Yangire/Yandere: um tour pelas “meninas venenosas” na animação japonesa e não só

NOTA: O presente texto é uma tradução e adaptação do ensaio integrado no zine Muji Life + Yangire/Yandere.

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Yangire” e “yandere” são personagens-tipo originados na subcultura japonesa conhecida por otaku, grosso modo equivalente às culturas geek ou nerd no Ocidente. Mais precisamente, surgiram e floresceram dentro do manga, anime e fandom do moé, uma estética orientada para o público masculino e caracterizada pelo seu apreço por figuras do tipo “irmãzinha” e outras estripes de cuteness associadas. Quer a palavra “yangire” como “yandere” são trocadilhos que partilham o mesmo sufixo “yan”, de “yandeiru”, significando que algo ou alguma coisa está doente. O “gire” em “yangire” pede emprestada a conjugação verbal “kire”, que significa “cortar”, enquanto “dere” se refere a “deredere”, uma palavra onomatopaica que significa estar-se apaixonado. A parte final da palavra é, portanto, aquilo que separa o yangire e o yandere em termos de motivação: o primeiro, é movido por uma compulsão para cortar e talhar; o segundo, por sentimentos de amor. Resumindo e concluindo, o yangire traduz-se em personagens exteriormente cute e adoráveis mas propensas a transformarem-se em psicopatas sanguinárias quando irritadas, assustadas ou de algum modo stressadas. Da mesma forma, as personagens yandere são exteriormente cute e adoráveis, assumindo diferentes matizes de brutal, obsessivas ou pura e simplesmente maradas quando toca aos seus interesses românticos. O yandere é, por outras palavras, um “lobo em pele de cordeiro”, um stalker superprotector que não hesita em recorrer a todos métodos disponíveis (rapto, chantagem, tortura, assassinato, é só escolher!) para chamar a atenção da sua pessoa especial e remover qualquer obstáculo que entre eles se entreponha… Mesmo que, em casos extremos, tal signifique “proteger” a pessoa amada matando-a.

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Olhos e expressões faciais típicas de personagens yangire e yandere.

O yangire e yandere inserem-se assim, em traços gerais, no arquétipo da dupla personalidade, e apesar das metades “Mr. Hyde” poderem estar mais ou menos presentes, manifestam-se habitualmente em mudanças de humor violentas e súbitas explosões de fúria assassina despoletadas pelos chamados “butões berserk” (que, muitas vezes, alteram a aparência física das personagens ao des-“cutificar” os seus traços cute). O ocasional yangire ou yandere masculino existe nos media japoneses mas, sem surpresa, a maioria destas personagens são femininas, endorsando uma longa tradição de excessos emocionais incontroláveis por parte de mulheres histéricas. Yuno Gasai, da série Mirai Nikki (“Diário Futuro”, animada em 2011 d’aprés a banda desenhada homónima de Sakae Esuno), tornou-se a poster child do yandere, originando o muito difundido meme Yandere Trance ou Ecstatic Yandere Pose (também conhecido por Mirai Nikki Face ou Yuno Face).

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Capa do primeiro volume de Mirai Nikki, com Yuno em primeiro plano e Yukkii atrás, em segundo. 

Yuno é uma menina amorosa de cabelos cor-de-rosa apaixonada pelo protagonista masculino Yukiteru “Yukkii” Amano, um rapaz forçado a participar numa espécie de battle royale, que ela jura proteger a qualquer custo – geralmente, por processos envolvendo stalking agressivo e carnificina. No final do primeiro episódio, depois de Yukkii (absolutamente aterrorizado) descobrir que terá de lutar pela vida nesse jogo mortal, é consolado por uma Yuno ruborizada com os olhos transbordantes de loucura que lhe diz “Não te preocupes, Yukkii… Eu vou (ahn~♥) proteger-te”.

Sequência do anime Mirai Nikki com Yuno Gasai em Yandere Trance ou Ecstatic Yandere Pose.

