Notas para uma crítica radical do turismo (IV)

O turismo prolifera lá onde o território se separa dos seus habitantes: o caso paradigmático de Berlim

Há uns dias atrás, o jornal El País propunha aos seus leitores “25 pistas para disfrutar de una de las ciudades más vibrantes de Europa, con tiendas de ‘cyberpunk’, discotecas de ‘techno’ o parques de atracciones abandonados”: Berlim, que já é a terceira cidade mais visitada da Europa, apenas suplantada pelos pesos pesados Londres e Paris. Ao dar pistas aos potenciais visitantes da capital alemã sobre como aí empregarem o seu tempo, o diário espanhol oferecia também uma caracterização sucinta mas precisa daquilo que afinal de contas o turismo é: a redução da viagem à distracção de ir ver o que se tornou banal – apesar de repetir trilhos que se tornaram vulgares, o turista nunca deixa de considerar originais e únicas as suas descobertas.

Foi depois de erradicado quase o último resquício do que até há uma década e meia atrás animara a pujante contracultura berlinense (festas ilegais, bares ocultos em caves, casas ocupadas, cooperativas de habitação, dinâmicas associações de bairro, cooperativas de produtos biológicos, etc., agora reduzidos a uma ínfima sub-cultura sem qualquer impacto na vida da cidade), que a indústria do turismo definiu Berlim como alvo prioritário – o turismo monumental, o turismo noctívago, o turismo lgbt, o turismo cultural, o turismo do socialismo, o turismo para fazer compras, enfim, o turismo, a capacidade de tornar vendável o máximo de elementos de que é composto o território.

Durante décadas e até sensivelmente meados dos anos 90, Berlim era talvez a metrópole menos mercantilizável de toda a Europa, logo a menos atractiva para a rentabilização turística: a degradação material das fachadas de bairros inteiros era uma afronta ao turismo; a inexistência, nesses bairros, de certo tipo de lojas em consonância com as modas do momento também. Para tornar aquele território atractivo ao consumo foi necessário empreender – no quadro de uma vasta intervenção daquilo que em Portugal se chama reabilitação urbana – uma das maiores operações de restauro da história da civilização (e isto não é exagero). Pretendia-se, com esse restauro massivo e simultâneo de milhares de fachadas urbanas (que criou na época o maior estaleiro de obras do mundo, apenas suplantado por Shangai), recuperar a forma neoclássica original que tinha sido progressivamente eliminada no decurso do século XX, nomeadamente durante o socialismo, período que desprezou singularmente todo o tipo de ornamento diferenciador nas fachadas.

Apagavam-se assim, para lá de inúmeros traços da segunda guerra, também aqueles deixados pelo nazismo e o socialismo. E, o que não é menos chocante, apagavam-se igualmente as marcas que os berlinenses, essencialmente no curto mas efervescente período que se seguiu à queda do muro, deixaram nas fachadas. Neste breve mas interessante período (grosso modo entre 1989-1997) pós-socialista e pré-neoliberal, de libertação cultural, uma parte significativa das fachadas deixou-se conquistar por cores fortes, vivas, por vezes extravagantes, em manifesta oposição à monotonia do cinzento socialista. Este processo de apropriação subjectiva das fachadas, em que os habitantes pintavam a parede exterior da sua varanda com as cores e os motivos com que mais se identificavam, dava azo à criação de novos lugares, novas identidades, novas afectividades. A queda do muro despertara (essencialmente nos bairros orientais) a esperança numa sociedade nova, onde cada um poderia exprimir abertamente as suas opiniões e os seus gostos pessoais. E teria sido esta esperança a desencadear este fenómeno peculiar de ‘personalização’ das fachadas. A singularidade das fachadas confundia-se assim com a singularidade das biografias de quem as habitava.

Deste modo, o restauro em massa, iniciado no final dos anos 90 e terminado uma década depois, veio apagar as marcas de toda uma longa diacronia histórica cujas origens remontavam aos tempos da revolução industrial e que se prolongava pelo nazismo, a segunda grande guerra, o socialismo e o período pós-queda do muro. Esta complexa diacronia deixara profundas marcas no território de Berlim, ao cicatrizar as suas fachadas que se tornavam assim riquíssimos artefactos arqueológicos, fazendo referência a todos esses distintos períodos. Ao restaurarem-se todas essas fachadas, impunha-se então um mesmo quadro sincrónico a quem visitava a cidade e também aos seus novos habitantes (provenientes essencialmente das cidades ricas da Alemanha – Munique, Estugarda, Hamburgo, etc.). Nascia assim uma ‘nova’ cidade, equilibrada e harmoniosa, a qual, através da sua arquitectura, evocava a época áurea de ascensão da burguesia, o Renascimento. Esta ‘nova’ cidade era pois uma cidade burguesa, coisa que a antiga claramente não era.

Exemplo de fachada restaurada que recupera e enfatiza as formas neoclássicas que a diacronia histórica tinha diluído. O tom pastel, tão característico do imaginário burguês, é presença obrigatória em todos estes restauros.
Exemplo de fachada restaurada que recupera e enfatiza as formas neoclássicas que a diacronia histórica tinha diluído. O tom pastel, tão característico do imaginário burguês, é presença obrigatória em todos estes restauros.

Ao apagar de cada fachada múltiplos vestígios do passado, o restauro em massa fizera desaparecer a possibilidade de restabelecer a biografia das fachadas. Em consequência, muitos milhares de berlinenses passaram a sentir-se estranhos na própria cidade que habitavam. A explosão irracional do valor do metro quadrado expulsou uma boa parte deles para fora da cidade. Mas os que ficaram tiveram de adaptar-se à vida numa metrópole que, para vender-se, eliminava do território todas as marcas da apropriação subjectiva desse mesmo território. Marcas essas em torno das quais se construíam identidades e passados, os quais, com a erradicação daquelas, também desapareciam.

Em síntese e para terminar:

  • É a mercantilização do território que faz com que este se abra à possibilidade da exploração turística, a qual não é compatível com a existência de territórios não formatados pelo capital.
  • O turismo não é praticável em lugares onde impera uma apropriação subjectiva do território nem qualquer forma de relacionamento com o mesmo não mediada pela mercadoria, pelo capital. É apenas quando os habitantes de um dado território são impedidos de se apropriarem do mesmo – de transformá-lo num espelho de si próprios – que a indústria turística encontra condições para proliferar.
  • O turismo faz tabula rasa dos territórios onde se instala: expropria os habitantes dos referentes que cada território – antes de ser manipulado para a exploração turística – guardava e que permitiam construir a sua memória e a sua identidade.
  • Para quem habita um dado território que se converteu em destino turístico, o que era directamente vivido afasta-se numa representação. No caso de Berlim, essa representação é, como vimos,  formada (mas claro que não exclusivamente) por um imenso sistema coerente e homogéneo de fachadas que reintroduziram na paisagem da cidade a imagem harmoniosa e pastel do neoclassicismo – que funciona de certa forma como a imagem matriz da sociedade burguesa actual.
  • Tornado objecto de pura contemplação, sobre o qual nenhum habitante dispõe já de capacidade (sequer legal) para intervir, o território turístico converte-se numa imagem autonomizada. Uma aparência. Um espectáculo.

Eis o que Berlim, como aliás qualquer outra metrópole europeia, tem hoje para oferecer aos seus visitantes.


Da mesma série:

Notas para uma crítica radical do turismo (I): A falsificação do real

Notas para uma crítica radical do turismo (II): O turista – esboço de definição

Notas para uma crítica radical do turismo (III): O turismo, uma invenção do capitalismo

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

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