“Poros”, por Kareef

Enrique Pertegás

Ainda te tenho a pele colada ao corpo. Sabemos lá onde o meu corpo começa e o teu acaba, quando o sono nos entorpece os sentidos e mesmo assim teimamos em mergulhar-nos dentro um do outro. Ficaria assim o dia inteiro, nas tuas mãos firmes a agarrarem-me os braços. A minha cabeça na curva do teu ombro. A marca dos teus dentes nas minhas pernas. A água que bebemos um do outro espalhada pelos poros. O sono entrecortado pelos corpos que se procuram. A tua pele ficou impressa na minha. O teu cheiro. A tua boca. Bastou descolarmos para o Inverno começar.

Ela estava nervosa. Seria sempre assim de cada vez como a primeira, o coração descontrolado a sabotar os movimentos.  Ela esperava-o, sabia-o perto, cozinhava em pânico com medo daquele borrão na pintura que acontecia sempre que um quadro se avizinhava completo. O pincel tremia e se tremesse estragava o risco. O risco dele entrar na varanda dela. Alguém o podia ver, alguém os podia ver, de uma janela indiscreta ou de um terraço.  Ela esperava-o, vestida de branco, enquanto cozinhava para enganar o tempo. Um cigarro ou outro, os pés descalços. Lá fora ouviam-se risos, a noite amena, o céu negro espelhava as estrelas nos telhados das casas que devolviam o negro e o calor.

Abriste-me a porta vestida de branco. As tranças caíam-te pelos ombros enquadradas pela alça do vestido e a tua omoplata. Não contive o sorriso. Os nossos corpos agarraram-se. O meu coração parecia o de um cavalo de corrida. Encostaste a mão ao meu peito. Encostei a mão ao teu. Um dia os nossos corações não aguentam mais e rebentam numa supernova que espalhará as cores do Outono pelo céu inteiro. O que há-de ser de nós então, impotentes nos nossos corpos desfeitos em estrelas.  Ela sentiu o corpo todo a tremer com o corpo dele contra o dela, embrulhados num abraço, antes do beijo o abraço, sempre. Cozinhavas para mim e eu intrometi-me na tua cozinha, entre o picante e o sal marinho os nossos pés descalços procuravam-se, para evitar que o resto do corpo tomasse o controlo e nos sabotasse a ceia. Estavas bonita. O meu corpo queria procurar-te mas adiei-lhe a vontade por causa da vergonha, e dos cigarros e do vinho e da varanda e das palavras. Ela sentou-se de pernas estendidas no parapeito, de forma a que ele não percebesse que o corpo estava despido por baixo do branco. Esperaríamos. Entre palavras e o fumo dos cigarros a noite estava bonita. Por cima as estrelas no céu negro, por baixo a azáfama dos bares e das pequenas multidões que invadiam a rua em conversas alheias às nossas. Gosto da tua casa. Este céu que já foi teu cheio de estrelas, rio-me por dentro porque sei que bebeste antes de vir, as tuas palavras têm uma inflexão diferente por mais que as tentes disfarçar.

O frio vence as palavras e fechamos as janelas. Ambos sabem que assim que a janela se fechar os corpos vão vencer o jogo. Ele sobe-lhe a saia. Só muito mais tarde ele lhe despirá o vestido branco. Entretanto deixaram os corpos lutar sozinhos, de olhos mergulhados, de olhos cerrados. Voltaram a deixar os corpos sozinhos uma e outra vez, ao adormecer e entre o sono e na luz da manhã. É na luz da manhã que braços dele a agarram num abraço que não quer largar, qualquer pequeno movimento é suficiente para que ele a agarre com mais força. Devíamos ter o direito ao segredo ou ter a coragem de escancarar o coração ao mundo? Tudo parece perfeito assim… imbeliscável pela escuridão da realidade.

Voltaremos a viver tudo de novo, rebobinar e viver tudo outra vez, e outra, e outra. Ainda lhe tem a pele colada ao corpo. Sabem lá onde um corpo começa e o outro acaba quando o sono lhes entorpece os sentidos e mesmo assim teimam em mergulhar-se um dentro do outro. Ficariam assim o dia inteiro, as mãos firmes a agarrarem-lhe os braços. A cabeça dela na curva do ombro dele. A marca dos dentes dele nas pernas dela. A água que beberam um do outro espalhada pelos poros. O sono entrecortado pelos corpos que se procuram. A pele dela ficou na dele impressa. O cheiro. A boca. Bastou descolarem-se para o Inverno começar.

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