Turistofobia, um salutar movimento colectivo (de sobrevivência) em ascensão

“É uma questão de sobrevivência”, dizem os habitantes.

 

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

7 thoughts on “Turistofobia, um salutar movimento colectivo (de sobrevivência) em ascensão

    1. Então cá vai disto (a ver se animamos esta pasmaceira de blog…) Coerentemente com o que tenho escrito em praticamente cada post neste blog, sou da opinião que a fobia ao capitalismo e às suas indústrias é salutar e recomenda-se. O mundo assemelha-se cada dia mais a um gigantesco shopping onde, por acção do turismo, tudo é passível de ser posto à venda. E é-o de facto. Em Lisboa, no Porto ou em Barcelona, para dar exemplos cuja veracidade podemos facilmente verificar, despejam-se moradores com reformas miseráveis de inúmeros bairros, para se criarem, de um modo cientificamente pensado e planificado, ‘territórios-espectáculo’ que se vendem aos turistas (nomeadamente através dos apartamentos airbnb) que lêem apaixonadamente o Lonely Planet e buscam experiências autênticas (para eles ficar no hotel é para malta sem espírito de aventura e de ‘comunidade’) – como quem busca o verdadeiro e autêntico paladar tradicional na feira dos enchidos e dos queijos do Continente. Mas, perante a avalanche de despejos, quantos idosos verdadeiro e autênticos não se suicidaram efectivamente nos bairros que agora se vendem aos papalvos dos turistas como bairros autênticos, depois de terem sido modificados e reconvertidos em versões consumíveis? Quantos não foram abandonados pela família no corredor de um hospital? A pseudoautenticidade turística nasce sempre sobre as cinzas da autenticidade que se eliminou barbaramente.

      Resistir ao turismo não tem de significar resistir ao que vem de fora. Confundir isto leva a fugir ao debate que considero mais relevante (aquele que tenho procurado fazer ao longo de uma série de posts). O turismo é uma indústria capitalista, cada vez mais organizada por redes anónimas de investidores para gerarem retorno económico da mercantilização de tudo aquilo que compõe o território. Paisagens, gastronomias, centros históricos, praias, montanhas, patrimónios imateriais são assim radicalmente transformados (primeiro esvaziados dos seus habitantes, depois empacotados para o turista) para serem vendidos ao turismo sob a forma de dormidas, refeições, tours, animações, bugigangas, entretenimentos, diversões… Só defende o turismo quem nele investe ou quem ainda não percebeu que ele é a materialização no território de um estágio mais avançado do capitalismo: aquele em que todas as geografias (especialmente aquelas que o capital, historicamente, jamais conseguira rentabilizar) são mobilizadas para gerar capital. O território torna-se território-espectáculo: Alfama, aldeias em Itália e no cu de Judas, bairros pobres no Rio de Janeiro, em Marraqueche, em Istambul, em Pequim, o centro do Porto, a Alta de Coimbra, banhos de sol na costa algarvia, trecking na ilha das Flores, o fundo cristalino do mar na Madeira. Tudo vira mercadoria. E tudo passa a ser gerido como tal. Lutar contra isto só estará mesmo ao alcance de um xenófobo classista?

      Outro ponto: posso resistir a comprar no Continente, no Intermarché, em qualquer grande superfície onde se reproduz (do princípio ao fim da cadeia) toda a economia capitalista, preferindo-lhes uma mercearia bio de produtos locais, o que por si só não fará de mim, creio, um nacionalista/classista, ainda que não tardará a surgir quem veja nisso sintomas de nacionalismo ou até de um certo classismo/snobismo. As indústrias capitalistas ligaram de facto os diferentes países do mundo, mas ligaram-nos meramente enquanto parcelas da economia-mundo capitalista. Ora, se eu me posicionar de fora de uma dessas indústrias específicas (agroalimentar, farmácia, turismo…), rejeitando os seus produtos, isso não quer necessariamente dizer que eu me quero posicionar de fora do mundo no seu todo, das suas diferentes culturas, das suas múltiplas comunidades (como faria um xenófobo): o que eu rejeito no mundo em que vivemos é tão simplesmente o capitalismo e a mercantilização de todas as esferas da existência. Rejeitar o mundo capitalista na sua monotonia não é rejeitar o mundo na sua diversidade.

      Do mesmo modo, quem hoje luta em França contra a construção do aeroporto de Nantes não o faz pelo instinto xenófobo de querer manter-se à margem das relações com outras populações ou comunidades do planeta. Em suma, criticarmos as relações humanas que são promovidas pelo turismo/capitalismo não nos obriga a nenhum exercício de xenofobia nem snobismo. Diria que para continuares a criticar a turistofobia vais ter de arranjar algum argumento melhor. O da sra dona joaquina que vende mais umas bicas e umas pipocas no café do bairro também não serve, porque o “pequeno comércio tradicional” é o primeiro a ser dizimado pela avalanche turística: http://www.nytimes.com/2014/10/20/world/europe/historic-loss-may-follow-rise-of-rents-in-barcelona.html?_r=1

      Beijocas gaulesas!

      1. Usas bons argumentos mas partes de um péssimo exemplo. Eu devo dizer que tirando meia dúzia de metrópoles no mundo e algumas ilhas paradisíacas não há um problema com o turismo. Pior, os problemas que levantam não são abordados pelos turistofóbicos que, como se vê nesse exemplo, acabam a abraçar uma política de segregação social no limiar do racismo e do nacionalismo.

      2. Eu prefiro dizer, inversamente, que tirando meia dúzia de metrópoles no mundo e algumas ilhas paradisíacas há um problema com o turismo. Em posts futuros, continuarei a argumentar porquê.

Deixe o seu comentário.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s