O país que a direita abomina

Protesto das Femen contra a Frente Nacional, em França, a direita estrangeira onde a direita nacional tem os olhos.

O país que a direita abomina é, celebrem ou desesperem, o país real. Aquele que desce à rua para celebrar o 25 de Abril e que, imune a toda a propaganda, não faz a mais pequena ideia do que é o 25 de Novembro. Aquela que interpreta uma ignorância progressiva, uma ignorância que gosta da igreja porque ela ajuda os pobres, não porque ela sempre deu cobertura aos ricos. Uma ignorância que admira os pobres que roubam aos ricos e promete a guilhotina aos ricos que roubam aos pobres, mesmo que nunca faça grande coisa. Falo da direita que abomina o pecado quando o pecado floresce em cada esquina. A direita que no país onde a igreja se masturba com o casal reverencial, minhoto ou beirão, mas tem que se conformar com a ideia que no Minho ou nas Beiras só se fale de pecado. A direita que abjura o adultério no país onde o adultério desenvolveu uma das suas melhores escolas. A direita que é incapaz de perceber que em cada taxista de Lisboa jaz um jihadista em potência. Esta direita que, bombista, está capaz de jurar a morte aos abortistas no país onde se aborta, felizmente, em todas as esquinas onde não sobra amor ou condição para criar filhos. Esta direita estranha, pronta de cruzar o mundo como colónia imperial e chamar ao fenómeno: “descobrimentos”. A direita que ontem, antes de um 1º de Dezembro mais remoto, preferia um rei de cócoras a um rei que fosse o seu filho da puta. A direita que Almada e Pessoa, mesmo sendo de direita, convulsionaram e proscreveram. A direita Arroja, a direita Teotónio, a direita Neves, a direita mais beata que os beatos e as beatas juntos. A direita da abrenuncia, do vade retro, do satanás. A direita fogueira. A direita fanática. A direita que ajoelha para pedir perdão ao pedófilo que lhe violou a filha e oculta a verdade aos olhos da justiça. A direita que queria o país que não tem, e por isso o inventa. O confabula. Esta direita é um país minoritário mas que ainda assim teve Cavaco como figura máxima do poder, só batido por Salazar, veja-se em espanto. Uma direita provinciana com os vícios todos da cidade. Um gente esquisita, espantalha, vaidosa, mas em todo o caso pouco capaz de perceber os recados dos espelhos. Uma direita que prefere Cascais às ilhas remotas do faroeste açoriano. Vós, gente que não gostam de greves, de protestos, de revoltas, vós em quem a obediência assenta como uma luva branca de um japonês submisso, vós em quem a educação escandinava é vista com a bonomia da crítica burguesa, dedicai alguns segundos ao que vos diz a realidade. Perderam. Capacitem-se. Perderam. O país com que deliram não está capaz de muito mas está capaz de deixar de vos prestar vassalagem. Podem chorar. Chegou a vossa hora de chorar. A cada conquista mínima babem de ranho. A cada sound bite que não se abaixe à máfia. Por pouco que o “governo de esquerda” faça será suficiente para vos deixar os cabelos arrancados. Pois que fiquem carecas! Pois que caminhem para a ponte! O vosso país nunca será mais país do que aquele que habitam durante o sono. Isto está longe, muito longe, do que devia ser um país, ao invés de ser um purgatório envergonhado, mas nunca será, estou certo, o mosteiro infernal com que gastam os vossos sonhos molhados. O tempo de hoje não é o tempo que precisamos, mas finalmente deixou de ser o vosso tempo, o tempo que há muito deixou de ser o tempo que precisamos agora.

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