A esquerda revolucionária e Bernie Sanders: que caminho sobra entre o oportunismo e o sectarismo?

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Ruy Braga, académico da esquerda brasileira, afirmou que não obstante Bernie Sanders ser socialista, os revolucionários não devem “ficar longe do movimento social que impulsiona sua campanha é ficar longe dos lutadores de Wisconsin, dos trabalhadores sindicalizados, do melhor que há do movimento negro na atualidade (o Black Lives Matter) e distante de toda uma jovem geração de militantes surgida nas universidades americanas após o Occupy Wall St.” Questiona-se sobre as possibilidades de construção de “uma alternativa socialista dos trabalhadores nos Estados Unidos dando as costas pra esses setores?” concluindo que “ficar de fora disso é um enorme erro político.”. Ruy Braga faz esta análise a pretexto de um texto da LIT-QI, onde se defende que Bernie Sanders não é o “candidato independente dos trabalhadores” que os meios de comunicação têm retratado com pavor, mas uma “trampa”.

A polémica é séria, e vale a pena ser feita com frontalidade. Tendo a achar que entre ter a Arábia Saudita ou a Suécia à frente dos direitos humanos é mais útil para denunciar a ONU que seja a Arábia Saudita. Que entre ter um Papa assumidamente reaccionário e um Papa que camufla o conservadorismo, o que se assume é mais útil para desmascarar o Vaticano. Que entre ter um presidente dos EUA que fará o mundo perceber a natureza do império, como Hillary ou Trump, e outro que, como Sanders, vai ser levado em ombros como pai dos povos sem que se deixe de disparar um tiro no Iraque ou no Afeganistão, ou retirar um dólar ao fundamentalismo sionista de Israel, o combate ao império ganha mais com a verdade.

Como é evidente não é uma discussão fácil. O argumento do Ruy Braga é relevante, como é o facto de haver uma maioria absoluta de jovens na base da candidatura de Sanders, como bem aponta o Ricardo Paes Mamede. Há um movimento de base objectivo que confia em Sanders e esse movimento tem um potencial transformador que não pode nem deve ser ignorado. No entanto, questiono-me, não havia esse mesmo potencial basista na candidatura de Obama? O que ganhou a esquerda em embarcou nessa aventura? O exemplo pode ser colocado noutros contextos históricos e noutros países. Por exemplo, em Portugal, a expressão popular mais significativa, na esquerda anti-capitalista, aconteceu no PS e no PCP. Fizeram bem os revolucionários que confiaram as suas fichas nestas organizações? Que balanço se faz da participação dos lambertistas (POUS) no PS e na UGT? Que balanço da via democrática para o comunismo encetado pelo PCP?

Mas há mais exemplos. Há Allende. Há Mitterrand. O que se ganhou com a frente popular no Chile que acabou dizimada pelo próprio ministro da Defesa? E o que dizer do socialismo democrático de Mitterrand com os seus dois ministros trotsquistas? Ou ainda o PT, com amplo apoio popular de base no Brasil, que tem granjeado aplausos de Wall Streeet a Davos? Todos estes exemplos deixam claro que, apesar de ser um critério importante, a expressão de base e de sectores combativos num determinado projecto político não o torna, em si, válido. No caso, correr por fora por ser a melhor maneira de influenciar por dentro esses mesmos movimentos.

Sabemos bem dos perigos que as pulsões sectárias têm colocado no caminho dos revolucionários, e sou dos que mais compreende essa preocupação na posição que Ruy Braga, e muitos revolucionários honestos, defendem face à candidatura de Bernie Sanders. Sei bem que a clareza analítica de quem critica as frentes populares poucas vezes corresponde ao desenvolvimento de uma alternativa útil para a luta dos 99%. E não ignoro igualmente que essas mesmas organizações preferem pregar de cátedra as suas imaculadas profecias sem sujar as mãos nas contradições incontornáveis do movimento de massas. Agora não creio é que se possa resolver um problema, somando problemas ao problema, nem repetir uma equação com os mesmos parciais e esperar que ela dê um resultado diferente. Se é inegável que é preciso flexibilidade táctica, não é menos verdade que não podemos continuar a alimentar aparatos que usam as ilusões e as aspirações dos explorados para manter ou agravar as condições de vida da esmagadora maioria do mundo. À falta de alternativa os revolucionários nos EUA provavelmente votarão Sanders, mas estarão a cometer um erro desmedido se o fizerem sem domar as ilusões e sem garantir que o movimento de base que o pode vir a eleger seja capaz de se transformar num movimento de pressão e de base que perdure ao longo do mandato.

Gostava de estar enganado. Gostava que Sanders fosse mais claro sobre um conjunto abrangente de matérias como por exemplo o muro da vergonha que militarizou a fronteira com o México ou outra coragem na questão palestiniana. Gostava que Sanders estivesse disposto a continuar a luta que em tempos abraçou contra o bipartidarismo nos EUA. Gostava também que no mais perigoso país do planeta houvesse um candidato disposto a fazer o que Obama prometeu e não cumpriu, fazendo regressar os soldados que tem pelo mundo a espalhar o terror e a saquear o petróleo. Gostava de tudo isso mas em política sabemos bem que confundir os nossos desejos com a realidade tem um preço que não podemos continuar a pagar.

2 thoughts on “A esquerda revolucionária e Bernie Sanders: que caminho sobra entre o oportunismo e o sectarismo?

  1. Concordo genericamente com o texto, excepto com o parágrafo “Tendo a achar que entre ter a Arábia Saudita…”.

    Parece-me que é a resistência ao sistema que revela a sua verdadeira natureza. Apesar de ter sido derrotado, ou talvez por isso, o que o Syriza fez foi exactamente mostrar o que é de facto a Europa. Talvez Bernie Sanders possa, pelo menos, desempenhar um papel semelhante.

    Também não concordo que seja melhor um Papa ou presidente que seja assumidamente reaccionário, fascista, racista, etc, do que um que sinta a necessidade de o camuflar. O que é preocupante é que alguém que tenha estas posições não tenha constrangimentos em expressá-lo.

    (E já agora, a propósito de verdade: http://www.versobooks.com/blogs/2479-trump-candidate-of-truth).

  2. Este comentário integra-se numa linha de pensamento já muito antiga e totalmente suicidária. Lembro que, aquando das últimas eleições livres na Alemanha antes da II Guerra, os SD ganharam mas sem maioria e o PC ficou em segundo. Seria natural que estabelecessem um acordo para formar governo. É aí que entra o camarada Estaline que declara:”nenhum apoio aos SD que são o inimigo principal”. O PC, caninamente obediente, recusa formar governo e o presidente Hindenburg teve de chamar a terceira força política, o partido nazi. Foi assim pela mão do estalinismo que Hitler ascendeu ao poder, embora só tivesse menos de 20% dos votos e a Rússia pagou por isso um altíssimo preço (25 milhões de mortos). O povo costuma dizer: quem o seu inimigo poupa às mãos lhe morre…
    Nos EUA, em vez de escolher entre atacar Trump, Clinton ou Ted, a LIT decide denegrir B.Sanders, o candidato socialista, apoiado pelos jovens e pelas classes menos favorecidas, com o objectivo de o impedir de chegar ao poder. O pretexto é a alegada pureza ideológica, asseverando que um Trump é melhor para expor os podres do sistema. As grandes corporações agradecem reconhecidas.
    Não esbanjámos………..Não pagamos!!!!!!

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