“Inverno”, por Kareef

1

Os relógios avançaram ao ritmo dos nossos desejos, velozes a triturar segundos, um após outro, sem parar. Vinte e um dias de Outono passaram velozes. A minha cabeça estremece. Na estação, desta vez era eu à tua espera, com um doce e um malte, como prometido. Estremeceu o meu corpo nos vários autocarros que antecederam o teu. Caminhei de um lado para o outro, um copo e um embrulho nas minhas mãos nervosas. Olhares fugidos de desconhecidos trespassaram-me sem entenderem. Ainda não eras tu. Talvez devesse ir embora. A culpa trespassava-me com igual violência com que os segundos se acumulavam, teimosamente travando o tempo e o espaço que nos separavam. Vinte e um dias se passaram velozes e aqueles segundos finais escorregavam quasi inertes ao vórtice parado das horas lentas. Era sinal que o relógio pararia assim que tu chegasses. Caminhou pela estação por entre o corropio de malas e embrulhos, o chão cinzento e gasto, o cheiro a gasolina e a gente formava um espesso nevoeiro invisível. Abraçaste-me. O teu corpo, que afinal existe, abraçou-me e eu dissipei a culpa nesse nevoeiro de coisas sujas. A viagem contra o espaço e o tempo iniciou-se ali. Havíamos de subir o monte na escuridão serena dos castanheiros, um veado encadeado com a nossa embriaguez havia de fugir rapidamente para a floresta, testemunha incómoda do segredo que havíamos de partilhar. Cruzámos as entranhas do monte negro que se abria para nós, só para nós, enorme e negro de silêncio.

A eira onde nos encontrámos em sonhos estava ali, feita de pedra e horizonte, o tecto feito de céu onde timidamente se abria uma nesga de estrelas.  O frio gelava os corpos e as palavras, ele abraçou-a e dançaram em silêncio uma dança prometida em sonhos repetidos. Nervosos eram os olhares e os beijos. Pisavam terreno etéreo de sonho e sono, uma camada irreal de liberdade feita pedra. Havia gatos que pediam mimo, um gato e uma gata, mais dois gatos jovens. Dançaram em volta deles, fugiram. O fogo queimaria tudo. As palavras, os sorrisos, as carícias, os olhares de cego e os cantos mudos. O fogo abriu o corpo dela para ele, o corpo dele abriu o corpo dela para ele. A água que ele bebeu era dela. A água que ela bebeu era dele. Os dois corpos marcados pelo fogo que lhe esverdeava os olhos.  Ela disse sem se ouvir  – quero ser livre contigo, não quero prender-te, não quero que me prendas, quero-te sem amarras. É difícil. Foi difícil largar-lhe a mão, não lhe tomar o corpo e o tempo todo, não lhe assaltar a alma. Ela é difícil. Abre-se devagarinho e tem medo que ele não espere para lhe ver a alma aberta. O medo. O medo que congela como esse frio que assalta o monte, e invade os corpos por qualquer frincha que se lhe abra. O vinho jorrou silencioso entre o fogo e o gelo, diluindo o medo em éter.  O tempo dissipou-se no gelo, mas não foi possível parar o relógio, como não foi possível parar o medo. O sorriso dele e as três linhas da testa que ela queria beijar. As mãos que se entrelaçavam, perfeitas como a liberdade.  As mãos dela procuravam-lhe as linhas das costas e do cabelo, as constelações de sinais e de cabelos que os dedos procuravam entrelaçar. O fogo iluminou os corpos e as palavras, queimando tudo.  Fora do mundo dorme-se sem relógio e acorda-se ao som dos corpos um do outro, enquanto um gato dorme no quarto ao lado, indiferente aos corpos que viram o tempo do avesso. O mundo havia de acordar com sol, contrariando a tempestade ameaçada, tal como o relógio contrariava o tempo, distribuindo os segundos vagarosamente, num claro desafio aos deuses.  O acre do medronho levou-lhes os pés ao monte, ele disse que ela era mais ágil no monte do que ele pensava ela achava que ele seria mais ágil do que ela. Abraçaram-se no meio dele, os corpos procurando o calor um do outro, ela saltava rapidamente as pedras do caminho, ele quis segui-la, ela sorria com as histórias dele, que se entrelaçavam à beira das uvas caídas no caminho.