A performance vocal febril da actriz Tomosa Murata, não parca em subtexto erótico, juntamente com a pose dramática das mãos e a iluminação sinistra, tornaram esta cena numa imagem explorável com centenas de variações paródicas, em que personagens de todo o tipo são “yanderificados” pelos fãs usando as feições afeminadas de Yuno como modelo.

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Como “yanderizar” personagens, utilizando a popular Kirino Kousaka de Oreimo como exemplo. 
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Fan art representando personagens de séries populares (Touhou Project, Nichijou, Naruto, Yu-Gi-Oh!) na pose yandere de Yuno.

Adicionalmente, como ambos os tipos estão ancorados em mundos moé densamente povoados por raparigas pubescentes fazendo coisas fofinhas, a feminização das disposições afectivas do yangire e yandere corresponde também a uma infantilização. Por essa razão, estes tornam-se numa espécie de aparatosos Enfant Terrible (fórmula definida por crianças com tendências homicidas), revertendo para a nossa ansiedade paradoxal de que demonstrações extremas de cuteness são a algum nível perturbadoras, não naturais ou manipuladoras (talvez fruto do seu efeito “não-exactamente-humano”, ecoando o uncanny valley de Masahiro Mori). Como nota Sianne Ngai em Ugly Feelings, esta demarcação de sujeitos como emocionalmente anómalos, quer por défice quer por excedente, é na realidade uma forma corrente e enraizada de “outrização” daqueles que aparentam estar fora do privilégio branco, masculino, hétero-cis, adulto e/ou fisicamente apto e saudável. O conceito de “animatedness” avançado por Ngai, isto é, o estado de “ser-se movido” (que, na genealogia da autora, remonta às técnicas rudimentares de animação), é eficaz no seu apontar das implicações ideológicas dessa “interação ambígua entre coisas agitadas e pessoas desativadas” ou de “o passional e o mecânico” (Ngai 2007, 91), que frequentemente encontramos em ficções de possessão de corpos femininos dentro da literatura e cinema de terror. Em House of Psychotic Women, um livro semi-autobiográfico sobre as representações da neurose feminina nos filmes de terror e exploitation, a autora Kier-La Janisse compara a sua própria experiência de doença mental com a mais notória rapariga-adolescente-possuída-pelo-demónio do cinema: “Sentia-me como a Regan d’O Exorcista, emitindo estes insultos grosseiros e venenosos ao mesmo tempo que sentia que as palavras estavam a vir de outra pessoa” (Janisse 2012, 136). Similarmente, o yangire e yandere são, entre o reportório de personagens-tipo do moé, aquelas mais “possuídas” por uma defectividade emocional; assombradas por um sentimento de ventriloquismo e manipulação das suas vozes e corpos ao alternarem entre a inocência e a monstruosidade.

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O corpo de Regan, de 12 anos, possuído pelo Diabo em O Exorcista.

Um exemplo notável da ligação do yangire e yandere ao marionetismo é o início de Elfen Lied, adaptado para anime em 2004 a partir do manga de Lynn Okamoto.

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A diclonii Lucy de Elfen Lied. A parte direita da sua cara mostra o capacete usado durante a sequência inicial da série.

Centrando-se nas interacções entre os seres humanos e uma espécie mutante chamada diclonii, cuja aparência é idêntica à das pessoas excepto por dois pequenos cornos nas suas cabeças, os primeiros minutos de Elfen Lied tornaram-se célebres pelo seu uso de violência gráfica e “pinhatas de sangue” (personagens cujo propósito é serem reduzidas a uma polpa de entranhas). À medida que a personagem principal, uma diclonii chamada Lucy – que, não por acaso, é uma menina amorosa de cabelos cor-de-rosa como a Yuno de Mirai Nikki −, executa a sua fuga da instalação onde se encontra aprisionada, ela utiliza braços-tentáculo invisíveis para trucidar os seus captores, deixando um banho de sangue pelo caminho.

