“Pele atravessada”, por Kareef

tumblr_lrdw6gEagh1qg39ewo1_500

Esperar, esperar, esperar, um esperar diferente daqueles com que desesperamos na vida que passamos sempre a esperar. A noite está clara e gélida, a lua por cima das ameias, uma varanda. Tranças. Uma flor. Vieste a rebentar de alegria, a transbordar felicidade, e trazias liberdade na forma de pétalas, roubadas algures no caminho gelado da rua que te conduziu do inebriamento dos outros ao inebriamento dos meus braços. Eu coro, feliz, que não resisto às pétalas das ruas. O meu coração a querer escapar-se do peito, o teu corpo, tu, ali, nós ali, cerrados num abraço e os dentes cerrados de alívio cravados na carne um do outro. Fujo ou dispo-te? Como se eu quisesse que tu fugisses. Ele despiu-a. As pernas  nuas dela envolviam-lhe a cintura, vestida, como todo ele estava vestido. O corpo dela nu no dele vestido. Que belo seria se alguém espreitasse nesse momento, ela vulneravelmente nua no colo vestido dele, que a agarrava com fúria e com ternura, e com todas as emoções ao mesmo tempo. Ela despiu-o.  Balbuciava palavras que não conseguia entender, além do nome deliciosamente aninhado na tua boca, o meu nome deliciosamente entre as minhas pernas, entre a tua boca e eu, as palavras no meio dos sexos. Mundo. Espera. Querer. Chegada. Palavras que não entendi entre a volúpia da tua boca e as tuas mãos no meu corpo inteiro.  O meu nome dito por ti, baixinho. Oscilamos como loucos entre a ternura e a violência. Os corpos desesperados de desejo mergulham-se com dor e carícias, com beijos e dentes e os dedos tatuados em alguns pedaços de pele. As palavras que desprendem-se da boca como se chorasses. Palavras que eu não percebo. Queria ouvi-las outra vez, soletradas ao meu ouvido. O meu coração é capaz de explodir. Ele, de coração a rebentar de liberdade e desejo, ela também. O mundo indiferente lá fora, a lua já escondida do outro lado das ameias, a festa que continuava noutro lugar. Acercámo-nos ao fogo, que tudo queima, queima os corpos e as palavras, e as mãos e as bocas. Voluntariamente de mãos dadas e olhos mergulhados deixando que o fogo tudo queimasse, uma e outra vez. Ele murmura desabafos incompreensíveis e pedaços de canções, enquanto o corpo dela murmura o corpo dele e o corpo dele murmura o corpo dela, enquanto tudo arde, enquanto os dentes se cravam na pele e os corpos se confundem. Desespero de se quererem. O sangue fervente na violência da pele que procura atravessar-se uma na outra, os corpos que procuram atravessar-se um no outro. Ela grita e refugia-se nele e volta a gritar e volta a recolher-se no corpo dele. O meu corpo é teu e o teu é meu. É uma posse livre, com hora marcada até nova despedida, até nova espera, até novo encontro. É a nossa forma de celebrar a liberdade.

black-and-white-gif-photo-photo-booth-sex-Favim.com-375225

Estão cansados. Descansam em silêncio. Não há palavras a perturbar o diálogo dos corpos. Quero que voltes. Tu sabes. Ele voltou mais depressa do que ela imaginava. Ela queria ter-se encontrado com ele num baile de mascarados. Fingiriam ser desconhecidos que se entreolham de longe. Atrás de uma cortina ela desprenderia uma alça do vestido ciente que ele a veria a despir lentamente longe dos olhares dos bêbados e dos loucos. Numa varanda ao luar ou numa eira voltariam a encontrar-se despidos, no meio da farra ou fora da festa, no delírio. Abraçam-se num torvelinho de  num abraço sem tempo, numa confusão de corpos nus que voltam um ao outro sem parar, em desespero. O calor a inundar tudo em ondas, as mãos em brasa a queimar a pele, o calor a inundar tudo e a ameaçar derreter as paredes. O desespero dos corpos quererem absolutamente e ao mesmo tempo se recusarem a dissipar-se um no outro. Voltariam um ao outro madrugada fora, sem palavras, de olhos mergulhados, até adormecerem de cansaço. A noite foi entrecortada de insónias. Ele acordava e voltava a dormir. Ela acordava entre carícias e sono. Quando ela acordou ele não estava lá e ela quase podia jurar que teria atravessado a pés juntos o limiar do sonho, não fora o corpo dele marcado no corpo dela, na pele, nos poros, nos cabelos, nas paredes. Voltamos à espera. Sabemos que depois da espera voltaremos. Queremos provar as estações que nos faltam para encontrar todas as palavras deste conto. Que as flores não demorem.

tumblr_ndk2qmBXJU1tlycj3o3_500

Deixe o seu comentário.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s