“Da Histeria Feminista”, por Diana Luís

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Iconographie photographique de la salpêtrière, Paris, 1878

Tendo já estado do lado da barricada que não compreende porque é que o feminismo faz sentido no século XXI, um acontecimento em particular fez com que mudasse substancialmente de ideias. Como em quase tudo na vida, por vezes é necessário que algo nos afecte directamente para conseguirmos perceber realmente, e reflectir mais profundamente. Um debate polémico, eu, e outras duas mulheres, uma professora do Ensino Superior numa Universidade respeitada e uma jornalista, e outros homens, como opositores. Uma plateia inteira e alguns homens e uma mulher do outro lado do debate. Quem foi vaiado não foi, como podem pensar os defensores do anti feminismo pós século XX, todos os opositores, independentemente do género. Ou nem aqueles que foram mais duros ou agressivos na sua oposição. Quem foi vaiado foram única e exclusivamente as três mulheres, nós, mesmo que eu enquanto zé ninguém não me pudesse escandalizar que me vaiassem, tinha aquelas duas mulheres altamente qualificadas e respeitadas a entrar-me pelos olhos adentro da perplexidade de não entender como é que aquilo estava a acontecer. Os homens, opositores, foram ouvidos em silêncio absoluto, mesmo sendo altamente agressivos, muito mais do que nós fôramos. Bom. A minha teoria de que o feminismo estava caduco, o machismo reservado a nichos dos quais eu nem sequer tinha consciência, era frágil o suficiente para perceber que algo de estranho se passou ali. Com a sensibilidade ao rubro com o que se tinha passado naquele auditório, comecei a prestar mais atenção. Aquelas notícias em que uma miúda de 13 anos é violada e a culpa é dela porque foi para a discoteca. Usar uma mini saia e ter um velho a sussurrar-me ao ouvido o que faria com a sua língua e com partes da minha fisionomia. Ouvir dizer que dizer palavrões é considerado grave se for uma mulher, mas se for um homem não há problema porque eles são mesmo assim “menos sensíveis”. Ou que “elas” estão a ficar “piores que eles”. Mas estamos a falar de coisas levezinhas, corriqueiras, conversas de café comezinhas em sem importância (não demonstrassem um inconsciente colectivo altamente tendencioso).

Passemos ao que interessa. Em Portugal, em 2015, morreram 28 mulheres vítimas de violência doméstica. Segundo o relatório de 2014 da APAV, o perfil da vítima é do sexo feminino (82,3%), e, entre outros dados, tem relação de conjugalidade com o autor do crime (28,4%).  O autor dos crimes é do sexo masculino em 81,9% dos casos. Em relação ao número de vítimas, independentemente se existe morte ou apenas agressão, não nos surpreenderá saber que obtemos uma impressionante média de 130 mulheres por semana, contra 21 homens, 19 crianças e jovens e 16 pessoas idosas. Torna-se difícil argumentar que vivemos numa sociedade igualitária tendo posse destes dados. A juntar aos dados que enquanto mulheres atentas recolhemos a todo o momento, nesse tal inconsciente colectivo descarado. Quando pedimos vinho tinto e o nosso amigo pede vinho branco e os copos vêm trocados. Quando o nosso superior hierárquico se acha no direito de nos assediar e nos vemos a braços com um problema delicado porque sabemos que ninguém nos levará a sério se nos queixarmos. Quando no dia de comemoração dos direitos das mulheres recebemos SMS com descontos nos detergentes e na maquilhagem. Quando existem estabelecimentos que “por graça” proíbem a entrada a mulheres. Quando um tipo vem defender publicamente a violação e tem efectivamente quem o apoie. Quando políticas portuguesas são atacadas por serem histéricas e não por serem incompetentes ou arrogantes como os homens. Quando há humoristas portugueses que atacam violentamente as mulheres e achamos normal.  Quando temos medo de andar sozinhas na rua à noite. Quando 33% dos jovens portugueses consideram normal a violência no namoro.

Por mais que queiramos assobiar para o lado e fingir que vivemos numa sociedade justa e igual, essa sociedade claramente não existe. Existe apenas em alguns nichos muito específicos, que nos dão momentaneamente a ilusão que algo mudou. Não mudou. Por isso, antes histérica do que estúpida, obrigada. Por essas 130 mulheres por semana, ainda há muito a caminhar.

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One thought on ““Da Histeria Feminista”, por Diana Luís

  1. Concordo que há muito a corrigir, muito a mudar, numa sociedade que promove a competição e o culto do mais forte, o que implicitamente promove a violência. A violência em geral, não contra as mulheres – apenas acho que as mulheres acabam por sofrer mais devido às diferenças “normais” entre os dois sexos, em que o masculino é por norma fisicamente mais forte. Mas qualquer pessoa, independentemente da idade ou género, está sujeita a violência, vinda de alguém que de algum modo tem “poder”. Devíamos pensar era em mudar a nossa educação, para termos pessoas (homens e mulheres) mais conscientes e justos, numa sociedade que promova a cooperação em vez da competição.

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