Primeiros minutos do anime Elfen Lied. Aviso que há sangue; MUITO SANGUE.

Durante esta sequência, Lucy torna-se marionete e marionetista, manipulando os cordéis com mãos ocultas ao mesmo tempo que é metaforicamente mecanizada e desumanizada pela sua progressão imparável. O contraste memorável entre o corpo nu de Lucy e o capacete de metal que lhe envolve a face (e que simbolicamente lhe inibe a voz, fazendo-a silenciosa durante toda a sequência), reforça o aspecto automatizado da dessensibilização dos diclonii. Por fim, Lucy é atingida na cabeça, causando o desenvolvimento da persona alternativa Nyu, uma criança selvagem extremamente querida, inocente e desajeitada, depois acolhida por um casal de jovens que lhe dá o nome da única palavra que ela pronuncia (“nyu~”).

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Fisicamente, Nyu distingue-se de Lucy pelos seus tarime, i.e. olhos doces e descaídos típicos de personagens moé ingénuas.

Como seria de esperar, esta divisão entre Lucy-a-pessoa-de-destruição-massiva e Nyu-a-ingénua acaba por torna-se no argumento central da série. Porém, a sequência de abertura mantem-se particularmente eficiente na sua representação da vontade ambígua dos yangire e yandere: simultaneamente, os mais agressivamente inervados e os mais possuídos dos personagens-tipo moé.

Em última instância, se como aponta Ngai “a cuteness é uma estética da impotência” (Ngai 2012, 64), o yangire e yandere podem ser entendidos como uma vingança do sujeito “cutificado”, batendo-se sadicamente contra o sadismo do seu dono. Não é de admirar, portanto, que o comportamento dos yangireyandere seja tão frequentemente justificado por traumas passados, mostrando-os como sofredores de abuso físico ou psicológico, numa lógica circular em que a vítima se torna vilão. É o caso quer em Mirai Nikki como em Elfen Lied, uma vez que Yuno era fisicamente maltratada e feita passar fome pelos pais por não corresponder às suas expectativas, e é indiciado que a propensão dos diclonii para a violência é resultado de abusos por parte dos humanos. A experiência da abjecção, i.e. de ser-se rejeitado e reduzido a um estado de desamparo, miséria e desespero, é de facto fundamental no retrato e desenvolvimento de muitas destas personagens, como a icónica yangire Rena Ryuuguu da franchise de sucesso Higurashi no Naku Koro ni (“Quando as Cigarras Choram”).

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Rena Ryuuguu, segurando na sua mahadinha ou nata (um instrumento de jardinagem japonês). Tão fofinha, ou será que não?

Marcada pelo divórcio traumático dos seus pais, Rena (que é uma rapariga doce e amigável excepto quando não é) sofre de um sentimento agudo de abjecção maternal e auto-abjecção. Este traço reflecte-se quer no seu fascínio pela lixeira ilegal da terra, onde passa o tempo numa caça ao tesouro por coisas “fofinhas” (normalmente, pedaços de lixo esquisitos); quer em cortar-se a si própria numa tentativa de remover o sangue materno que, nas suas alucinações, está infestado de vermes.

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A lixeira da cidade em Higurashi no Naku no Koro ni. Rena tem aqui a sua “base secreta” numa carrinha antiga (esvaziada e preenchida com coisas de que ela gosta), para onde se retira quando está angustiada.
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Rena alucina com vermes no seu sangue.

Apesar da sua neurose não se definir em função dos interesses amorosos, Rena (que devido ao divórcio dos pais, odeia mentiras, especialmente vindas de pessoas que lhe são próximas) também tem os seus momentos yandere, como a famosa cena da porta na versão animada da série. Nesta, Rena tenta forçar a entrada em casa do seu crush, acabando por tornar-se violenta quando este lhe dá uma desculpa esfarrapada, e aterrorizando-o ao ponto de este lhe entalar violentamente os dedos na pressa de fechar a porta.