Os corpos encontraram-se novamente junto do fogo e depois longe dele, ela virou-lhe o sonho do avesso e bebeu a água que ele tinha prometido beber-lhe, o corpo aos tropeções abraçou-a longamente, tanto, que certamente o relógio ali, parou.  Ela queria dar-lhe a explosão prometida e conduziu-o até ela, o corpo dele insistindo no estremecimento absoluto dela, ela sorriu, queria tanto o estremecimento como dele queria fugir, o espasmo era a mais ambivalente das sensações, gelo e fogo, chuva e sol, música e silêncio.

O jantar. Pessoas. Pessoas inesperadas e sorrisos cúmplices. O cheiro a comida e a fogo invadia os rostos, ele ria mais, seria do inebriamento do alimento ou do calor. Um gato à porta pede mimo.

Voltaram ao beiral dos sonhos, ele tentou que um grito atravessasse a serra e ela riu-se. Ele abraçava-a e murmurava baixinho a música que havia ficado a ressoar desde a noite passada. Os pés moveram-se de ressaca de uma mazurka anunciada. As estrelas cobriam-lhes as cabeças, a ursa menor ali tão perto, as estrelas no chão distante também formavam constelações, uma nave espacial podia aterrar naquele círculo, os socalcos do monte alumiados pela lua, ali onde ele estava há tantos anos atrás. Ao fundo o castelo brilha com as cores do Outono. Ele dizia que a princesa que ali vivia procurava um refúgio escondida no fundo do vale, banhando-se nua no ribeiro de água gelada, o corpo estremecente entre o gelo e o fogo. Ela dizia que assim escondida ninguém lhe saberia os segredos. E viviam como viveram eles depois dos anos.

Foi o fogo que invadiu essa noite, um fogo que lhes queimava as palavras e os deixava os corpos quietos e morenos, mesmerizados pela combustão lenta que esverdeava tudo. A parede da lareira repetia as constelações, ou luzes nocturnas de cidades longínquas sem espaço nem tempo, no negro crepitar da luz que antes lhes esverdeara os olhos. Rimos, usámos as palavras possíveis, pasmámos juntos pela impotência absoluta de consertar o mundo do qual fugíamos. Seríamos livres, sem amarras, voltando um ao outro até assim o querermos. Seríamos a excepção na impossibilidade absoluta dos corações não acabarem partidos. Seremos. As nossas mãos entrelaçariam assim, perfeitas, até os relógios pararem. O silêncio entrecortado pelo fogo e pelas palavras de riso e revolta. Transmutamos os corpos e os corações em brasas incandescentes que pulsam trémulas e a alquimia do fogo silencia-nos os pensamentos. Esperaram até a fogueira morrer, teimoso que estava o fogo de se manter aceso, nem a violência o demoveu da sua tarefa serena de terminar a sua própria combustão. Ela procurou-lhe o corpo na escuridão, ele procurava o sono e ela deixou que dormisse, segura que estava de não lhe amarrar a liberdade, insegura de não saber se já não a queria, segura de que se assim fosse, assim seria.

O dia começou de novo, o relógio não parou como prometido. Ele cozinha para ela como quem faz amor. O nevoeiro avança mansamente, invadindo tudo, como se lhes dissesse que era hora de partir dali, que ele tudo invadiria, fazendo desaparecer as memórias e os corpos. Apagando tudo do tempo e do espaço, um sonho etéreo, que a fazia caminhar sobre a urze, atravessando o espaço que ligava do monte sem espaço nem tempo até à civilização, as folhas castanhas da floresta amarela e laranja, celebrando o Outono até ao limite. Ela dançaria ali, elevando as folhas num torvelinho, gritaria alto o nome dele, o nome dele que tinha as mesmas sílabas do Outono, que tinha mar e serra e sol e chuva e música e silêncio e gelo e fogo lá dentro, gritaria o nome dele com palavras e sorrisos e olhares e carícias, assim entregando o seu corpo com medo e com calma, tacteando o corpo dele como um cego no escuro, cantando mudamente, com medo e com liberdade.

A civilização caiu como um céu carregado de chuva. Ele transforma um guardanapo num homem com uma voz absurda, faz com que ela ria, ri também. Custa-lhe largar-lhe a mão. A ressaca será difícil que a outra.

O Outono termina, que o Inverno comece.

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