Cavaco e as Cagarras

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A visita à Madeira (que não se sabe se inclui périplo pelas Selvagens) é paradigmática e será lembrada na historiografia de Cavaco Silva. Este que é um dos personagens que mais marcou o Portugal Contemporâneo (pobres antropólogos aqueles que nos tiverem que estudar), repito, contemporâneo, e de todos aquele que mais anos de poder acumulou em democracia e, se contabilizarmos todo o século XX, foi apenas superado por Salazar. Terá, como se imagina, um cadastro difícil de bater. Nasceu. Cresceu patego. Poucos têm memória. Cresceu como cresciam na altura os discípulos da obediência, fieis serventuários do regime. Defendeu o Portugal Colonial, mas não se recorda. Preencheu ficha na Pide, mas não se lembra bem. Assistiu ao 25 de Abril e rapidamente se transformou em social-democrata mas também não deve ter memória disso. Calcorreou as passadas de Sá Carneiro sem no entanto ser fiel de nenhuma. Foi o obreiro tecnocrata da transformação da social-democracia em liberal conservadorismo, sempre autoritário, sempre de bastão em punho, sempre esquecendo no dia seguinte o que tinha feito na véspera. Chegou ao poder. Deu dinheiro a ganhar com o poder. Ganhou dinheiro com o poder. Serviu-se do poder e o poder serviu-se dele. Rastejou aos pés da Europa. Lambeu todos os sapatos que lhe apresentaram à frente e nunca pestanejou perante a violência que impôs a todos os que feriu com o seu fundamentalismo. Lá fora aplaudiu todas as guerras. Cá dentro foi ele próprio um cruzado. Orgulha-se das maiores imbecilidades. De não ler jornais. De ter poucas dúvidas. De nunca se enganar. Nunca aprendeu a comer bolo, menos ainda a falar sem acumular aquela bola de saliva branca no canto da boca. Casou mal, mas dificilmente poderia ter casado bem. Perfilhou sem arte, coisa que também se afigurava difícil ser de outra maneira. Governou como um déspota do primeiro ao último suspiro. Assim será sempre lembrado. Em tempos viajou às selvagens e deu ao fotojornalismo e à humanidade o retrato e os sons que ilustram e musicam estas palavras. Hoje lá regressa, com o poder refém e o país à espera. Ou o poder à espera e o país refém, como preferirem. Voltará a abraçar a cagarra que tanto o inspirou para que esta o ajude a esconder a aberração de tudo já estar decidido, conforme se conclui pelo desabafo do vassalo coelhinho à corte da União. É uma cereja que honrará Cavaco na hora da morte, a última das cerejas, servida aos seus, àqueles que só e sempre jurou lealdade, e a quem agora oferece este prelúdio táctico para dar tempo que o governo cessante destrua os papéis que precisam destruir sem descuido e fechar negócios à pressa e às escondidas como aconteceu, em grande escala, com a TAP. Cavaco cumpriu. Defendeu, a todo o custo e enfrentando todas as consequências, da Coelha ao BNP até ao último vexame, a classe social que representa.

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