Elementos para uma caracterização da classe média

(e uma digressão por alguns debates inacabados)

Dois anos a escrever neste espaço serviram para ir desenvolvendo e aprofundando algumas das minhas obsessões. Numa nova série de posts, e apoiando-me no que aqui fui ensaiando ao longo deste tempo, abordarei uma delas, talvez a mais polémica: caracterizar a classe média, classe modelo desta sociedade. Glorificada por praticamente todas as forças e movimentos políticos que operam no mundo ocidental, da direita à esquerda, esta classe, que é filha do capitalismo (sem ela seria impossível ao capitalismo reproduzir-se), marca cultural, política e economicamente a contemporaneidade como nenhuma outra classe. Em 2011, um estudo revelava que 71% dos ingleses se viam a si mesmos como pertencendo à ‘classe média’.

Em todo o Ocidente, os programas políticos buscam essencialmente o voto desta classe, as estratégias mercantis dos industriais e dos publicitários buscam a sua adesão, tal como a maior parte da cultura (material/imaterial) produzida. Também os noticiários, do princípio ao fim, não traduzem senão as preocupações egoístas da pequena burguesia (consumo, segurança, estabilidade, prevalência da ordem, inovação na área dos gadgets ou dos medicamentos, etc.) e o seu desinteresse pelo destino colectivo da humanidade: uma greve, para dar um exemplo, analisa-se invariavelmente do ponto de vista do utente que naquele dia concreto perde o acesso a um qualquer serviço, jamais da perspectiva dos que sofrem diariamente na pele a precariedade laboral. Quase tudo o que de político, económico, cultural, mediático se produz hoje nesta sociedade tem um mesmo destinatário: a classe média, aquela que ocupa o colossal meio da hierarquia social. Mas como poderíamos caracterizar esta classe? O que permitirá identificá-la enquanto um todo relativamente coerente e razoavelmente homogéneo?

Uma cronista do Expresso, Clara Ferreira Alves, escrevia este fim de semana, acerca do seu anti-comunismo, algumas palavras que podemos aqui tomar como um excelente contributo para, em jeito de preâmbulo, caracterizarmos sucintamente a classe média: “Acredito na economia de mercado, no capitalismo regulado e na iniciativa privada. Não acredito na coletivização da propriedade e da economia, na eliminação da competição nem na taxação intensiva do capital (…) Como boa individualista que sou (…). Maria João Marques, cronista de um outro jornal da direita lusa, complementava há dias tão acertada caracterização com as seguintes palavras (que eram justamente endereçadas a este blog): “nas ‘maneiras e educação’ pontifica o não incomodarmos as outras pessoas (…) acho ótimo que as pessoas vociferem violentamente nas redes sociais. É uma catarse tão boa como qualquer outra. Precisam, no entanto, de aprender essa coisa saudável que é respeitar as fronteiras das outras pessoas, e permanecerem, enquanto insultam, nas quatro paredes das suas casas digitais em vez de invadirem as dos insultados. (…) Podem vilipendiar-me à vontade desde que, lá está, não me causem o incómodo de exigir a minha atenção.”

Tomemos ambos os contributos como o nosso ponto de partida nesta digressão. Nela, regressarei a quatro debates que marcaram a minha passagem por este blog, e onde, em todos eles, eu ataquei as posições e as convicções da classe média, as quais Clara F. Alves e Maria J. Marques acima tão genuinamente expressaram. Acredito que, juntando os quatro, começamos a obter o esboço de um retrato fiel desta classe.


1) No inatacável império das liberdades individuais / Como cada um quer representar e mostrar o seu corpo é com cada um

