O ‘animalismo burguês’, um movimento em rápida ascensão em Portugal

O deputado do P.A.N. abordou hoje no Jornal i um assunto muito relevante para a “evolução civilizacional e ética” e também para a dignidade da vida animal no planeta: o abuso que representa a domesticação da águia Vitória, a mascote que anima os jogos do Benfica. Dado que é “contra a utilização de animais para entretenimento” (ai dos cães que sejam apanhados a ‘entreter’ os seus donos) e que “não se revê na domesticação de animais selvagens, pois são afastados do seu habitat, ficando impedidos de expressar o seu comportamento natural e de interagir com outros animais que integram o seu próprio ecossistema”, este animalista burguês promovido a representante político não aprova que o Benfica use uma águia com aquele fim.

O movimento do ‘animalismo burguês’ parece estar a crescer rapidamente em Portugal. Chamo ‘burguês’ a um tal movimento já que este movimento cívico, que está perfeitamente em linha com o chamado ‘capitalismo ético’, se caracteriza pela superficialidade, futilidade e hipocrisia: os seus militantes mostram-se muito incomodados com os animais que são (ab)usados no circo, num estádio ou nas touradas, mas não percebem que a simples construção de mais uma auto-estrada ou de um olival em regime de monocultivo intensivo, assim como a abertura de uma mina de ouro ou de uma exploração industrial de aquacultura (para dar quatro meros exemplos, mas poderia dar outros trezentos) tem um impacto mil vezes maior sobre a vida animal. A hipocrisia tomou conta dos animalistas portugueses, ou pelo menos daqueles que dizem representar publicamente a causa. Canalizam as suas energias para a defesa da vida animal no sentido mais inócuo que se pode imaginar. Os empresários do agrobusiness, da mineração ou das grandes construtoras (estradas, pontes, linhas de TGV, aeroportos) riem-se destes anjinhos inofensivos, dado que não colocam o mais pequeno entrave aos seus negócios. A formatação capitalista do planeta pode continuar a reproduzir-se em paz.

Enquanto que em França os movimentos ecologistas-animalistas se mobilizam massivamente contra a construção de mais um aeroporto pelos vastos e tenebrosos impactos que a construção de qualquer aeroporto representa, os anjinhos animalistas deste lugar mobilizam-se, quando não contra as touradas ou os circos, contra uma águia que de 15 em 15 dias lá faz um vôo para entreter uma plateia. E tudo isto sem que tenham a mais pequena noção do ridículo tremendo que estão a fazer. Como dizem com muita razão alguns animalistas citando Humboldt, “a educação de um povo avalia-se pelo modo como trata os animais”. Como deveríamos então avaliar a educação destes ‘animalistas burgueses’ que desprezam 99,9% dos animais que esta sociedade silenciosamente massacra?

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

10 thoughts on “O ‘animalismo burguês’, um movimento em rápida ascensão em Portugal

  1. Boas ;-)

    Para começar devo declarar que adoro sempre contemplar os circos que saem da mistura fantástica da política com o futebol… E por vezes nestes circos existem abusos de animais, Umanos, mas nem por isto deixam de ser animais abusados!

    Só por isto o deputado do PAN devia ser contra ele próprio, e exonerar-se do cargo!

    É que a mistura destas duas actividades profundamente corrompidas proporciona-me sempre espectáculos de elevada alegria abdominal!

    De resto os facto que referiu são a mais pura REALIDADE…

    Por falar nisso… VIVA A BARRAGEM DE ALQUEVA!

    P.T.: É que já só vale a pena porque me faz RIR!

    Be :cool:

  2. Esteve desatento porque ouvi na campanha o agora deputado eleito falar negativamente do plano nacional de barragens, e fê-lo com conhecimento do que estava a dizer, e de uma perspectiva ambiental para todos os seres vivos, e não dos lagartos ou águias, mas de todos onde nos incluímos. Depois este argumento de que não podemos criticar um abuso indevido de um animal selvagem sem antes destruirmos a sociedade de classes está ao mesmo nível da critica a todo o tipo de lutas ou reinvindicações que não pressuponha o derrube imediato (seja lá o que isso for) do capitalismo. O feminismo ou os direitos lgbt para os partidos de tradição marxista-leninista por exemplo.
    c.r.

