Elementos para uma caracterização da classe média (II)

2) No nichozinho protegido do lar / Antes um gadget de masturbação no quartinho do que aventuras de carne e osso na rua, no café ou no metro

Ao contrário das classes que estão abaixo dela e também das que lhe estão acima, a classe média é conhecida pela sua discrição. No interior de um restaurante ou de um avião, ou no átrio de um hotel, a maioria daqueles que a compõe está devidamente instruída sobre como adoptar um tom que jamais possa perturbar desconhecidos. Se para os seus cânones morais ‘falar alto’ num lugar público é já considerado um ‘pequeno crime’, o excesso imoral do piropo e a busca do contacto (espontânea, precária, superficial) que ele traduz só poderia ser considerado um crime imperdoável. Não admira que já alguém se tenha lembrado de propor a sua penalização criminal, sob pretexto de assim proteger as mulheres do assédio masculino, ainda que a esmagadora maioria de piropos – verbais ou gestuais – não contribuam para fazer vergar a mulher à fúria dominadora do homem.

Efectivamente, nada existe na natureza do piropo que o vincule necessariamente ao exercício da dominação masculina. O que há de comum em todos eles é sim o facto de consistirem em formas espontâneas e públicas de responder a um qualquer estímulo erótico e de assim buscarem uma fugaz aventura (de segundos?) com alguém que, por estar fora do círculo restrito da intimidade, seria suposto ignorar-se. Os piropos questionam portanto esse deserto de relações humanas em que se converteu o espaço público. Mas, com a sua eventual criminalização, quem não andasse vendado na carruagem do comboio ou do metro correria o sério risco de cometer o pecado de dirigir um olhar demasiado penetrante (“agressivo”) na direcção errada, arriscando-se portanto, em consequência, a fazer uma visita à esquadra.

Este movimento de ataque aiatolá-feminista ao piropo é típico da classe média porque ele procura (inconscientemente ou não, pouco importa) acentuar a atomização desta sociedade. Procura fragmentá-la numa profusão de nano-nichos individuais, no interior dos quais se refugia em busca do calor (amor, paixão, sexo) uma classe média cada vez mais solitária que já não sabe procurá-lo no espaço público, doravante sentido como um território estranho – inóspito, glacial -, onde o contacto entre seres se converte numa prática arriscada, já que excessivamente invasiva, intrusiva, constrangedora. 

Uma classe que rejeita o contacto, a intromissão, as relações, é uma classe que não se importa de fazer amor com gadgets (gadgetização do sexo): “hoje, encontramos no mercado o chamado ‘Stamina Training Unit’, um instrumento de masturbação semelhante a uma lanterna (para não causar constrangimento quando transportado):  coloca-se o pénis erecto no orifício situado na ponta do objecto e ele é movimentado para cima e para baixo até que se atinja a satisfação… O produto é encontrado em diferentes cores, ajustes e formas, imitando as três aberturas para penetração sexual (boca, vagina e ânus). O que se compra, neste caso, é simplesmente o objecto parcial (zona erógena) sozinho, desprovido do fardo adicional e constrangedor da pessoa como um todo.” (Slavoj Zizek)

Mas o movimento anti-piropo é também típico da classe média porque, para lá de contribuir para a multiplicação da atomização social, ele mobiliza as energias “feministas” num sentido que é essencialmente irrelevante, superficial, vão, dado que não desmonta uma única das causas profundas que estão na raiz da dominação masculina. E retenhamos esta importante característica da classe média: a sua aversão crónica ao radicalismo.

(continua)

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

8 thoughts on “Elementos para uma caracterização da classe média (II)

    1. Estive a rever alguns dos comentários que o Marialva – um assíduo comentador deste blog – nos deu a honra de ler e, para lá de escarrar sobre tudo o que lhe cheira a “esquerda”, nunca foi capaz de transmitir uma ideia, uma simples ideia, um mero pensamentozinho. O que me leva a desconfiar que por trás do Marialva não está alguém, uma pessoa, mas sim um robot, uma máquina, um spam.

      1. Caro PDuarte, a ideia que pretendi transmitir com o meu comentário foi que o seu texto não presta, parece-me que fui claro. Existem outros autores deste blog que até escrevem coisas boas e conseguem transmitir algo, até gosto deles. Você é apenas um pseudo-intelectual.

    1. (Mas por que raio haveria o texto de ser “muito bom”?) E que autoridade divina foi conferida ao Marialva e ao Miguel para virem cá fazer a avaliação, sem sentirem problemas por não justificar, não argumentar, não contrapor qualquer coisinha que se leia. (Repito: qualquer coisinha.)

      Ou serão analfabetos?

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