Sequência yandere entre Rena e o seu interesse amoroso no anime Higurashi no Naku Koro ni.

A abjecção é pois uma componente-chave quer no yangire como no yandere, cujo amor assassino emerge em muitos casos de um desejo extremo por ligações físicas e espirituais. Na genealogia do yandere, esta obsessão pode ser traçada até ao caso Sada Abe de 1936, uma famosa assassina sexual que capturou a imaginação pública japonesa e alimentou o movimento artístico conhecido por ero guro nonsense (abreviado para ero guro ou guro). Sada Abe foi uma prostituta que estrangulou eroticamente o seu amante até à morte, castrou o cadáver e passeou-se pelas ruas de Tóquio com a genitália na sua malinha de mão durante dias até ser detida. Quando questionada sobre porque o tinha feito, respondeu que “amava-o tanto que não conseguia aguentar, por isso decidi que o queria todo para mim” (Marran, 163).

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Sada Abe pouco depois da sua detenção em 1936, na estação de polícia de Takanawa em Tóquio.

À medida que a investigação avançou, vieram à luz detalhes relevantes sobre a vida de Abe, incluindo ter sido vítima de violação por um conhecido; acontecimento que, na altura, sentenciava raparigas de tenra idade ao estatuto marginal das mulheres não-casadas vistas como “damaged goods”. Isto, por sua vez, precipitou uma série de eventos trágicos, desde tornar-se uma delinquente fugida de casa a ser forçada pelo pai a prostituir-se, bem como a miséria resultante dos seus dias enquanto trabalhadora do sexo: os maltratos pelos proxenetas, o contrair sífilis, o desespero financeiro, o aprisionamento em casas de geishas, até tornar-se finalmente numa prostituta em fuga. Como discutido por Christine Marran em Poison Woman, apesar destas revelações, os discursos coevos sobre Abe eram essencialmente naturalizados e caucionários, enquadrando o seu crime como resultado desejos instintivos e primários (repetidamente descritos como infantis, insectoides, regressivos), e alertando para os perigos de uma maturação sexual desregulada nos membros do sexo feminino. Isto reflectia e consolidava o arquétipo enraizado da dokufu, ou “mulher-veneno”, que Abe veio a personificar no século XX, alinhando a criminalidade feminina com o potencial para a destruição na libido de todas as mulheres.

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A “dokufu” (“mulher-veneno”) tornou-se uma buzzword na Era Meji, temendo-se uma epidemia de mulheres desviantes e assassinas. Takahashi Oden, representada na figura, é considerada a mulher-veneno mais icónica deste período. 

Apesar da própria Abe reconhecer que as suas acções eram, em certa medida, motivadas por uma desapropriação de poder (“disempowerment”) com base no seu sexo e classe social – recorrendo ao assassinato e à mutilação na tentativa de alcançar uma igualdade sexual em relação ao homem−, os escritos do pré-guerra despolitizam as suas reivindicações, atribuindo-as a uma suposta psicossexualidade desviante inata e (ab)usando-a para validar uma agenda de opressão de género. Numa reviravolta surpreendente, contudo, a cultura popular do pós-guerra alterou esta posição dominante, reconvertendo Abe num ícone de liberdade, auto-afirmação e emancipação feminina recorrente na ficção pulp e cinema dos anos 70 japoneses. Ainda assim, de acordo com Marran, esta viragem tem menos a ver com a luta das mulheres do que com o emergir do “homem masoquista” como contra-discurso sobre a masculinidade, gerando um culto da depravação feminina “através dos qual a política totalitária e os valores culturais masculinos são explorados e criticados” (Marran 2007, 136).

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Still do pink film de Noboru Tanaka, A Woman Called Abe Sada (1975).

