A obsessão pelo espaço no imaginário da música popular dos anos 60/70: deriva, utopia e lsd

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Nos anos 60/70 ficaram célebres as viagens sónico-cósmicas de músicos e grupos tão diversos como Herbie Hancock, Sun Ra, Chick Corea, Jimi Hendrix, David Bowie, Tangerine Dream, Pink Floyd ou Hawkwind. Antes deles, em 1959, um compositor de pop experimental, Joe Meek, fascinado pelo programa espacial americano e russo do pós-guerra, compôs aquilo que, nas suas palavras, seria “a picture in music of what could be up there in outer space”. Para cumprir os desígnios de tão insólito projecto, Meek libertou a sua imaginação dos constrangimentos que a tecnologia em voga impunha. Recorreu por isso a uma palete de sons inovadores, composta por ruídos electrónicos, sons de palhinhas a fazer bolhas debaixo de água e imensos outros ‘DIY’ sound effects. O resultado foi um interessante e raro exercício de pop futurista.

Como Meek, também Attilio Mineo deixaria a sua marca na música do séc. XX com uma singular composição espacial que vale a pena recordar.

Antes de Meek e Mineo, Edgard Varèse fizera nos inícios dos anos 50 uma aproximação ao desconhecido espacial com o seu misterioso Déserts. Mas Varèse não fora o único a precedê-los. 

Existiam portanto vários antecedentes para o interesse que a música popular iria dedicar ao espaço, do qual a humanidade começava a obter notícias via programas espaciais de Washington e Moscovo. Mas porque haveriam muitas das mais indescritíveis e aventureiras explorações sónicas da música popular dos anos 60/70 de contribuir tão intensamente para a construção de um imaginário espacial? Ou porque haveria este imaginário de marcá-las tão profundamente?

A minha hipótese é que, antes de converter-se numa mera moda, a metáfora espacial serviu de inspiração a boa parte da contra-cultura musical deste período por operar como refúgio (onde ensaiar a sua vontade de transgressão) relativamente a um quotidiano normalizado pelo capital com o qual ela não se revia. Um quotidiano desenhado à medida das pobres aspirações de uma classe social em plena ascensão, a classe média. O que gostaria de propor aqui é que sem a tensão que lhe foi provocada pela hegemonização dos valores e aspirações desta classe (muito sinteticamente: individualismo/propriedade privada; estabilidade/carreira profissional; passividade/mercadoria; irracionalidade/mass-media, etc.), a imagem libertadora do espaço nunca teria seduzido tão fortemente as emergentes sub-culturas musicais (rock psicadélico/progressivo, krautrock, electrónica, ambient, jazz funk, jazz de fusão, free jazz, etc.).

À vida segura e cómoda, mas também passiva, individualizada, repetitiva, que a súbita expansão da classe média no Ocidente disseminava por um número cada vez maior de pessoas, um conjunto heterogéneo de músicos, influenciado pela quebra de tabus e abertura da mente desencadeadas primeiro pela Beat Generation e depois pelo movimento hippie, contrapunha uma atitude marcada pela experimentação e pela busca do insólito. A aversão pelo risco e pelas sensações desconhecidas manifestada pela classe média era particularmente questionada por estes músicos, cuja obra exprimia o seu desejo de se libertarem dos curtos e previsíveis horizontes daquela classe, agarrada até ao fim da vida a um salário e a um crédito bancário para financiar a sua participação na pseudofesta capitalista do consumo e da propriedade privada.

A imagem que melhor poderia servir-lhes de inspiração era uma imagem idealizada, não corrompida pelo capital, em construção, inédita, infinita: a imagem do espaço. Nela cabiam todos os seus sonhos, todas as suas utopias, todos os seus delírios. A contra-cultura musical criava assim o seu refúgio perfeito. Um retiro de uma sociedade aos seus olhos corrompida por guerras, consumismo, desigualdades, racismo, homofobia, dominação masculina, e onde, como se não bastasse, reinavam a obediência e a passividade a que teriam de sujeitar-se todos aqueles que nessa sociedade desejassem encontrar um lugar.

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O lsd era um imprescindível aliado na fuga psicadélica do presente monótono e corrompido rumo a um futuro idílico, a uma contra-sociedade (que, para uns, seria essencialmente pacífica e feliz; para outros, também ecologista e feminista; para outros ainda, comunitária e anti-autoritária) mais benévola para as pessoas do que para as mercadorias e seus donos, algo que o crescente interesse pela espiritualidade e pelas religiões orientais também manifestava. De facto, e pelo menos para um sector desta contra-cultura, o misticismo – enquanto resposta que muitos encontraram para contrapor ao consumismo – formava parte deste interesse pelo espaço, misticismo esse de que se iria posteriormente alimentar o esoterismo New Age.

Politicamente falando, a obsessão pelo espaço revelava também uma (questionável) atitude de deserção dos territórios onde se dava a disputa pelo poder político e de aversão pelas instituições que o controlavam, as quais se deixavam assim, tranquilamente e sem tumultos, nas mãos dos políticos democráticos – desprezados e ignorados. Poluído, masculinizado, militarizado, racista e desigual, o mundo mercantilizado que, com o voto da classe média, estes políticos construíam no Ocidente e exportavam para o resto do mundo era demasiado desinteressante, demasiado pouco estimulante e também excessivamente dependente da obediência. Neste sentido, ele não diferia grandemente dos capitalismos de estado do bloco soviético, os quais tão pouco seduziam esta contra-cultura.

Em termos musicais, pode dizer-se que foram questionadas as estruturas convencionais, através de longas improvisações, explorações e aventuras por territórios desconhecidos. Estes músicos não perseguiam nenhum formato musical preestabelecido. Interessava-lhes mais o anti-formato da deriva psicadélica. Experimentar parecia-lhes infinitamente mais interessante do que repetir. O jazz fundia-se com o rock. Os instrumentos convencionais com os não convencionais. O feedback e a distorção da guitarra eléctrica com a melodia pop. O drone e o noise com a canção. A inspiração indiana com as possibilidades do sintetizador. Não havia limites nem barreiras para a experimentação. A omnipresença da imagem inspiradora e tutelar do espaço era disso a melhor prova.


We were born to go
We’re never turning back
We were born to go
And leave a burning track
We were born to go
And leave no star unturned
We were born to grow
We were born to learn

We’re breaking out of the shell
We’re breaking free
We’re hatching our dreams into reality

We were born to blaze
A new clear way through space
A way out of the maze
That held the human race
We were born to go
As far as we can fly
We were born to go
To blow the human mind

We’re breaking out of the shell
We’re breaking free
We’re hatching our dreams into reality

Hawkwind, “Born to go”, 1973

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

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