Ensinemos a Maria João Marques que a ‘luta de classes’ não é coisa do passado

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Numa página de opinião da direita portuguesa, uma escriba decidiu mobilizar o seu mais primário reaccionarismo contra um post publicado neste blog (um “blog obscuro”, nas suas palavras), onde essa pessoa surgia representada – num exercício de humor satírico à la Charlie Hebdo – com um bigodinho que marcou profundamente a primeira metade do séc. XX. Não vale muito a pena reproduzir aqui novamente a dita imagem, bastaria simplesmente imaginarmos uma qualquer betinha sorridente e satisfeita com a vida ostentando o célebre bigodinho. Essa pessoa chama-se Maria João Marques e o salário que recebe, por escrever uns textos de opinião no Observador, destina-se a recompensar os serviços por si prestados na defesa dos superiores interesses do sector mais retrógrado, poderoso e endinheirado da sociedade portuguesa. Uma oligarquia que achou ter chegado a hora de declarar guerra à maioria da população, ao asfixiar sadicamente todos os serviços públicos do estado.

Mas a sociedade não é composta por uma massa de gente amorfa e passiva, onde qualquer um pode defender, sem consequências, a política que mais lhe interessa a si e aos seus negócios, esperando que ninguém jamais lhe cuspa na cara. Essa sociedade sem tensões não é – infelizmente para a direita – a nossa. Quem toma posição em defesa de uma elite social, como faz Maria João Marques, tem de saber que essa postura produz um impacto, e uma reacção, na vida concreta de milhares de pessoas. Se o meu pai tem de esperar meses ou anos por um transplante, se a qualidade do ensino na escola dos meus filhos se degradou subitamente, se uma geração inteira emigrou, se a venda de viaturas de luxo aumentou brutalmente e se as fortunas dos donos do país também, existem responsáveis. Porque esta não é a ordem natural das coisas, mas sim a ordem que uma classe decidiu impor às coisas.

Na luta de classes que, em lume cada dia menos brando, se trava no interior desta sociedade, este blog representa interesses antagónicos aos daquela betinha. Nessa luta pela (re)organização da pólis, qualquer pessoa que decida posicionar-se arrisca-se a ser, no mínimo, “incomodada” por quem não a conhece pessoalmente mas, muito mais importante do que isso, a conhece publicamente, como alguém que tomou posição. Ora, a menina Maria decidiu posicionar-se. E nós também.

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

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