Tão útil como ler o programa ideológico do Partido da Terra. “Revelar Portugal” através de “mercadorias que exprimem a alma da nação”, eis muito sinteticamente o seu projecto que, no plano cultural, deve ser visto e criticado enquanto projecto neo-fascista que, conscientemente ou não, ele obviamente é.

O seu êxito massivo, juntamente com aquele do ‘novo fado’ e da Joana Vasconcelos, não deve por isso deixar indiferente quem diariamente luta por um país permeável e aberto aos imigrantes, às minorias, às subculturas, às diferenças; por um país com uma identidade líquida e precária que seja justamente o resultado (e não a negação) de todas essas diferenças.

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

11 thoughts on “Ser português segundo Catarina Portas

    1. Uma das suas maravilhosas contradições é que “combate” teoricamente o turismo a quem na prática empacota e vende a portugalidade. Da teoria à prática costuma ir sempre alguma distância, mas neste caso são kms a mais.

      1. Percebo, ainda que, quem contesta o turismo, regra geral acaba a defender o “turismo de qualidade”, aka, turismo para ricos, aka, turismo à moda da Catarina. É preciso levar o debate para um ponto mais sério, parece-me evidente, de modo a encurtar distâncias entre teoria e prática.

      2. Meter todos os críticos da manipulação/venda turística do território no mesmo saco da menina Portas é capaz de ser um pouco abusivo. Um exemplo fresquinho e online de uma crítica ao “turismo de qualidade”, reveladora de que, com ou sem “qualidade”, o turismo é sempre uma actividade capitalista promotora de desigualdades e de exclusão: http://www.jornalmapa.pt/2016/03/30/8283/.

  1. Dica Web:
    Assim, em cada post, é de imedaito identificado o autor,..

    Estou farto de “chamar” nomes ao Pedro Duarte que, muitas vezes sem saber, elogio publicamente. ;-)

    Abraço!

      1. Dica Web: pedir ao Webmaster para por a seguint tag HTML, na secção “head”: «meta name=”author” content=”Pedro Duarte” /»

        Assim, em cada post em qualquer rede social, particularmente no fb,, é de imediato identificado o autor,..

        Estou farto de “chamar” nomes ao Pedro Duarte que, muitas vezes sem saber, elogio publicamente. ;-)

        Abraço!

      2. acredita que voltei a não perceber quase nada? webmaster? fb? chamar nomes? elogiar publicamente sem saber? Depois de jantar, quando o tintol já tiver subido ao cérebro, tudo fará subitamente sentido…

  2. Interessante, realmente vocês ai passam por isto. Aqui no Brasil, nem se fala. Vivemos imerso nesta maneira mercadologica de se apreciar as nossas belas formas.

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