Quando há dois anos levantei uma discussão sobre o conteúdo das imagens com que no Facebook se representa uma massa cada vez maior de mulheres (auto-representando-se, para júbilo da prole masculina livremente, enquanto sex toys: vulgarizadas, uniformizadas, estandardizadas, mercantilizadas, inanimadas), a classe média, escandalizada, logo reagiu em coro à minha provocação ‘terrorista’: “Como cada um quer representar e mostrar o seu corpo é com cada um”, respondia um blogger furioso que sintetizava muito bem a posição da esmagadora maioria de comentadores. Ilustrando todo um zeitgeist, este super-argumento reflectia a crença mais profunda de todas aquelas em que crê a classe média: que, apesar de tudo, nesta sociedade ocidental democrática somos seres essencialmente livres e únicos, logo fundamentalmente autónomos do colectivo e alheios a qualquer género de pressões de natureza cultural, social, ideológica, política. Por conseguinte, as decisões sobre o que fazemos com o nosso corpo ou com a nossa sexualidade jamais poderão ser questionadas, sequer debatidas, porque isso levaria a questionar a nossa liberdade individual.

Esta posição da classe média, tão típica da pós-modernidade, não tem em conta que por trás das decisões, aparentemente livres, que tomamos (nos campos da representação corporal, da sexualidade mas também em quaisquer outros) se acham estruturas colectivas de poder – geralmente invisíveis – que se tornam assim, também elas, inquestionáveis. Se uma mulher se representa subjectivamente no Facebook ou noutro sítio qualquer de uma forma que faz reproduzir objectivamente a dominação masculina, não devemos então discutir a dominação masculina (nem outras modalidades de dominação) através dessa representação concreta, porque isso levar-nos-ia ao sacrilégio de questionar a forma como alguém livremente representa o seu próprio corpo e constrói a sua sexualidade.

Ora, eis-nos aqui diante de um primeiro traço distintivo da classe média: uma crença profunda e inabalável nas liberdades individuais, tidas como plenamente adquiridas nesta sociedade da livre iniciativa e do empreendedorismo – que é o mesmo que dizer, uma crença profunda nas ‘boas intenções’ da sociedade que faz reproduzir a economia liberal.

(continua)

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

7 thoughts on “Elementos para uma caracterização da classe média

  1. Excelente artigo, via o meu amigo Renato Teixeira!

    E este “É” realmente o ponto: “… por trás das decisões, aparentemente livres, que tomamos (nos campos da representação corporal, da sexualidade mas também em quaisquer outros) se acham estruturas colectivas de poder – geralmente invisíveis – que se tornam assim, também elas, inquestionáveis. ”
    Sem dúvida.

    Os tempos são agora, antes da necessidade, ou não, de uma consciência de classe, da consciência deste paradigma.

    Enquanto isto não for encasquetado…. nada feito!
    Tudo o resto é pura, e por vezes ingénua, participação no mesmo circo, no mesmo sistema, na mesma “rodinha” do rato.

    Parabéns e foi um gosto lê-lo!

  2. “Esta posição da classe média (a crença na liberdade individual), tão típica da pós-modernidade…”. O que se entende aqui por “pós-modernidade”?

  3. Tenho lido com prazer esta sequência que apareceu numa altura curiosa…

    Tentei entrar no molde e quase me parti, neste momento, eu e o molde funcionamos como os gatos: contemplação sem aproximação. No entanto, nem que seja por uma questão de comunicação, precisamos de palavras que nos definam e nos ajudem a interagir com os outros…deste pensamento gostava de lhe perguntar: como se enquadra?

    Não é a melhor forma de perguntar o que quero perguntar mas acho que dá para perceber…pessoalmente tenho optado por me enquadrar um tópico de cada vez o que nem sempre é consensual…

    1. Cara Júlia, obrigado uma vez mais por comentar um texto meu. No entanto, lamento não ser capaz de responder-lhe devidamente. Nunca pensei verdadeiramente onde me enquadro… Mas talvez esta série de textos aqui iniciada, sobre a ‘classe média’, revele onde eu definitivamente não me enquadro.

      Saudações do campo.

  4. Mais uma vez vem regurgitar tudo o já foi escrito pela Escola de Frankfurt & co. Maldita classe média, agora sim estão em apuros com estas mentes intelectuais desconstrutoras da sua frágil realidade. Conteúdo original = 0, a mesma lenga lenga do milénio passado.

    1. Ora, ora, cá está de volta o nosso amigo spam, o super original Marialva. Odeia a “esquerda” mas, qual mosca chafurdando alegremente no monte de bosta, não é capaz de largá-la.

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