GOOGLE IS WATCHING YOU – a vigilância cibernética na era da ode generalizada à ‘liberdade individual’

  • Individual freedom is the wellspring of human progress.”

Barack Obama, discurso no Department of Justice a 17 de Janeiro de 2014

  • “We’re still the nation our Founders imagined, where individual freedom and opportunity is unbounded, where community is vibrant, where compassion keeps us from resting until all our citizens take their place at the banquet of freedom and equality.”  

George W. Bush, discurso no Calvin College a 21 de Maio de 2005

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A Google, cujo número de usuários ultrapassa os mil milhões, dispõe de um impressionante número de sensores para espiar o comportamento de cada usuário: o motor Google Search, por exemplo, permite-lhe saber onde se encontra o internauta, o que busca e em que momento. O navegador Google Chrome, um mega-delator, envia directamente à Alphabet (a empresa matriz da Google) tudo o que faz o usuário em matéria de navegação. Google Analytics elabora estatísticas muito precisas das consultas dos internautas na rede. Google Plus recolhe e adiciona informação complementar. Gmail analisa a correspondência trocada, a qual revela muito sobre o emissor e os seus contactos. O serviço DNS (Domain Name System, o Sistema de nomes de domínio) da Google analisa os sítios visitados. YouTube, o serviço de vídeos mais visitado do mundo, que pertence também a Google – e por tanto a Alphabet –, regista tudo o que aí fazemos. Google Maps identifica o lugar em que nos encontramos, onde vamos, quando e por que itinerário… AdWords sabe o que queremos vender ou promover. E, desde o momento em que ligamos um smartphone com Android, Google sabe imediatamente onde estamos e o que estamos a fazer. Ninguém nos obriga a recorrer a Google mas, quando o fazemos, Google sabe tudo sobre nós. E, segundo Julian Assange, imediatamente o comunica às autoridades norte-americanas…

Texto de Ignacio Ramonet (tradução e sublinhados meus)

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Onde o controlo e a transparência reinam, onde o comportamento dos sujeitos é antecipado em tempo real pelo tratamento algorítmico da massa de informações disponíveis sobre eles, não há mais necessidade de neles confiar nem de que eles tenham confiança: basta que eles sejam suficientemente vigiados. Como dizia Lenine, “a confiança é boa; o controlo é melhor”.

Tal como a economia política produziu um homo economicus gerenciável no quadro dos Estados industriais, a cibernética produz a sua própria humanidade. Uma humanidade transparente, esvaziada pelos próprios fluxos que a atravessam, eletrizada pela informação, ligada ao mundo por uma quantidade sempre crescente de dispositivos. Uma humanidade inseparável do seu ambiente tecnológico, porque por ele constituída e aí conduzida. Tal é agora o objeto da governação, já não o homem nem os seus interesses, mas o seu “ambiente social”. Um ambiente cujo modelo é a cidade inteligente. Inteligente porque produz, graças aos seus sensores, a informação cujo tratamento permite a sua autogestão em tempo real. E inteligente porque produz e é produzida por habitantes inteligentes. A economia política reinava sobre os homens deixando-os livres de prosseguir os seus interesses, a cibernética controla-os, deixando-os livres para comunicar.

Os grandes reservatórios refrigerados de dados constituem a despensa do governo atual. Ao perscrutar as bases de dados produzidas e continuadamente atualizadas pela vida quotidiana dos humanos conectados, ele procura as correlações que permitam estabelecer não leis universais, nem mesmo os “porquês”, mas os “quandos” e os “quês”, previsões pontuais e situadas, oráculos. Gerir o imprevisível, governar o ingovernável e já não tentar aboli-lo, essa é a ambição declarada da cibernética. A gestão do governo cibernético não é somente, como no tempo da economia política, prever para orientar a ação, mas agir diretamente sobre o virtual, estruturar os possíveis.

O objeto da grande recolha de informações pessoais não é um seguimento individualizado do conjunto da população. A insinuação na intimidade de cada um e de todos serve menos para produzir fichas individuais do que grandes bases estatísticas que ganham sentido pela quantidade. É mais económico correlacionar as características comuns dos indivíduos numa multidão de “perfis”, e os devires prováveis que daí decorrem. Não interessa o indivíduo presente e inteiro, mas apenas aquilo que permite determinar as suas linhas de fuga potenciais. O interesse em aplicar vigilância sobre perfis, “acontecimentos” e virtualidades é que as entidades estatísticas não se revoltam; e que os indivíduos podem sempre pretender não ser vigiados, pelo menos enquanto pessoas. Enquanto a governamentalidade cibernética opera já a partir de uma lógica completamente nova, os seus sujeitos atuais continuam a pensar-se de acordo com o antigo paradigma. Cremos que os nossos dados “pessoais” nos pertencem, como o nosso carro ou os nossos sapatos, e que não fazemos mais do que exercer a nossa “liberdade individual” ao permitir que a Google, o Facebook, a Apple, a Amazon ou a polícia tenham acesso a eles.

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A liberdade e a vigilância provêm do mesmo paradigma de governo. A extensão infinita dos processos de controlo é, historicamente, o corolário de uma forma de poder que se realiza através da liberdade dos indivíduos. O governo liberal não é aquele que se exerce diretamente sobre o corpo dos seus sujeitos ou que espera deles uma obediência filial. É um poder totalmente em contração, que prefere ordenar o espaço e reinar sobre interesses, mais do que sobre corpos. Um poder que vela, vigia e age de forma mínima, intervindo apenas onde o quadro é ameaçado, sobre aquilo que vai demasiado longe. Só se governam sujeitos livres, e tomados em massa. A liberdade individual não é algo que possamos acenar contra o governo, visto que ela constitui, precisamente, o mecanismo sobre o qual ele se apoia, aquele que ele regula o mais delicadamente possível no fito de obter, na agregação de todas essas liberdades, o efeito de massa esperado. Ordo ab chao. O governo é esta ordem à qual obedecemos “como comemos quando temos fome, como nos cobrimos quando temos frio”, esta servidão que eu coproduzo no próprio momento em que procuro a minha felicidade, em que exerço a minha “liberdade de expressão”. “A liberdade do mercado necessita de uma política ativa e extremamente vigilante”, precisava um dos fundadores do neoliberalismo. Para o indivíduo, não há liberdade a não ser vigiada.

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

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