As críticas para as quais a burguesia anti-tourada não encontra resposta

Do debate surgido numa caixa de comentários deste blog e algures no Facebook, na sequência do post O que faz mover os “defensores dos animais” em Portugal?, praticamente todos os auto-proclamados “defensores dos animais” acharam perfeitamente normal que uma parte enorme das suas energias fosse canalizada para essa causa vital para o futuro da dignidade da fauna terrestre, dos valores humanos e da educação das crianças que é pôr um fim às touradas. Um destes “amigos dos animais” justificava no Facebook que “o facto de se direccionarem em especial aos touros em Portugal deve-se à obsessão de em Portugal se torturar touros.”

Tal como todos os outros, este militante da causa animal não compreendeu absolutamente nada na minha crítica nem no facto mais elementar que ela procurou evidenciar: a obsessão portuguesa de se torturarem publicamente touros na arena representa infinitamente menos para a dignidade da vida animal do que a obsessão igualmente portuguesa de se torturarem secretamente milhões de animais anónimos em ambiente de produção industrial. O que nem ele nem os outros “animalistas” portugueses que leram o meu post parecem ter ainda percebido (o que me leva a ponderar se existe mesmo algo que distinga um fanático dum analfabeto) é que em Portugal não se torturam cruelmente apenas touros; e as centenas de touros que se torturam na arena representam menos de 0,0001% do conjunto dos animais domesticados massacrados – um número com alguma relevância para o debate, não é verdade?

Quem se fica a rir no meio disto tudo são naturalmente os industriais da carne, do peixe, do leite, do queijo, dos ovos, etc., que em Portugal têm via verde para continuar a cometer todo o género de monstruosidades aos animais, desde que não o façam numa arena com criancinhas a assistir nem em directo para a televisão para não causarem nenhuma indisposição aos tele-espectadores. Ou seja, desde que as suas atrocidades não penetrem no interior da bolha individual em que vive mergulhada a pequena burguesia e a sua facilmente impressionável “sensibilidade”.

E, quando um dia finalmente se conseguir acabar com essa afronta à ética do homem contemporâneo que representa o espectáculo sangrento das touradas, os animalistas burgueses irão possivelmente canalizar toda a sua fúria para os milhares de peixes que vivem nos aquários espalhados por todo o país (mas não para os biliões de peixes explorados pela aquacultura) ou para as centenas de animais que participam no circo ou no zoo (mas não para os biliões que diariamente se extinguem na natureza), já que para a sua consciência o que não se vê não existe.

A formatação capitalista do planeta parece não lhes dizer nada. Capitalismo?! Mercantilização de todas as formas de vida rentabilizáveis pelo capital? Extinção de todas as outras? Impacto do capitalismo sobre a vida? O movimento “animalista” anti-touradas não quer saber (para quê as canseiras de lutar contra um regime que subverteu todas as esferas da vida se se pode tão facilmente tranquilizar a consciência assinando uma petição ou duas a pedir o fim das touradas?). Não fosse ele um típico movimento cívico da única classe que não procura outra coisa senão levar a sua vidinha pacata, cómoda e tranquila, sem nunca ter de sair do interior da sua casinha, do seu carrinho, das suas lojinhas, do seu facebookzinho, da sua carreirazinha profissional, das suas feriazinhas: refiro-me obviamente à classe média, para quem as tensões e os tumultos da história colectiva são mero ruído, que se procura ignorar.

O debate confirmou assim, infelizmente, aquilo que o post denunciava: existe efectivamente uma obsessão nos animalistas portugueses (não em questionar o modo como a sociedade capitalista lida com a questão animal mas) em atacar isoladamente as touradas, obsessão que é perfeitamente patética no contexto histórico actual marcado, como vimos, pela massificação do exercício da crueldade e da tortura sobre a esmagadora maioria dos animais domesticados pelo homem. Perante a banalização [A] da exploração ultra-intensiva em ambiente industrial mas também [B] da extinção em ambiente selvagem dos animais, contra o que escolhe manifestar-se a esmagadora maioria de pessoas que compõe o movimento dos animalistas em Portugal? Contra as touradas.

Se esta opção estratégica não é ridícula, fútil, vã, patética, é o quê? Portanto repito: que seriedade e honestidade devemos atribuir a um tal movimento? (Claro que existem defensores portugueses da causa animal, organizados em pequenos colectivos e associações, com preocupações absolutamente nada fúteis, mas qual é a sua expressão e impacto no panorama geral? E que vitórias já conquistaram, quando a maioria de hipermercados deste país nem sequer vende uma caixa de ovos de galinhas criadas ao ar livre, tornando assim o consumidor dependente dos sinistros aviários?)

Os animalistas anti-touradas canalizam a luta pela libertação animal num sentido que mantém incriticável os hábitos culturais da esmagadora maioria da população, assentes sobre a exploração capitalista dos recursos naturais como se não houvesse amanhã. Criticam massivamente nas ruas quem vai a uma tourada, mas apenas pontualmente nos cafés quem (pela comida, roupa, mobiliário, gadgets, viaturas, etc., que consome) contribui diariamente para a a reprodução da pecuária ultra-intensiva ou das extinções em massa. Um animalista responde-me: “mas é que depois de conseguirmos acabar com as touradas todas as outras torturas aos animais cairão por efeito dominó”. E eu pergunto-me: mas estes anjinhos inofensivos e despolitizados estão a gozar com a minha cara ou será que acreditam mesmo nisso?

Relativamente ao absurdo de converter a tauromaquia no porta-estandarte da luta pela dignidade da vida animal (a crueldade das touradas representa uma das mais pequenas gotas no oceano da crueldade que o homem inflige hoje à vida animal), há um outro facto perante o qual todos os animalistas burgueses se calam: ao sustentar uma das últimas formas de ganadaria extensiva da Europa, onde cada touro dispõe de vários hectares para viver são e tranquilo, a tauromaquia promove a vida mais digna e livre de todos os animais de que o homem cuida. De facto, ao contrário da esmagadora maioria de animais domesticados, o touro não passa toda a sua vida numa sinistra linha de produção em cadeia, onde vive e morre silenciosamente o gado de que boa parte da burguesia animalista se alimenta.

What makes the existence of domesticated farm animals particularly cruel is not just the way in which they die but above all how they live.”

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

10 thoughts on “As críticas para as quais a burguesia anti-tourada não encontra resposta

  1. Era capaz de tirar 10 minutos do meu dia e atacar o texto do sr. historiador frase por frase, mas como sou da “classe média” e tenho um trabalho a sério, vou resumir as minhas ideias a isto: O seu post é altamente demagogo: parece que não consegue discernir que uma pessoa pode ter várias causas. Falando por mim, defendo o fim das touradas, sim, tal como também defendo o fim da exploração da criação animal em condições deploráveis. Fica-lhe extremamente mal pôr em causa a seriedade e honestidade dos defensores dos animais, e dizer que a sua causa é “ridícula, fútil, vã, patética”. Vamos ver se percebi – no seu entendimento, como o número de animais em sofrimento por motivo de condições precárias na sua produção é bastante superior aos touros que se usa para touradas, então não é ok defender os touros, porque são uma minoria? Ou não é ok defender os touros porque você, na sua mente pequenina, se entretém com tal espectáculo? Já para não falar no atrevimento que é a utilização do adjectivo analfabeto… Vive na província, não é? Acho que é esse o seu mal. Provavelmente, falta de contacto com a civilização. E sim, estou a ser rude e mal educada, nada menos do que o seu post merece. