We Will Always Have Paris, Beirute, Kobane, Bagdad, Kabul, Tunes, Gaza…

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Desenho de Carlos Latuff

A amnistia Ocidental em curso, que entre outros problemas gera a “comoção selectiva” de que nos fala o Asere Kiasu, leva-nos quer ao perigo de confundir ataques terroristas com actos de resistência como fez o PDuarte, quer à conclusão de que é fundamental saber quem é e quem criou o monstro com o qual nos debatemos agora como aponta a Maria Carolina. Se à direita poucos são aqueles que acrescentam ao debate mais do que gritos de guerra, não deixa de ser inquietante que à esquerda se defenda o indefensável para justificar a falta de equidistância entre as vítimas do terrorismo islâmico, que foi financiado e fomentado pelos EUA, as grandes potências europeias, com a França à cabeça, e por Israel. Assim, falar de Paris, ou de qualquer outra cidade onde o ISIS tem espalhado o seu terror, sem falar na Síria e no contexto histórico que promoveu a brutalidade desta organização, é uma capitulação sem nome, mesmo que feita em nome da humanidade.

“Paris não é mais que Beirute ou Kobani. Mas, para mim, para muitos de nós, representa muito mais, como coração de um modo de vida, de um lastro histórico e pessoal, de uma cultura cosmopolita, de uma noção de liberdade e de democracia que são os meus, que são os nossos. É inevitável que nos perturbe mais. Seríamos uns perfeitos idiotas, sem memória e uma matriz própria, se não reconhecêssemos essa diferença. Mantendo-nos, ao mesmo tempo, solidários com o sofrimento e a vida dos outros.” Rui Bebiano 

“É assim mesmo. As pessoas normais não têm, elas mesmas, culpas históricas que “justifiquem” os ataques. “Vão-se foder todos”.” Miguel Vale de Almeida

De nada adianta à esquerda fazer juras de amor à civilização das luzes, se não perceberem que o preço das luzes foi a imposição da escuridão um pouco por todo o mundo que agora tende a olhar como inimigo, ou, na melhor das hipóteses, como gente sobre a qual nos devemos manter solidários, ainda que chamemos, cinicamente, “dos outros”. Não vejo, sinceramente, nenhuma diferença substancial entre os desabafos de Rui Bebiano, de Miguel Vale de Almeida ou da Fernanda Câncio, e o grito de guerra de Carlos Fino, o  “Nós, os Europeus!” de Saragoça da Matta  ou o igualmente bélico “O ocidente somos nós” de Pedro Santos Guerreiro. Quem insista em responder ao problema do terrorismo com base no eixo identitário do “nós” e os “outros”, esquece que boa parte dos “outros” são igualmente vítimas, e boa parte do “nós” são os principais terroristas.

Deixo em anexo algumas notas que fui escrevendo sobre o assunto, que penso serem úteis para não nos deixarmos manietar pela máquina de propaganda do medo.

As vítimas de Paris, como as de Beirute, Ancara, Bagdad, Kabul ou Tunes, as vítimas de qualquer bairro palestiniano, curdo ou sírio, as vítimas que fogem da carnificina do médio oriente para o cemitério do mediterrâneo ou dos novos muros, são vítimas do mesmo agressor. Se a solidariedade esquece isso está, conscientemente ou não, a juntar o seu dedo ao gatilho da guerra das civilizações, aceitando ser tropa de choque da xenofobia. Se a Europa se transformar no inferno que semeou fora de portas, como parece estar a acontecer mais rápido do que se podia pensar, o diabo terá passaporte comunitário, conta na Suíça, contará com as armas que a Arábia Saudita comprou à França, à Alemanha ou aos EUA e com os atoleiros que semearam da Líbia ao Afeganistão. Não vai ser fácil explicar isto face ao cilindro dos vendilhões do medo, mas é tudo o que é preciso ser feito para que não sejam eles a falar mais alto.

Vós, queridos amigos que acham que a bandeira francesa é um bom lenço para fazerem o luto e limparem as lágrimas, tenham juízo. Usem isso para o ranho e não despedirem a vossa compaixão nas cores dos criminosos. Ou nós somos todos ou não somos nada.

“Nós, os europeus”, “não há contexto histórico que justifique”, “os bárbaros iletrados atacaram a civilização europeia”, “os outros merecem compaixão mas os nossos são os nossos”, “somos todos iguais mas uns são mais iguais que outros”. Cito de cabeça alguns desabafos de gente letrada, que se tem por civilizada e em todos os casos, de esquerda. À direita pouco mais do que gritos de guerra. Vai ser difícil vergar tanta luminária.

Se cada bomba que o ocidente lança fosse chorada pelos ocidentais como choram quando as vítimas são “suas”, haveria seguramente menos a temer vindo dos “outros”.

Já há quem, solidário de bandeira, festeje a chuva de bombas que a França reforçou na Síria desde os atentados. Depois ficam espantados que a dança da chuva semeie tempestades.

Aqueles que decidiram e aplaudiram as guerras de ocupação do Afeganistão, do Iraque, na Líbia, os golpes militares no Egipto, a tempestade de bombas na Síria, no Curdistão e os sistemáticos castigos da Palestina, não têm direito ao luto. Não sem dar o dito por não dito. Não sem pelo menos assumir que se enganaram. Qualquer lágrima deste campo sem a devida contrição são lágrimas de crocodilo que acabarão a defender soluções que vão agravar todos os problemas em questão.

