Cartas do vale #14

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Não sei se posso ir ao teu encontro, surgiu uma coisa na minha mente e preciso de a resolver antes que o dia anoiteça. Foi a última vez que a vi nesse dia. Ela dizia-me sempre destas coisas, atiradas do fundo de si à minha cara. As suas frases pareciam bolas de papel pela forma como voavam irregulares no ar até que me atingiam. Pareces um sapato, uma trave, um alicate, mexe-te pá, disse-me. Não me continha em sorrir perante isto. E depois ficava na aragem um certo perfume quando ela saía assim a correr e a dizer-me coisas. Espera, queria eu dizer-lhe, espera mais um nadinha que eu quero dizer-te uma coisa que nunca te disse. Mas nunca lhe dizia nada. Espera, pensava eu dizer-lhe desta vez. Espera, quero mostrar-te o caralho todo em pé. Mas ficava a vê-la com os olhos pendurados nas palavras pensadas. E ela batia com a porta e estremeciam as loiças todas que viviam no interior do armário da cozinha.

(Eles estavam todos na galhofa e eu estava sentado como era hábito sentar-me no alpendre da minha casa em silêncio. Falavam de acordo com uma agenda que era só deles e dividiram entre si atenções desmedidas. Um deles, aprofundou sentimentos ambíguos, enquanto outros, sem mácula, expiavam antigos sentimentos de culpa. Em família, ou coisa parecida, foram todos ouvindo o que todos tinham a dizer sobre os pontos em agenda. Terminaram em festa a primeira conclusão do dia).

O tempo vai calmo, quente, embaciado, azul. O tempo estica-se para além do necessário calor que o mundo já deu a si mesmo este ano. Ainda tenho morangos nos morangueiros. E a água do poço encontra-se a um nível como nunca antes o vi chegar de tanto regar. Reguei este ano para além dos dias habitualmente quentes. Rego em pleno Inverno quando o deveria fazer a chuva por mim.

(Mais à frente, o ponto referente à esfera celestial deu mais trabalho. Parecia uma cebola, repleta de cascas até ao núcleo que foi necessário pelar para expor. Um tipo alto vestido de verde trouxe chá e falou-nos da sua filha que era praticante de violino. Ouvimo-lo, pareceu-me que o seu discurso era o de um lobo uivante. Ele disse-nos que o elemento unívoco da natureza era a saliva e que, na sua essência, estava o unto da boca que fazia escorrer todas as palavras que se pretendem dizer. Não existe pensamento lógico, disse, existe apenas a poesia. Depois levantou-se e saiu da sala. Reparei que ele tinha uns pés de poesia feitos à maneira de andar. E andava em ritmo de passeio, como que cantarolando nesses passeios que dava pelos campos, com passos poéticos, com passos poéticos e ritmados. Era um tipo singular e alto e que aparecia vestido das palavras que dizia, nas formas de dizer que eram suas, nos passos e nas palavras que eram os seus pés. Alto e verde, era um lobo).

Ela entrou ainda não tinham passado quinze minutos depois de ter saído, e riu-se para mim. Trouxe consigo o ar de fora e o seu perfume que o meu nariz já havia perdido. Esqueci-me da mala, desculpa ter-te interrompido. Era tão bonita, ela era tão bonita. Tinha um cu roliço, apetitoso, e umas mamas que me faziam suster a respiração. Ela sustinha ali uma boa parte do mundo em tamanho, do tamanho do desejo. Quando a vejo chegar assim, dá-me tesão. Bateu com a porta, e ainda a ouvi gritar lá do fundo do jardim das tangerinas, desculpa pá!

(Outro de nós disse uma palavra animalesca depois do lobo se ausentar. E outros, atrás deste, não se contiveram e falaram. Disseram quase todos a mesma coisa, palavras untadas de saliva que era o exercício da demonstração prática do fluir das coisas do mundo da boca para fora. Um tipo muito velho que costumava sentar-se nestes dias ao pé de nós, pediu para falar. Disse coisas autorizadas nos livros e repôs toda a gente num caminho que era o seu caminho. A terceira Mulher-Lua elevou-se acima da mesa e pronunciou o seu desacordo. O velho calou-se. Ela brilhava quando falava. Tinha em si um brilho profissional, uma coisa interior. O teu crepúsculo, disse, virando-se para o homem de muita idade, é um fio horizontal a sondar o fim dos tempos. O fim dos sonhos. Outros sonhos, vinte e tal mil sonhos tive-os eu de uma só vez. Tu esqueceste como sonhar. E o velho desapareceu em pó).

Ela tinha uma forma especial de fazer as coisas lá em casa. Adorava vê-la de um lado para o outro a inventar tarefas domésticas. Nas coisas mais simples, lá estava ela a fazer aquilo que me fazia rebolar os pensamento em macerações erotizantes, desfolhava-me, desbragava-me.

(Deixei correr a festa das palavras até que entraram uns tipos vestidos de soldados, de granadeiros. Com casacas coloridas, com chapéus muito coloridos e penachos no topo dos chapéus. Um batalhão inteiro montando cavalos. Fizeram um número de circo e bateram as palmas das mãos nas pernas. Um deles estava doente e cagou-se todo pelas pernas abaixo quando pegou no cavalo ao colo. O número terminou ali).

Ela adorava provocar-me. Andava pela casa nos seus afazeres nua da cintura para baixo. Atendia assim à porta, com imensa naturalidade, o carteiro e o homem que vinha contar a água, ou o outro que aparecia a receber as cotas da colectividade a que pertencíamos. Ela tinha este poder natural à superfície da pele.

(A segunda Mulher-Lua desviou o assunto para a fonte de todas as nossas preocupações. Ela tinha uma postura heráldica e também brilhava quando falava. Disse qualquer coisa com que todos concordaram e fizemos um longo silêncio. Falou por fim um tipo esquálido, irritante e esquálido. Disse, ninguém vive o que vive sem ter nada para dizer, sem ter com viver. Há quem cante de memória os artigos relativos aos direitos da irmandade, relativos à forma camo nos devemos exprimir. O encontro chegou ao fim, anuímos por unanimidade. Dos vinte e quatro ainda ficaram alguns a beber chá e a conversar de outras coisas. A falta de segurança nas opiniões do conselho facilitou o processo de erosão que se verificaria a seguir. É difícil reter os nomes de todos os viventes do mundo, segredou-me a quarta Mulher-Lua que era amante de um aventureiro turco).

About JMGervásio

Sou pessoa alta, magra por criação, amante de velocípedes e de quase tudo que implique não fazer à segunda - quero dizer, sou do tipo espontâneo. Licenciado em altos estudos artísticos na ESBAP, tenho, desde lá, desenvolvido uma certa tendência para o comércio a retalho e agricultura de terraço. Possuo momentos de grande felicidade e civilidade que nem sempre são devidamente apreciados.

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