Música ‘popular’ e música ‘erudita’: desmontando uma velha dicotomia

A história de arte, e particularmente aquela da música, habituou-nos à divisão entre o ‘popular’ e o ‘erudito’. De um lado, estaria a arte do povo, pouco elaborada/sofisticada e transmitida essencialmente por via oral; do outro, a arte erudita, transmitida através de ‘escolas’, onde uma pequena minoria aprendia com os mestres da sua época as técnicas e os saberes (supostamente) mais adequados à criação artística. Uma análise superficial à música do século XX bastaria para desmontar tal dicotomia, revelando que, onde estariam dois pólos hipoteticamente opostos, autónomos e sem relação entre si, está afinal um todo orgânico, cheio de vasos comunicantes – ainda que estes sejam mantidos geralmente ocultos.

É sabido que Bela Bartok se inspirou grandemente na música popular da Hungria, Eslováquia, Roménia e Bulgária, a qual estudou  em profundidade; que, para compor a sua célebre “Die Dreigroschenoper”, Kurt Weill se inspirou no jazz; e que Luciano Berio incorporou nas suas inovadoras composições as tradições musicais de várias regiões, nomeadamente melodias sicilianas.

A música dita ‘séria’ do século passado mostra-nos assim que não existe nenhuma fronteira intransponível entre o campo popular e o erudito e que é possível estabelecerem-se profícuas ligações entre ambos.

Mas também a análise da música dita ‘ligeira’ permite chegar à mesma conclusão. Em 1967, uma banda nova-iorquina de pop/rock, com o apoio de Andy Warhol, editou um álbum que na época passou completamente despercebido tanto aos críticos musicais como aos tops de vendas; o seu nome era também aquele dos seus criadores: “The Velvet Underground & Nico”. A composição contemporânea minimal de La Monte Young constituía uma das suas bases, com a presença de drones.

Apesar de ter passado ao lado da crítica e do público, este álbum deixou uma marca profunda no rumo seguido pela música dita ‘popular’, ao fazer o minimalismo de raiz ‘erudita’ contaminar a cena pop/rock. Esta contaminação ajudou a fertilizar o solo onde – para nem falar do punk – germinaram o noise (Merzbow), o ambient (Eno, Tangerine Dream, Aphex Twin, Thomas Köner), a música industrial (Throbbing Gristle), o drone rock [Earth, Sunn O)))] e algum do rock mais livre, arejado e inventivo (Can, Faust, Sonic Youth, Godspeed You Black Emperor, Boredoms). Velvet Underground é assim muito provavelmente o elo perdido entre a drone music ‘erudita’ de La Monte Young e uma série de sub-géneros da música ‘popular’, os quais iriam absorver essa influência, ainda que para traduzi-la sempre em algo de novo.

Desta forma, alguém que se interesse hoje pela drone music, deverá dedicar igual atenção à exploração dos dois campos, geralmente tidos por separados a priori, da música ‘popular’ (confira-se os exemplos dados no parágrafo anterior) e da música ‘erudita’ (La Monte Young, Tony Conrad, Eliane Radigue, Pauline Oliveros, etc.). A drone music é assim um mero exemplo de como a arte sonora do séc. XX tornou ultrapassada essa velha subdivisão da música entre ‘erudita’ e ‘popular’.

Encontramos, ainda na chamada música minimal, outro exemplo de como contribuições da música ‘erudita’ são incorporadas, exploradas e transformadas por projectos de música ‘popular’. Uma das composições mais inspiradas da música contemporânea foi provavelmente a obra minimalista “Music for 18 Musicians” que Steve Reich compôs em meados dos anos 70. Vinte anos depois, uma banda de rock instrumental de Chicago haveria de inspirar-se explicitamente neste trabalho ‘erudito’ para o motivo central de um longo tema que ficou também como um dos mais marcantes da música ‘popular’ dos anos 90.

Mas abordar esse fascínio da criação musical do séc. XX pela música minimal sem falar também do techno seria omitir, como é regra fazer-se, uma das suas expressões mais inovadoras, futuristas e radicais. Desta feita, o contributo não veio de compositores brancos e ‘eruditos’ mas de três colegas negros de um liceu ‘popular’ do subúrbio da cidade mais perigosa dos EUA que iriam, cada qual com o seu input, dar a este novo género a sua forma elementar.

É justamente por não ser ‘erudito’ que o techno, uma das expressões musicais mais originais das últimas décadas, é catalogado como uma arte menor, a que se pode dedicar uma notinha de rodapé, mas não mais do que isso, quando se disserta sobre a música do séc. XX. O techno tende a ser visto como música concebida mais para a loucura da pista de dança do que para o deleite de ouvidos cultivados. Tende portanto a ser situado no pólo oposto ao da música ‘séria’, com a qual não teria qualquer relação. No entanto, o techno tem ingredientes que também encontramos em muita da música ‘erudita’ contemporânea (nomeadamente graças à sua ênfase no timbre, no ritmo e na repetição) e que contribuíram para transformar a nossa sensibilidade e a forma como hoje nos relacionamos com o som.

Se, ao invés de admitirmos a existência de ligações permanentes e de inúmeros pontos de contacto entre as músicas ‘populares’ e as ‘eruditas’, continuarmos a insistir em perpetuar a oposição entre ambas, não contribuiremos senão para ocultar os vasos comunicantes que fazem com que a cultura seja um todo fervilhante, complexo e aberto, composto por relações imperceptíveis mas essenciais e constantes entre milhões de grandes e de pequenos criadores, de génios e de espíritos vulgares, de sábios e de leigos.

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About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

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