“Rapsódia”, por Kareef

Jardim das Delícias Terrenas
Jardim das Delícias Terrenas, Bosch

Barba. Trança. Descoberta. É tudo bonito nas tranças e nas barbas. Até mascaradas, imaginadas, doem de bonitas. Quadro renascentista, com lanches debochados e as mulheres a trançarem e destrançarem os cabelos umas das outras e os cabelos da cara afagados por umas e por outros… o olhar guloso das damas e dos cavalheiros trocando olhares algo grotescos dos dois lados do rio. Os melhores diálogos são feitos de palavras aos trambolhões. Não raras vezes olhamos o cabelo e as barbas dos outros sem perceber a beleza daqueles que ostentamos. Os ruivos detestam-se e todos os adoram. As louras adoram-se e poucos na verdade as apreciam. A mal amada carapinha dos negros, ou as farpas dos persas, poucas vezes encontram semelhante mais bonito. A adolescência e a idade adulta vão-nos deixando as ideias mais claras, mesmo que as dissimulemos. Há quem pinte o cabelo de roxo, pasme-se. Cada feminista, homem ou mulher, bem pode bradar, mas todos começam por se submeter ao gosto dos outros. Ninguém nasce a saber amar a diferença e só se aprende acumulando parágrafos, somando marés vivas. Um encontro. Dois. Uma estalagem. Uma fortaleza. Um jantar. Lábios colados a areia e mar. Ninguém de pleno juízo quer viver com os pés na terra. Assim fosse e ninguém amaria a literatura, que nos compele a puxar os pés para o ar da espuma dos dias e a afugentar o lado melancolic blue da vida. Hoje tocava no piano de cauda do átrio e lembrei-me de ti. Indução? Adivinhação? Curiosidade? A cabeça viaja por viajar, sem razão aparente, para ir ter onde quer ir. Há que comer romãs, castanhas e dióspiros como quem mergulha os dedos no seu sexo ou no sexo dos outros. Quem não tem como se exprimir de outra maneira é importante saber fazer amor ou falar piano. Ser eternamente jovem e acreditar que se pode mudar o mundo, esse lugar comum, mesmo que ele não se afaste um milímetro da tragédia. A rebeldia contemporânea é uma farsa. Importante. Mas uma farsa. Há que respigar a revolta como os antigos passavam os campos a pente fino depois de cada colheita. Medronhar a vida. Destilar. Vadiar. Mergulhar no toque dela. Provar o dele. Ter olhos para ver na contraluz. Saber garantir as comendas. Falar e tornar a falar. Escrever. Ouvir. Não perder nenhuma volta com o outro às costas, a falar ao ouvido à boleia de uma bicicleta. Quando nada faz sentido importa ficar sóbrio. Quando tudo faz sentido ficar ébrio é a atitude mais inteligente. O que ficou para trás não nos deve prender. Há que saber abraçar a chegada das estações como a mesma fúria com que assistimos à sua partida. Fazer da poesia uma linguagem do dia-a-dia é conseguir parar o lamento da estação que partiu à espera da que virá e desdenhar a que chega com saudades da que já partiu. Desfrutar o tempo, seja lá qual for o tempo. Viver os lugares que não existem não basta. Há outra forma de sentir sempre a carne trémula? Trilhar o que se consegue sem perder de vista a utopia. Combater a ortodoxia ideológica e erótica é tão importante como fuzilar fascistas. Ninguém cresce se crescer for a sinistra aprendizagem de ser esquivo. Os intelectuais são um desastre anunciado de quem nunca fará nada do que pensa e todos correm esse risco, mesmo quem não pensa muito. Desiludem-se para se iludirem ainda mais. Ninguém homenageia a ambiguidade com a devida cerimónia. Todos parecem profetas do determinismo. Vamos procurar descobrir tudo o que os outros nos deixam. A comunicação das pessoas obedece a leis difíceis de descortinar. O pintassilgo é a metáfora da liberdade, já as pombas são o seu contrário. A masmorra absoluta. Todos desconfiam do desconhecido quando na verdade é aquilo que conhecem que os atormenta. Brincar com o cabelo dos outros enquanto eles nada fazem, desvendar mais o avesso dos dias com mais concentração do que aquela que é necessária para compreender uma mão cheia de ensaios filosóficos. Alguém que encha as ruas com qualquer quarteto de cordas aos gritos. Quem olharia o oceano calmo se nas costas tivesse uma maré viva a explodir nas rochas? Porque raio as pessoas sacodem a areia quando voltam da praia? Ou tomam banho para tirar o sal onde voluntariamente mergulharam? Não se cansam de habitar um sítio que não permite mais do que sublimações? Onde a cada devaneio se segue a redenção, a culpa? A timidez é como a obediência. Há que a ir matando, nem que seja por etapas. Porque não é linear que a liberdade vença a vertigem? Porque razão absurda vivemos numa sociedade em que só aos loucos é reconhecido o direito a serem livres? A verdade é que a liberdade, para não ser castrada pelos sóbrios, ou é segredo ou é classificada de loucura. Ninguém arrisca navegar entre uma e a outra sem ser em segredo. O anuncio da liberdade é considerado uma ofensa. É, nestes tempos, a própria negação da liberdade. Uma blasfémia. Um pecado, mesmo que levada a cabo por quem jura não se render a nenhum credo. Mas ainda assim poucos são aqueles que negam a beleza dos contos selvagens. Não deve haver alma que não durma sem alargar as asas com ele. Todos receiam ser demasiado gulosos quando se vive num mundo onde a gula se reduziu à matéria. Todos os desejos consumistas são respeitados, todos os desejos do corpo expurgados. Será que séculos depois dos bordéis mais ninguém inventa um negócio que venda prazer que não se embrulhe? Todos dizem que é lindo dançar à chuva e todos fogem da chuva mesmo quando dançam. Dançar sem narrativa é claustrofóbico. Uma tortura. Quem subverta e sobreviva a isto descobre o graal, o hidromel da vida. Celebra-se tudo e mais alguma coisa, mas ninguém festeja o que deve. Quem mais elogia este ou aquele poema erótico, mais se dedica à delação íntima. Suspiramos pelo criminoso em qualquer policial e passamos a vida a chamar a polícia cada vez que um crime se nos atravessa à frente. Repetem-se os tiros contra a fantasia, mas à noite adormecemos a aplaudir os filmes que a idolatram. À noite sonhamos com aquilo que abatemos durante o dia. Não seria mais sensata a insensatez de ocupar o nosso escasso tempo com coisas mais bonitas? Todos clamam por estremecer e depois poucos não fogem disso. Sonhai-vos a explodir uns dentro dos outros, em qualquer parte de uns e de outros. Permitam que o corpo exploda sem nenhuma vergonha, quem explode convosco guarde bem o segredo. Faça-se como as corujas que elas são de confiança. Imagine-se a escala do sabor sem escala para medir o gosto. Provem-se. Parem de fugir daquilo que querem encontrar. Bebam os beijos, não os dêem simplesmente. Ensinem-se a ser livres e não deixem que ninguém vos ensine, pois não há quem não esteja a aprender. A liberdade não tem técnica, não é um violino. Saboreiem com todas as partes do corpo. Larguem os telefones e agarrem os corpos que estão do outro lado da linha. Deixem de fotografar a lua e deixem que ela vos fotografe a vocês. Façam amor com os lábios pintados de vermelhos. Não vetem a liberdade e tenham urgência dos outros. Não façam das varandas marquises e apanhem cestos cheios de corações de boi. Vivam em casas de pedra e madeira, granito ou xisto, cerejeira ou carvalho. Desdenhem antes os lofts no centro das cidades. Façam fogo e escrevam sem verso. Transformem os castelos em aldeias e beijem-se por dentro daqueles com quem fazem caminho. Percam-se no labirinto das palavras para que a chuva caia com outro mimo. Acelerem o tempo se têm pressa e parem o relógio se querem ficar onde se encontram. Não vivam no limiar da crueldade e compensem-se com horas de delírio. Aprendam a tocar músicas novas mesmo que o ouvido seja nulo e sejam incapazes de ler pautas. Não planeiam mais do que progridem. Fiquem nervosos. Dispam-se de tudo. Desafinem.

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