Da proximidade e da comoção selectiva

Eu acho que existe um enorme problema com o texto de Rui Zink intitulado “Da distância, da proximidade e da indiferença”. Não que eu condene quem se emocione com os acontecimentos verificados em Paris. Não que eu duvide da obra de António Damásio sobre a influência do sistema límbico nas nossas tomadas de decisão; i.e. do poder das nossas emoções na sua relação com a razão. Não. O meu argumento vai mais no sentido de uma síntese que nos possibilite racionalizar os fenómenos e avançar da análise das aparências para a essência da questão sem que os sentimentos nos toldem a compreensão do mundo em que vivemos. De não anularmos a função do neocortex no processo. Só assim partiremos para um diálogo frutífero sobre a comoção selectiva. Não vejo isso patente no texto mencionado.

A certa altura, o autor responde à questão «Então há mortos de primeira e de segunda?» da seguinte maneira: «Quando há um choque porque morre gente próxima (e Paris é uma cidade portuguesa, ao contrário de Beirute, que poucos visitámos), este tipo de relativização custa a entender». Esta afirmação parece fazer sentido numa primeira leitura. Mas é facilmente desconstruída. Faria sentido se fizéssemos tábua rasa da história mundial e não ligássemos nenhuma a séculos de eurocentrismo e a uma manipulação mediática enquadrada num aparelho ideológico controlado por proprietários de capital com uma agenda política própria. O centro contra a periferia ou esta subordinada ao primeiro. Com efeito, a proximidade foi construída. Desde a história gâmica dos Descobrimentos à identidade europeia carolíngia. Não me refiro à familiar, porque não é isso que está em causa; mas assim como nos querem fazer crer que existe a Nação e o Outro, o bloco da Nato contra o resto do mundo ou a saudável competitividade mundial entre trabalhadores europeus e restantes, também nos querem convencer que o Hollande tem mais a ver comigo do que um palestiniano alvo do terrorismo sionista de Israel. Aliás, quem não se lembra do presidente francês abraçado ao primeiro-ministro Netanyahu na campanha “Je Suis Charlie”. Até Marine Le Pen foi Charlie. Eles facilmente pegariam no argumento do texto de Rui Zink para se desculparem pelo facto de não nutrirem a mesma indignação no que toca aos actos perpetrados pelo Boko Haram na Nigéria ou do próprio Estado Islâmico no Líbano. O facebook criou logo a aplicação com a bandeira francesa, e as restantes? Esta é a proximidade de que falamos.

Na verdade, o agenda-setting limita-se a traduzir o estádio de desenvolvimento capitalista actual. A massificação do meios de comunicação social acompanhou a expansão do capital monopolista. Mas se o fenómeno da globalização económica e financeira se estende por todo o mundo, por outro lado esconde uma enorme concentração de riqueza em poucos conglomerados económico-financeiros que dominam os mercados nas mais diversas áreas mas também nos mass media, na publicidade ou na indústria de entertenimento. As contradições gritantes entre as potências centrais e os países dominados reflectem-se na diferença de tratamento noticioso que vítimas de países neocolonializados são alvo em relação às mais fúteis “gordas” da manchete sobre a lua-de-mel de uma actriz hollywoodesca. Poucos sabem sobre o genocídio dos rohingya em Myanmar, mas é impensável que o ataque a dois soldados britânicos num qualquer palco de guerra não seja noticiado. É por isso que a imprensa pode ser um contra-poder ou um 4.º poder, dependendo de quem serve: visa informar a população, em especial os sectores mais vulneráveis da classe trabalhadora, da manipulação a que estão sujeitos ou cria uma narrativa que visa legitimar a invasão, o saque de recursos naturais e os lucros das classes dominantes de países pertencentes à NATO. Infelizmente vivemos uma época em que cerca de 90% do fluxo noticioso é gerado por 4 grandes agências noticiosas: Reuters, Agence France Press, a Associated Press e a United Press Internacional. Por aqui se explica que exista um incentivo à omissão e deturpação do que se passa no conflito sírio. Todos lamentamos as vítimas francesas. O que revolta é ninguém procurar a origem de todo o problema. O financiamento francês e americano a rebeldes que acabou nas mãos dos jihadistas da Frente Al-Nusra ou do Estado Islâmico, ou o negócio do armamento que lucra biliões para empresas francesas, estadunidenses mas também russas. Também não comentam o relacionamento amistoso de potências ocidentais com a Arábia Saudita que presta apoio ao Estado Islâmico sob a capa de fundações privadas. Por outro lado escondem as vítimas inocentes sírias atingidas por caças franceses e drones que deveriam acertar em alvos militares ou os ataques dos aliados turcos a posições das forças curdas do YPG que valentemente lutam contra o terrorismo. E a invasão do Iraque? Isso foi há muito tempo. Para não falar do relato acrítico ou mesmo parcial quando se procura desculpar os ataques israelitas a civis palestinianos em Gaza e na Cisjordânia. O Boko Haram raptou e matou milhares de crianças? Isso é longe. É lá na periferia. Paris é aqui tão perto. Daqui parto para outro excerto: «porque a todos os minutos acontecem horrores na aldeia global e seria humanamente impossível emocionarmo-nos igualmente com todos. Assim, como não podemos estar a todos os segundos a sentir todas as dores do mundo, o melhor é não sentirmos nenhuma, né?». Pois é, mas essa proximidade está longe de ser genuína, porque não podemos sentir aquilo que não está acessível aos nossos olhos e aos nossos ouvidos. Muito menos quando procuram utilizar a comoção para fazer oportunismo político e silenciar as raízes do problema. Agora até fecham as portas e as fronteiras a outras vítimas, que não francesas, dos mesmos carrascos.

Convenhamos que a conclusão de Rui Zink não me agrada. Não me parece que «é em momentos destes que sinto que os extremos podem de facto tocar-se. Os apologistas do nós-só-nós (ou eu-só-eu) e os samaritanos do amor-a-todos-igual-por-igual tocam-se, receio». Eu preferia que redireccionássemos o discurso para aquilo que realmente se passa. Um número obsceno de pessoas morre diariamente devido a aventureirismos belicistas que geram monstros no meio do processo de acumulação de capital em países longínquos. Lucros, lucros e lucros. Mas quem sofre não são “os franceses”, qual entidade abstracta. Quem mais sofre são as diferentes camadas de trabalhadores e a comummente chamada “classe média”, que pagam pelas aventuras de representantes políticos a mando do poder económico e financeiro, seja em que país for. Quem opera a relativização e até omissão do que se passa em outros países é a imprensa e todo o aparato ideológico burguês com propósitos bem concretos, não quem tenta alertar que uma vida francesa é igual a uma vida nigeriana, palestiniana ou síria.

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