“Sincronias”, por Kareef

“Window-watching”, de Michael Wolf.

Volto a ti como quem volta à carícia absoluta das palavras de um livro. O cheiro familiar que inebria as ideias dos livros antigos dos alfarrabistas. As páginas que já pertenceram a outros e que folheio devagar, sentindo-lhes os próprios dedos.

Ela saiu tarde demais. O pulso acelerou nas veias. Não podia perder o comboio que levaria à estação final do corpo dele. Acelerou. Um par de infracções com o coração a sair pela boca. Não poderia perder o comboio que levaria à estação final do corpo dele. O carro ficou numa linha amarela, podia ser vermelha. Talvez o levassem. Tarde demais. A tremer das pernas correu pela estação. Duas estações passaram até que o corpo serenasse. O sangue continuou a correr violentamente, um rio de sangue que corria pelos carris, estremecente à passagem dos outros comboios que com aquele se cruzavam. Ela leu-lhe as palavras de um livro. Provocou-se sozinha com elas, transmutando cada palavra em erotismo. Casa. Cadeira. Fotografia. Liberdade. O sonho da noite passada percorria-lhe o corpo. Eles, no habitual espaço sem espaço dos sonhos, os contornos esfumados pela memória difusa de uma mente vagueante. Eles num banco de jardim num cenário sem forma, escondidos, mergulhados um no outro, a sorrir. O corpo dele a voar com os ponteiros do relógio, até ela. Ela até ele, pendurando-se nos nano segundos que passariam velozes até ao abraço. Escapar-se-iam do tempo e do espaço que pertenciam a outros, para se encontrarem, fora do tempo. As carruagens de metro que os levariam um até ao outro estariam sincronizadas, cronometrando-se numa luta de chegarem exactamente ao mesmo ponto no mesmo girar de ponteiro. Ele chegou primeiro. Escondeu-se ao virar de um corredor de mármore branco, para a ver chegar. Ela deu a volta, a curva, onde o viu e foi difícil controlar o sorriso. O abraço, o instante sem tempo do abraço, os corpos trémulos. Percorreram as ruas da cidade dele que já foi dela. Ela respirou fundo ante um céu cuja silhueta sabia de cor. O recorte dos prédios coloridos contra o sol que reflectia a luz nas nuvens solitárias que tentavam beijar o alto dos prédios. Sentia-lhes a falta. Das nuvens e dos prédios e dos rugidos dos motores e as betoneiras. Depois do mar e do resfolegar das folhas do monte.

Escadas babilónicas levariam até ao quarto de paredes torradas num amarelo d’Outono. Como amarelo seria o Ginko onde fariam amor no sonho por sobre o mar de folhas amarelas. Ele disse estás mesmo aqui. Ela disse estás aqui. Ele deitou a cabeça no colo dela. As mãos dela atravessaram-lhe o cabelo. Ele disse queria levar as tuas mãos comigo. As mãos dela conheciam-lhe os caminhos que levavam da curva da nuca até à boca, atravessando as três linhas da testa. Ela abraçou-o. O corpo dele perturbava-lhe os sentidos, que, um a um, se abriam, bebendo a água que lhe brotava da boca e da pele. Ele cerrou a cortina que os separava da curiosidade da vizinha da frente. Tacteando-lhe as pernas percebeu que ela teria cedido à promessa das meias que ligariam as pernas a um corpete transparente. Tacteando-lhe as coxas percebeu que estavam nuas. Os corpos mergulharam-se um no outro. Olhos nos olhos, corpos nos corpos, sangue no sangue. Ele disse quero ver-te a vir comigo dentro de mim. Ela disse espera por mim. Olhos nos olhos os corpos procuraram-se uma e outra vez, um isqueiro aceso e um rastilho de pólvora, ela sentiu-lhe nas mãos o coração sem controlo, ele queria-a de todas as maneiras ao mesmo tempo. Ela queria parar o tempo para que ficassem assim mergulhados o dia inteiro, uma semana, um ano. Ele mergulhou nela ouvindo-lhe os pensamentos. E rebentaram com as fronteiras do universo, com a mesma sintonia das carruagens do metro. Entre os estilhaços sorriram. Ele disse de olhos escondidos. Ela sorriu sabendo-se culpada da timidez. O vento havia de querer empurrar a cortina, e a vizinha, que fingia pendurar roupa com a lentidão de quem procura entrever o encontro de dois corpos alheios terá certamente vislumbrado um pedaço de pele nua. Em silêncio deixaram-se ficar alheios ao tempo, respirando o cheiro dos corpos e do vento que ameaçava satisfazer os desejos da vizinha.

Haviam de ser fotografados sem permissão num banco igual ao do sonho dela, por baixo de uma videira, depois de matarem a sede dos corpos nos corpos e a sede de água no chafariz dos sonhos dele. A imagem era bonita, as cores branco cinzento azul verde castanho outono. E dois desconhecidos de corpos ainda quentes. As betoneiras da cidade rugiam. Um chocolate quente substituiu o malte, e a tristeza alheia sob a forma de biscoitos e lágrimas mal disfarçadas procurou-lhes o calor do Outono que lhes pintava as auras. Os dedos procuraram-se enfim em silêncio, sem pudor. Foi sem pudor que se largaram na estação. Ela levaria na pele o cheiro dele, e a ressaca do corpo dele nascia devagarinho, deixando-lhe nos lábios um sorriso difícil de segurar. Como a rapariga dos lábios vermelhos ela também seguiria caminho olhando pela janela disfarçando mal o sorriso. E na boca o sabor a chocolate, a cigarros e liberdade.

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