As fórmulas do yangireyandere herdam este masoquismo masculino e o tom grotesco do ero guro, combinando aquilo que seriam normalmente personagens moé benignas com a carga negativa da transgressão na “mulher-veneno”. Como resultado, têm uma qualidade inerentemente sensacionalista e chocante, que distingue manga e anime como Mirai Nikki e Elfen Lied de retratos mais delicados e completos da insanidade e depressão em séries como Neon Genesis Evengelion. Ao transformar mulheres psico-patológicas em caricaturas distorcidas, as “mulheres venenosas” do yangire e yandere – agora “meninas venenosas”− perpetuam mitos perniciosos sobre a feminilidade e a doença mental que são mais reveladores dos medos (hegemónicos) masculinos do que de outra coisa. No entanto, se formos momentaneamente além da questão da má representação (uma estratégia que Ngai sugere em relação à “animatedness”), podemos não obstante encontrar questões de afecto, vontade e poder únicos às estéticas do grotesco e do grosseiro.

Um exemplo disto será Akira Kogami do anime quintessencialmente moé Lucky Star (2007), baseado na banda desenhada yonkoma de Kagami Yoshimizu. Akira é uma ídolo de 14 anos que, juntamente com o seu assistente Minoru, co-apresenta “Lucky Channel”, um curto segmento informativo no final de cada episódio de Lucky Star que (supostamente) promove as personagens e eventos principais do programa. Tem cabelo cor-de-rosa (notam o padrão?), usa um sailor suit com mangas supercompridas e exibe uma personalidade energética, cuteonsteroids, que é na verdade uma fachada para a misantropa intratável que se esconde por baixo, não acima de recorrer ao abuso verbal e físico para impor a sua vontade.

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Akira Kogami, co-apresentadora de “Lucky Channel”, posando na sua indumentária de ídolo.

À medida que os episódios avançam, a piada é que, apesar dos melhores esforços do seu assistente, a personalidade tóxica de Akira desvia invariavelmente o “Lucky Channel” do seu propósito original como “cantinho” para os fãs, transformando-o ao invés numa comédia negra autónoma sobre a relação profissional cada vez mais abusiva do duo. E, atenção: à típica moda da “menina veneno”, a violência é quase exclusivamente do feminino sobre o masculino.

A dupla personalidade de Akira no “Lucky Channel”.

O “Lucky Channel” separa-se do resto do programa não apenas por quebrar a “quarta parede” mas também pelo seu tom negro, inervado e cínico, contrastando com a alegria e descontração slice-of-life de Lucky Star. Adicionalmente, a “yangirização” de Akira é abertamente enquadrada como uma questão laboral, não-tão-subtilmente apresentado a sua neurose como resultado do envolvimento precoce, aos três anos, na indústria altamente competitiva dos tarento (personalidades da televisão). Entre outros detalhes mórbidos, ficamos a saber que os seus pais são divorciados e que a mãe administra as finanças de Akira, usando o dinheiro para alegadamente comprar produtos de marca para si própria enquanto dá à sua filha uma exígua mesada. Akira é, portanto, representada como uma slave to the wage, amargurada pela pressão e expectativas de uma indústria, família e pais exploradores, mas também obcecada com a progressão na carreira, poder e prestígio. Como uma Regan invertida, o seu corpo é possuído pelo trabalho intensivo de uma persona cute que rápida e facilmente se desmorona em poses nada femininas ou infantis (e.g. coçar a virilha, fumar cigarros em série), olhos franzidos e uma voz de bagaço. Além de que, porque percepciona o facto de ser relegada para o outro lado da “quarta parede” como uma desigualdade de estatuto, Akira é consumida pelo monstro verde da inveja, uma emoção que, como proposto por Ngai, é historicamente feminizada e proletarizada (com o mal-afamado conceito de “pennis envy” no olho da tempestade). Akira torna-se mesquinha e paranóica, ressentida pela popularidade dos protagonistas e vingando-se no subordinado Minoru – que tem um papel menor no programa principal e cuja mobilidade a irrita mais do que tudo o resto −, utilizando métodos extraordinariamente cruéis e antagonísticos, desde a humilhação verbal a formas cada vez mais extremas de agressão física (culminando num cinzeiro atirado à sua cara).

