Notas para uma crítica radical do turismo (V)

Tendências gastronómicas promovidas pelo turismo: da linguagem universal e massificada do fast-food à ilusão, vendida pelo turismo cultural, do consumo do ‘local’ e do ‘autêntico’

Um estudo sobre o consumo de fast-food, em Espanha, em 2014, é revelador sobre a promiscuidade da relação entre a indústria do turismo e a indústria da comida de plástico. O gráfico abaixo mostra que em Espanha – que não tem grandes pergaminhos no consumo de fast-food, cultura onde o país vizinho é na verdade suplantado por mais de meio mundo – as regiões turísticas são claramente aquelas onde esse consumo é maior.

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Efectivamente, as ilhas Baleares e as Canárias, regiões turísticas por excelência, lideram destacadamente o ranking espanhol. Um artigo saído em 2009 no jornal inglês Daily Mail explica porquê: quando viajam, os turistas britânicos preferem geralmente o fast-food à gastronomia local. Para quem, estando longe de casa, poucos ou nenhuns vínculos possui com a cultura que visita, como costuma suceder à esmagadora maioria dos turistas, a linguagem universal do fast-food afigura-se como uma tentadora opção. Paladar fácil e prazer imediato a custos admissíveis ajudam a explicar o sucesso esmagador da receita.

Em Espanha, a empresa McDonalds lidera esse sector cada vez mais poderoso da restauração, com notáveis 40% da quota de mercado que se distribuem por cerca de 500 estabelecimentos. Seguem-se Burger King, Pans & Co, Rodilla y KFC. Somadas, estas 5 cadeias representam 74% do total de mercado. Se compararmos com os muitos milhares de pequenos proprietários que partilham a posse dos estabelecimentos de restauração convencional, percebemos que fast-food é sinónimo de concentração empresarial: meia dúzia de multinacionais detêm a quase totalidade do negócio.

Se o turismo é o modo de viajar que é próprio do capitalismo, não é de espantar o seu poderoso contributo para a reprodução da indústria do fast-food. No entanto, o fast-food está longe de ser unânime no universo turístico. A gastronomia que se vende enquanto produto local de autenticidade capta um nicho de turismo nada negligenciável do ponto de vista da criação de negócio.

Para uma parcela do público turístico, em torno da qual se movimenta um crescente volume de negócios, a gastronomia é um importante componente da experiência turística. Para esta gama de consumidores das classes média e alta interessados na oferta do chamado turismo cultural, a comida participa activamente na descoberta das regiões visitadas. Procuram por isso restaurantes que lhe proponham as entradas, os pratos, as sobremesas e os vinhos que supostamente definem a cultura e a identidade dos lugares visitados, como se fosse possível sintetizar e cristalizar a essência de um lugar numa ementa.

Para este público atraído pelo consumo de mercadorias que simbolizem a identidade local e a autenticidade, os agentes e promotores turísticos inventam novos produtos, onde se destacam os festivais gastronómicos, as lojas gourmet ou mercearias delicatessen de produtos ‘regionais’, as rotas vinícolas e as casas de turismo em contexto ‘rural’. No wine resort exclusivo L’and vineyards, situado em Montemor-o-Novo a menos de uma hora de Lisboa, misturam-se uns pozinhos de tudo isto numa receita muito saborosa, ao alcance de apenas alguns afortunados: um restaurante 1 estrela Michelin, vinha e adega abertas às sugestões dos clientes e amplas residências com vista ao montado e ao céu estrelado em regime de condomínio fechado de luxo.

A “vinha com castas típicas alentejanas cultivada com métodos naturais exprime o terroir único da região e desenha a paisagem”. Por sua vez, no restaurante, “reinterpreta-se a identidade da cozinha portuguesa, valorizando ingredientes da estação e de origem regional”, em pratos como “Lombo de vaca maturada na sertã com duxelle de cogumelos, alface romana grelhada e gnocchis de batata com toucinho fumado e jus do assado”. O poder de interpretação do que é “da estação” e “da região” parece ser aqui ilimitado. Empregando uma célebre teoria de Umberto Eco, o chef de cozinha do L’and vineyards parece querer dizer-nos que um prato ‘de cozinha portuguesa’ consiste afinal “numa possibilidade de várias organizações confiadas à iniciativa do intérprete, e apresenta-se, portanto, não como uma obra acabada que pede para ser revivida e compreendida dentro de uma direcção estrutural dada, mas como obra ‘aberta'” (A Obra Aberta).

Esta concepção pós-estruturalista e livre da tradição é muito apreciada por uma elite de turistas para quem a sofisticação justifica sempre que a autenticidade dos lugares seja sabiamente modificada, como também demonstram as novas lojas gourmet e delicatessen exclusivamente vocacionadas para o turismo, que facilmente encontramos quando passeamos pelas ruas mais ‘típicas’ de Lisboa, Porto ou até mesmo Évora. Nestas lojas, a identidade dos lugares empacota-se e vende-se em artigos que quem habita esses lugares geralmente desconhece. Para escrever este parágrafo, entrei numa destas lojas em Évora onde fui seduzido por produtos que nunca vi na cozinha dos meus vizinhos, tais como azeite virgem com malagueta, biscoitos de cerveja, chocolate negro artesanal com passas de uva embebidas em aguardente, licor de frutos do bosque ou infusão de ervas anti-stress. Ainda assim, nestas lojas a obsessão é sempre a mesma: propor ao consumidor “uma viagem pelos mais tradicionais sabores portugueses”. Destaca-se assim nas embalagens a referência ao “handmade” e às “receitas antigas”, muito ao estilo tradicionalista e neo-fascista da loja Vida Portuguesa.

Como operação de marketing direccionada ao turista, também se inventam – de modo a melhor conseguir vender-lhe vinho – regiões de vinhos onde não existe praticamente um único hectare de vinha, nem tão pouco uma adega. Foi com este intuito que recentemente se criou a chamada ‘região dos Vinhos de Lisboa’, que veio substituir a designação – bem menos valiosa do ponto de vista do marketing – de Vinhos do Oeste, de onde efectivamente os vinhos são provenientes. O turista que visita a capital portuguesa e prova um ‘vinho de Lisboa’ – que na realidade foi produzido a uma centena de quilómetros da capital – é assim iludido por uma estratégia de marketing, quando julga estar a captar um pouco mais da essência do lugar. Mas na verdade pouco ou nada lhe importa que Lisboa não seja Estugarda com os seus pitorescos socalcos de vinha invadindo o centro urbano.

O que realmente cativa a grande maioria de turistas é a ilusão da descoberta de uma identidade diferente da sua, mesmo que ela tenha sido livremente reinterpretada – ou melhor, reinventada – pelos agentes económicos turísticos; é, em suma, a agradável sensação de ser-se surpreendido pelo exotismo de uma identidade que lhe é vendida através das mais criativas estratégias mercantis e que, passiva e acriticamente, se consome. O chamado ‘turismo cultural’ é precisamente isto: a manipulação da cultura (i)material dos lugares feita de forma a produzir mercadorias que vendem o exotismo, o ‘típico’, o pitoresco que caracterizam uma pseudo-identidade.


Notas para uma crítica radical do turismo (I): A falsificação do real

Notas para uma crítica radical do turismo (II): O turista – esboço de definição

Notas para uma crítica radical do turismo (III): O turismo, uma invenção do capitalismo

Notas para uma crítica radical do turismo (IV): O turismo prolifera lá onde o território se separa dos seus habitantes

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About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

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