“Meia estação, estação e meia” por Kareef

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Custa largar-te. Mas sabe bem ver-te chegar. Desta vez demoraste, entre conversas inadiáveis e música. O sol já se tinha posto e a cidade rodopiava sem parar entre buzinas e chuva. A urgência dela não acelerou o metro, cheio de gente silenciosa, entreolhando-se através dos vidros, as histórias entre olhares velados.

O tempo de espera era alto, como que travando o encontro, segurando a culpa pelos braços finos, tentando dissuadi-la. Ela já sabia como reagir, avançando mais rápido, ignorando os apitos e as buzinas e as conversas alheias, o coração que invadisse o espaço e o tempo, não dando espaço nem tempo seja à culpa, à dúvida ou à dívida. Depois o comboio, iluminado por dentro e os vidros embaciados, isolando na luz branca as conversas alheias sobrepondo-se como faixas de música, entre conversas e a música dentro dela, e o ruído do comboio nos carris, trilhando os minutos que faltavam, segundo a segundo. Era ela, agora a rapariga de lábios vermelhos, olhando o vazio e sorrindo mal disfarçadamente. Lá fora a chuva e ele à espera dela. Já te sinto dentro com o avançar do comboio. O Inverno invejoso da Primavera, a encher as ruas de água e de noite e os minutos arrastando-se. O coração dela batia apressando a marcha. Ele ouviu o comboio travar e o coração dela parou. Mais rápido os pés avançaram ainda que parados no tempo como o Universo que ali se retia para que num conto se encontrassem, como palavras soltas, uma janela para o mar, um fio. Incontroláveis, os sorrisos e o abraço. O coração que não se sabe se bate ou se perdeu a direcção. Mas sabe bem ver-te chegar. As palavras saíam em catadupa da boca, riam por dentro porque sabiam que haviam bebido demais. As palavras brotavam nos intervalos das revoluções contra a maldade humana em toda a parte, como se devêssemos estar constantemente de sentinela em alerta em sentido para a destruir. Em contraste os sorrisos, claro, com os corpos a chamar pelo veludo. Um reduto de maravilha no cinzento do mundo. As mãos dele nas mãos dela. O sorriso dela no sorriso dele. A luz. Queria beijá-lo. Mas sabia-lhe tão bem a espera.  Depois de um rio de malte a confundir-se no rio de chuva e no fumo dos cigarros lá foram deixar os corpos derreter. O caminho até à janela sobre o mar estava escuro e o ar abafava as palavras e pelos risos derretidos. Ele abriu-lhe a porta para ela entrar e ela riu-se,  queria ao mesmo tempo a liberdade e o cavalheirismo, a emancipação e a palmada. Querer tudo de todas as maneiras. Ela empurrou-o para o lado dele, a água do seu lado, como mandavam as boas maneiras. Ele agarrou-a e deixou-a corada. A janela era a mesma. O mesmo negro e a mesma violência das ondas. Do céu que desabara há pouco sobrava uma chuva miúda e ténue, como orvalho misturado na pele dos corpos que não poderiam esperar muito mais. O céu desabou depois dentro da escuridão da janela, os corpos com ele, fundiram como chocolate. Em ondas sucessivas os corpos se reencontraram, cansados da espera, dançaram como as ondas. O sono veio depois cobrir tudo com o seu manto. Ela acordou com a ausência do corpo dele, que fumava um cigarro encoberto pela penumbra à espera dela. Voltaram a dormir, novamente embalados pelos corpos. Quando acordaram a Primavera tinha chegado, o sol inundava a areia e a água queimando a chuva nem que fosse por um dia. Todas as estações visitaram aquela janela, Outono, Inverno, Primavera, Verão, Primavera, Inverno, Primavera. Ela dizia para dentro, “Quero-te outra vez!”. Ele ouvia e queria-a também, uma e outra vez. Marcas de dentes e dedos e beijos. E o sol atravessando a janela. Mais tarde haveria uma falésia e o sol a queimar o desejo. E a música que dizia tudo a tocar na viagem de regresso, as palavras e a mão dele procurando a dela. Custa largar-te. Mas sabe bem ver-te chegar. Os corpos ficam a fazer eco um dentro do outro, à espera de nova ressonância.

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