Exemplos do abuso verbal e bullying de Akira sobre Minoru.

As tentativas repetidas por parte de Akira de entrar no programa principal são, por sua vez, constantemente frustradas. Em ocasiões várias, fica abruptamente doentíssima, ou é-lhe dado uma cabine de karaoke em vez de um palco de concertos, ou a sua canção é interrompida a meio, aparentemente barrada de entrar num mundo ficcional habitado por estudantes de liceu ou trabalhadores imunes à violência do trabalho sobre o corpo e alma da mão-de-obra. Por fim, a venenosidade de Akira precipita a destruição do próprio “Lucky Channel”. Depois de ser enviado numa missão com risco de vida para recolher água potável das nascentes do Monte Fuji (que Akira acaba a cuspir por não estar suficientemente fresca), Minoru, para lá do seu ponto de ruptura,  destrói completamente o cenário do segmento aos murros e pontapés.

Minoru a (finalmente!) passar-se depois do abuso escandaloso de Akira, deixando o cenário de “Lucky Channel” em ruínas.

O yangire e yandere personificam, potencialmente, este ciclo nefasto de abuso de uma forma transgressiva, mas não necessariamente progressista, procurando abertamente a negatividade ao invés do realismo ou de uma melhor representação. Expressam de modo grosseiro e directo o nosso medo do reprimido (quer do psicologica como do socio-economicamente reprimido), aproximando-se do princípio junguiano da “enantiodromia”: os extremos que se transmogrificam nos seus opostos-sombra. Quanto mais fofinha e domesticada a rapariga, então, mais sinistro e selvagem o seu veneno. O mesmo se pode aplicar ao dizer shakespeariano de que há um método na loucura, tornando o seu contrário – uma loucura no método – tão ou mais verdadeiro. (Na dúvida, dêem um passeio até à vossa loja Ikea ou Muji mais próxima, onde a mera superabundância de ordem e utilitarismo é suficiente para levar qualquer um à loucura). O jogo vídeo Yandere Simulator, presentemente a ser desenvolvido e descrito como “um jogo de acção furtiva sobre perseguir um rapaz e eliminar secretamente qualquer rapariga que pareça interessada nele, ao mesmo tempo que se conserva a imagem de uma estudante de liceu inocente”, aborda este aspecto processual da disrupção no yangire e yandere.

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Ilustração promocional do jogo vídeo Yandere Simulator, mostrando uma estudante do liceu apaixonada com um rasto de sangue e corpos atrás de si.

Com o subtítulo “Don’t Let Senpai Notice You” (um trocadilho com o popular meme da internet I Hope Senpai Will Notice Me), a personagem principal utiliza uma larga gama de processos “racionais” para eliminar as rivais, desde da carnificina pura e simples à encenação de acidentes ou à sabotagem social, não deixando de lidar com preocupações prácticas como desfazer-se dos cadáveres, limpar o sangue ou destruir outros indícios incriminadores.

Breve apresentação e tutorial de Yandere Simulator.

Afinal de contas, o que nos assegura de que o nosso próprio raciocínio, a nossa ordem, não é retorcida? Como disse Yuno Gasai: “Eu sou louca? O que é louco é outro mundo em que eu não posso estar contigo.” Este oscilar na fina linha que separa a normalidade da loucura é válido para muitos produtos da cultura popular feminina, como o shoujo manga (banda desenhada japonesa para raparigas), cujos diálogo e demonstrações românticas de um sentimentalismo excessivo, se tiradas do contexto, poderiam facilmente passar por cenários yandere de possessividade, stalking e obsessão.

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Um exemplo de discurso romântico num shoujo manga com um tom yandere.