    1. Parece que a CR sente uma particular atracção pelas posições patetas, fúteis, vãs, hipócritas com que se entretém a conscienciazinha da classe média. Depois do ataque aiatolá-feminista ao piropo o ataque burguês-animalista à tourada, à águia Vitória e ao circo. A resposta que estou a preparar para si (para toda a classe média aliás) chegará em post, uma série de posts aliás. Continuamos a conversar depois, se a CR assim o entender…

      1. PDuarte, do que pareço padecer é de uma particular queda por querer esticar um pouco mais os seus raciocínios. Se gosta de escrever pensamentos acabados e cheios de si, sem espaço a contraditório é um problema seu. Mas se escreve em espaços públicos sujeita-se a ser lido. E quando se escreve chamando idiotas aos outros é bom estar bem alicerçado e apresentar argumentos que se vejam. Descuidou o cuidado sobre a preparação do deputado PAN e do seu programa, para o encostar a um preconceito que tem pelas causas que movem pessoas em torno de animais. Eu acho interessante que se debruce sobre isso mas faça-o de modo honesto e inteligente. No piropo aconteceu o mesmo, quando lhe chamaram a atenção para o facto do argumento que estava a usar não ser válido (não era o olhar ou o piropo que estava em causa mas um determinado tipo de assédio) borrifou-se para isso porque assim já não era redondo o vocábulo.

      2. Cara C.R.,
        Estou certo e não duvido que o programa do Pan prevê a defesa dos interesses dos animais, do planeta e mesmo de todo o universo, mas o meu post confrontava uma entrevista concreta (e não todo esse maravilhoso programa) que o líder do PAN deu a um jornal e onde mostrou as suas fúteis e inofensivas prioridades (ou será que a um jornal revelamos o que no nosso programa é secundário?). Segundo, não tenho preconceitos por “causas que movem pessoas em torno de animais”. É preciso não ter entendido patavina do que escrevi para dizê-lo. Terceiro, a C.R. é daquelas leitoras que eu não pretendo convencer de nada.

  3. É sempre hilariante ver a “esquerda” às turras entre si para ver quem é que é o verdadeira revolucionário.

    “Eu sou revolucionário porque X!”
    “Amigo você é um falso revolucionário, eu é que sou o verdadeiro porque Y!”
    “Camaradas vocês são falsos revolucionários porque C, eu é que sou o verdadeiro revolucionário, seus burgueses encapotados!”
    “Amigos eu é que sou o mais verdadeiro mais melhor super revolucionário porque Z!”

    A caravana passa…

    1. O verdadeiro animalista revolucionário é o que defende que a águia Vitória seja devolvida ao seu ecossistema selvagem e que se acabem as touradas. Tudo o resto (milhões de animais diariamente massacrados pela formatação capitalista do planeta) são questiúnculas menores. Para quê abordá-las quando se dá uma entrevista de duas páginas a um jornal?

  4. Pduarte, sem ter lido mais do que o primeiro texto sobre a classe média, não pretendo continuar, não porque me queira convencer de algo ou convencê-lo mas porque volto a encontrar aquilo sobre o que os seus comentários aos meus comentários desvelam.
    1. Tem uma ideia pré-feita (o piropo e a futilidade da causa animal e como estas são causas de uma classe social condenada historicamente, sem radicalismo e obtusa) depois se os argumentos que usa para desenvolver essa ideia estão mancos ou falham, se alguém lhe vem dizer, ai mas afinal pode não ser assim, mais ex. os gadjets sexuais de que fala o zizeck, já lhe disseram algures que os miúdos nas aldeias usavam melancias ou melões para se masturbarem (se o faziam a sós atomizados ou em conjunto não sei mas essa diferença não me parece relevante para arrumar com a ideia pop do zizeck de caracterizar dessa forma a sociedade contemporânea pós-material) e apesar disso não abandona o argumento…por lhe achar graça.Ou seja, se a realidade não colar ou não couber inteiramente na ideia que fez dela não importa, enfia-se à força. Uma entrevista num jornal sobre a águia do Benfica (n li) serve para descrever todo um programa de um partido e chamar de anormais a todas as pessoas que dele fazem parte ou q nele votaram…

    1. Critica um texto onde eu critico uma entrevista mas não se deu ao trabalho de ver ao menos na diagonal (para saber de que se tratava) essa entrevista (linkada no meu texto)… Sintoma de honestidade e seriedade na leitura que faz àquilo que escrevo. Sem tempo nem vontade de dedicar-lhe mais caracteres.

Deixe o seu comentário.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s