A esquerda, o radicalismo e Marisa Matias

“Portugal precisa de regressar à Constituição, ao projecto de sociedade e de país que ela desenha”, Marisa Matias

Hoje, ao ouvir na entrevista de Marisa Matias à Antena 1 que a sua prioridade, se for eleita presidente, será fazer cumprir e respeitar o texto da Constituição da República, parei um minuto para pensar (num paradoxo): a Constituição, texto matricial da candidata dessa esquerda que os média chamam “radical”, não tem nada de radical. Nas suas sucessivas revisões, o texto supostamente orientador da práxis da República foi perdendo como é sabido todo o seu radicalismo.

Por exemplo, do deveras radical “Portugal é uma República soberana… empenhada na sua transformação numa sociedade sem classes” passou-se ao abstracto, inócuo e politicamente correcto “Portugal é uma República soberana… empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária”. Ou do igualmente radical “São tarefas fundamentais do Estado: promover o bem-estar…, mediante a transformação das estruturas económicas e sociais, designadamente a socialização dos principais meios de produção, e abolir a exploração e a opressão do homem pelo homem” passou-se ao inconclusivo, inofensivo e retórico “São tarefas fundamentais do Estado: promover o bem-estar…, mediante a transformação e modernização das estruturas económicas e sociais”.

Que a grande missão da candidata dessa esquerda catalogada de “radical” seja fazer cumprir um texto que foi sucessivamente revisto e alterado para compatibilizar a sociedade pós-revolucionária com os principais interesses do capitalismo (descolectivizar, privatizar, mercantilizar, concentrar, etc.) leva-me a considerar desde logo duas coisas:

  1. que hoje – vá-se lá saber como e porquê – um texto que cedeu amplamente à deriva capitalista da sociedade pode servir de guia matricial à acção de praticamente qualquer político ou partido de esquerda (nos últimos anos, defender esse texto sagrado converteu-se na acção mais repetida da “esquerda”);
  2. que se tornou praticamente impossível destrinçar o que permite hoje definir, identificar e caracterizar um “partido de esquerda”.

ppd_palavrasdeordem

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

5 thoughts on “A esquerda, o radicalismo e Marisa Matias

  1. Nos tempos que correm, a frase “Portugal é uma república soberana”, sem mais nada, já é muitíssimo radical. Tão radical como qualquer movimento independentista. Levada a sério, colide frontalmente com a “constituição oculta” da União Europeia e da zona euro e exige uma ruptura completa com o consenso neoliberal que nos tem governado.

    1. A frase “Portugal é uma república soberana” levada muito ou pouco a sério não permite caracterizar ninguém nem nenhum partido como sendo “de esquerda”. O PNR não teria problemas em subscrevê-la.

    1. Sonhemos com vitórias mais audazes. Não nos contentemos com uma gestão ligeiramente mais humana do capitalismo, que talvez consiga aumentar num sexto o salário mínimo de quem ainda trabalha, mas que não tem nenhuma resposta para o sexto da humanidade que o capitalismo, tendo tornado supérfluo, abandona em favelas. Sejamos mais radicais e atrevidos. Deve ser esse o nosso papel. Pelo menos aqui, neste blog. Abraço e um bom 2016!

      1. Nada contra, muito pelo contrário, nem outra coisa seria de esperar neste blog, mas não vejo contradição entre a defesa de ideias e princípios mais audazes e radicais, a exigência de uma análise crítica que exponha as contradições do capitalismo e o reconhecimento da necessidade de acções concretas, necessariamente insuficientes e até porventura erradas. Parece-me que são planos diferentes e a sua confusão ou, pior ainda, a escolha de um em detrimento do outro em geral não dá grandes frutos.

        Cumprimentos

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