“Não queres atentados terroristas à porta de casa, não os vás fazer à porta do vizinho.” Provérbio chinês.

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9 thoughts on “We Will Always Have Paris, Beirute, Kobane, Bagdad, Kabul, Tunes, Gaza…

  1. Todos os ataques (que esta sociedade percepciona como) terroristas são, da óptica de quem os comete, “actos de resistência”, com os quais podes ou não concordar. Agora chamar “terrorismo” aos actos que da tua óptica matam com uma motivação injustificada e “actos de resistência” aos que matam com uma motivação justificada é que não me parece lá muito sensato… O que é certo é que tanto o sangue do que tu chamas “terrorismo” como o sangue do que chamas “actos de resistência” têm feito tremendos favores à direita no mundo inteiro. Os países onde esta é mais fascista (Espanha, EUA, Israel, Colômbia ou Rússia) são países onde o terrorismo/actos de resistência são percepcionados pelo grosso da sociedade como um problema premente, o que abre o flanco à direita para impor democraticamente a sua versão mais repressiva, autoritária, reaccionária, securitária.

    1. Retiro a pergunta que fiz no post do PDuarte. Está explicado.

      Alguém tenha a bondade de resumir os últimos séculos de história ao PDuarte, que aparenta não entender que a violência é uma necessidade revolucionária.

      Se a violência só tivesse dado frutos à direita, a humanidade teria estagnado.

      Quando muito podemos discutir se uma palavra como ‘terrorismo’ poderia servir de conceito à táctica de atingir alvos que não são políticos nem militares, como foi o caso em Paris e Beirute. Podemos fazê-lo, sim. Mas reparem: isso é toda a guerra moderna. Ou seja, não adiantámos nada.

      Deste ponto de vista, qual é a diferença entre bombardear Raqqa ou atacar Paris com bombistas suicidas? Nenhuma. Como é que se fez a separação entre objectivos militares e não-objectivos militares? É óbvio que não se fez.

      Isto para dizer que eu defendo que as organizações revolucionárias devem definir com clareza e com critério quais são os objectivos militares. E o pacifismo ahistórico e ignóbil do PDuarte deve ser metido no caixote do lixo do idealismo,

      Cada um sabe com que linhas se cose..

    2. A óptica de quem os comete vale o que vale. De resto, mal comparado, boa parte dos capitalistas também está convicto de que pratica o bem quando alimenta a especulação e a destruição do planeta. Mas ela é isso, não é outra coisa.

      Saindo do caso concreto, como fazes, não concordo que o fim do monopólio do terror seja equiparável a um serviço à direita. O fim desse monopólio, em muitas circunstâncias históricas, foi de resto o caminho para se acabar com a violência original.

      No caso, a questão central parece-me ser outra. O ISIS, ao ter sido criado pelas potências ocidentais e por Israel (que é um enclave militar e não um país, como lhe chamas) está agora a colher os ventos que semeou. Naturalmente que versam sobretudo o mexilhão, a população civil e inocente, mas é preciso ter claro que quem premiu o gatilho foi criado por aqueles que querem agora uma carpideira humanitária contra o terror que amnistie os responsáveis.

      1. De acordo que a questão central e neste momento mais interessante é efectivamente a que tu e a Maria Carolina levantam (o vídeo que ela linka é instrutivo), sobre o monstro que o Ocidente criou e que agora todos damos com ele a partir os castiçais de prata bem no centro da nossa sala de jantar…

  2. Caro Zé do Telhado,
    Sinceramente não me interessa muito a discussão sobre o que é (i)legítimo chamar de terrorismo. Por não me interessar, no meu texto usei o termo tal como a sociedade o usa. O Renato corrigiu-me: parte do que chamei terrorismo são actos de resistência. Tudo bem, fiquemos por aí porque a mim interessa-me muito mais “o pacifismo ahistórico e ignóbil do PDuarte”:
    https://obeissancemorte.wordpress.com/2014/09/29/small-world-vi-so-quando-aceitarmos-que-nao-ha-futuro-dentro-do-sistema-e-que-podera-surgir-uma-abertura-para-diferentes-coisas-por-vir/
    https://obeissancemorte.wordpress.com/2014/04/29/musicas-inobedientes-vii-banda-sonora-dos-motins-de-los-angeles-1992-this-wasnt-a-race-riot-it-was-a-class-riot/

    Saudações pacíficas.

      1. Esse debate (sobre a definição justa e legítima de ‘terrorismo’) interessa-me zero, ou até um pouco menos do que isso. E muito menos com um revolucionário coerente, consequente, puro, autêntico e homologado como o Zé do Telhado, para quem o maior inimigo no Universo serão seguramente os ‘reformistas’: “é matá-los!” Debato com todo o tipo de gente menos com fanáticos. Experimente debitar as suas infalíveis lições no blog de uma seita revolucionária. Para começar aconselho-lhe esta http://odiodeclase.blogspot.pt/ . Depois, se for bem sucedido, há outras melhores.

  3. É caricato que o PDuarte abra um post sobre um assunto que não lhe interessa.

    É mais caricato ainda que sem querer debater o que escreveu, o faça num blogue onde estão linkados os sites das FARC-EP e das FPLP. Seguramente o “terrorismo” na Colômbia e em Israel a que se referia.

    Para terminar convida-me a escrever no blogue dos camaradas do colectivo Odio de Clase, onde já escrevo e com o maior gosto. Não precisam sequer que os defenda…

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