Mas este lugar algum dia deixou verdadeiramente de ser racista?

Os homens mudam pouco e então os portugueses quase nada.” Salazar

O Portugal racista exprimiu-se ontem em massa num fórum da rádio pública. No programa diário da Antena 1, o Antena Aberta, pedia-se aos ouvintes que se pronunciassem sobre o acolhimento que Portugal deveria prestar a uma pequenina parte dos refugiados que um cúmulo de catástrofes fazem afluir massivamente à Europa. A maioria de ouvintes, do Minho ao Algarve, expressou-se mais ou menos com estas palavras (sem acrescentar-lhes praticamente nada): “Essas pessoas, que ninguém sabe que tipo de gente são, e que nem descontaram para a nossa Segurança Social, vêm para cá usufruir de condições que não são dadas aos nossos. Apoiemos mas é os portugueses.”

Portugal aos portugueses. 2015 como 1940. Esse Portugal racista que nunca desapareceu verdadeiramente. Na verdade, continua bem vivo, com o seu profundamente enraizado nacionalismo. Basta ver como ainda hoje nas escolas portuguesas, quais escolas nacionalistas do Estado Novo, 99,9% dos professores continuam a glorificar os Descobrimentos, onde um nobre e valente povo “deu novos mundos ao mundo”. O ‘portuguesismo’ continua vigoroso, como demonstra também o enorme sucesso da rede de lojas A Vida Portuguesa e dos seus “antigos, genuínos e deliciosos produtos de criação portuguesa”.

Num país que é o produto acabado da fusão de múltiplas culturas (bastaria pensar que tudo o que hoje se come em Portugal, à excepção das castanhas, das bolotas e das amoras silvestres, não é autóctone, veio de fora), nada há de mais ilógico e irracional do que a conservação de uma identidade nacionalista, “genuína e antiga”, sustentada sobre o mito da imutabilidade de um povo e da sua cultura. Uma tal identidade gera invariavelmente racismo: desconfiança, medo, aversão por todo aquele que não partilhe dela e que a contraste – sentimentos que hoje se canalizam contra os refugiados. “É cem vezes preferível que estes invasores morram num lugar qualquer do que virem para cá, abalar a nossa pacatez e aprofundar a nossa desgraça.”

Para defender este Portugal racista, nem sequer é preciso votar no P.N.R. ou no Partido da Terra, porque os principais valores – que defendem a reprodução ad aeternum de uma identidade estática, pura, “portuguesa” – dos dois partidos que neste lugar possuem programas abertamente fascistas são aqueles que em 2015 dominam Portugal, como tão bem demonstrou o fórum democrático da rádio pública. Mas alguma vez existiu outro Portugal?

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About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

2 thoughts on “Mas este lugar algum dia deixou verdadeiramente de ser racista?

  1. Pátria?

    Permita que me expresse livremente…

    PUTA QUE PARIU as pátrias!

    Quem não compreende a divisão/conflito que tal noção cria, pode continuar a debitar lenga-lenga abjecta na rádio e televisão e nas tascas!

    De resto sobre a hipocrisia e racismo e responsabilidade dos Tugas (que não é exclusivo, é simplesmente GLOBAL) neste evento dos refugiados de guerra ainda há pouco tempo escrevi!

    Mas a realidade, é que nada mudará…

    Be :cool:

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