Elementos para uma caracterização da classe média (III)

3) No pseudomundo fabricado pelo turismo / Entre o real e a mediação, escolho sempre a mediação

A classe média relaciona-se com o real através de múltiplas mediações que aprofundam a sua atomização: o automóvel coloca-a em relação com o seu território, o Facebook com os seus amigos, a farmácia com o seu corpo, o hipermercado com a sua alimentação, a publicidade com os seus desejos, os noticiários com o seu mundo. E, quando viaja, esta classe não dispensa o turismo, que se está a tornar hegemónico na mediação das suas cada dia mais pobres e repetitivas aventuras vacacionais. Enquanto sector estratégico da vastíssima indústria de entretenimento global, o turismo promove a instrumentalização do território com vista à criação de materialidades consumíveis. Formata com esse fim paisagens, arquitecturas, lugares e monumentos. E fabrica assim as imagens apelativas e facilmente vendáveis que medeiam entre o turista e o (pseudo)mundo por onde este viaja.

Habitando o epicentro deste mundo novo que resulta da apropriação do território pelo capitalismo, o turista deve então ser definido não como todo aquele que viaja, mas apenas como aquele que entende a viagem como o produto das mediações (serviços e mercadorias) que lhe são disponibilizadas. Essas mediações, que lhe revelam os destinos por si escolhidos, esvaziam porém tanto o viajar como a curiosidade de quem viaja, ao impor-lhes experiências planas, banais, sem profundidade nem matizes.

Para o turista, o território é então a soma dos produtos de consumo – atractivos, equivalentes, estandardizados – que os operadores turísticos fabricam. Desta forma, o que seria único e interpretável apenas mediante o uso de códigos locais torna-se descodificável através de um mesmo código universal. O que era singular torna-se uniformizado, o que era incomparável torna-se equivalente. Este mundo novo formatado pelo capital deixa subitamente de ser local para tornar-se universal: um gigantesco shopping que se estende do topo sobrenatural do Evereste à baixa de Lisboa e onde qualquer turista, não importa o background ou a nacionalidade, será capaz de interpretar (consumir) não importa o quê, já que tudo se formata à sua medida: o centro de Cracóvia ou de Barcelona,  o Mosteiro dos Jerónimos ou a Capela Sistina, uma praia, uma montanha, um parque natural.

Por outro lado, o turista jamais se confronta com os habitantes que diariamente habitam o território por onde viaja e que lhe poderiam contar as suas histórias pessoais, vinculadas portanto a biografias verdadeiras. Ele nunca chega a entrar senão num pseudomundo exclusivamente fabricado para ser consumido, no interior do qual ninguém possui histórias reais para partilhar, porque o interior desse mundo falsificado não é habitado por um único ser que nele construa a sua vida: empregados, recepcionistas, motoristas, vendedores, cozinheiros, falsos artífices, seguranças privados, polícias, guias apenas desempenham, durante umas horas, a sua função profissional para viabilizar o consumo turístico do território; e depois, quando regressam aos seus lares, desaparecem da vista do turista. É neste mundo desolador, construído e habitado por vendedores profissionais de qualquer coisa, que o turista faz desenrolar a sua viagem (não espanta que 99% dos turistas jamais desejem regressar aonde já estiveram).

Mas este mundo desolador, que parece constituir-se apenas durante o período de férias, trata-se afinal do mesmo mundo mediado pela mercadoria e o espectáculo em que vive diariamente a classe média – o único mundo que ela sabe reconhecer como seu. Poderíamos concluir que o turismo não é assim mais do que o levar a todo o lado o mundo monótono e entediado da classe média.

(continua)

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

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