O yangire e yandere são, na sua essência, personagens de uma bimodalidade sensacionalista cujo trabalho afectivo pode, apesar desta legibilidade “excessiva”, tornar-se extraordinariamente opaco, apelando tanto a leituras radicais como reacionárias. Entre as suas posições extremas – cuteness e horror, razão e loucura, passional e mecânico, controlador e controlado…− está uma lacuna onde reverberam visões do feminino, do infantil, do masculino, de classe e do trauma. Acima de tudo, ambas as fórmulas exploram o eterno conflito entre Eros e Thanatos, as pulsões para a vida-amor e a morte, numa forma concentrada que sonda a nossa inveterada suspeição e sentimentos disfóricos para com tudo aquilo que seja excessivamente… simpático.


LIVROS

Edelman, Lee. 2005. No Future: Queer Theory and the Death Drive. Durham, NC: Duke University Press.
Janisse, Kier-La. 2012. House of Psychotic Women: House of Psychotic Women: An Autobiographical Topography of Female Neurosis in Horror and Exploitation Films. Godalming, U.K.: FAB Press.
Johnston, William. 2004. Geisha, Harlot, Strangler, Star: A Woman, Sex, and Morality in Modern Japan. Columbia University Press.
Marran, Christine. 2007. Poison Woman: Figuring Female Transgression in Modern Japanese Culture. Minneapolis: University Of Minnesota Press.
Ngai, Sianne. 2007. Ugly Feelings. Cambridge, MA: Harvard University Press.
Ngai, Sianne. 2012. Our Aesthetic Categories. Cambridge, MA: Harvard University Press.

WIKIS

 

Know Your Meme-Dere; I Hope Senpai Will Notice Me; Mirai Nikki Yandere Face; Yandere Simulator.
Higurashi no Naku Koro Ni Wiki:  The Dam Construction Site; Ryūgū Rena.
TvTropes: Ax-Crazy; Bitch in Sheep’s Clothing; Berserk Button; Beware the Nice Ones; Beware the Silly Ones; Cute and Psycho; Enfant Terrible; The Fake Cutie; Girl with Psycho Weapon; Grotesque Cute; The Ingenue; Person of Mass Destruction; Split Personality; Tareme Eyes; Yandere; Yangire.
Wikipedia: Elfen Lied; Ero guro; Future Diary; Glossary of anime and manga; Higurashi When They Cry; Lucky Star; Moe; Sada Abe.

OUTROS SÍTIOS

The Yandere Game Development Blog
OLF, i.e. Olf Le Fol. 2010, Aug 4. Your Guide To Yandere Love, Too awesome not to post [Comentário em fórum online]

About ɳek✿usagi✞aɲ

Nekousagitan nasceu em Lisboa e é demasiado velha para andar a fazer bonecos e a ver desenhos animados. De dia, está a tirar um doutoramento em Pintura na FBAUL. Quando o sol se põe, faz parte do colectivo de zines Clube do Inferno (para compensar). Quando for grande, o seu sonho é ter uma dakimakura.

4 thoughts on “Yangire/Yandere: um tour pelas “meninas venenosas” na animação japonesa e não só

  1. De todos os sites que frequento normalmente, este era o que menos esprava ver dedicado um post tão longo dedicado ao anime.
    Ainda que a maioria dos exemplos citados sejam de géneros de animes que não vejo por não fazerem parte do meu gosto pessoal, gostei de ler o texto, portanto espero ver-te mais vezes escrever sobre o assunto.

    1. Anarquistahumanitario,

      Obrigada pela atenção e pelo comentário. É bom causar essa surpresa, e compreendo a sua posição em relação aos animes comentados (apesar de me interessar por determinados personagens/momentos /temas que apresentam, o único da qual sou fã indefectível é do Lucky Star).

      Espero que daqui para a frente os meus textos, todavia esporádicos, continuem a interessá-lo e motivar o seu comentário :-)

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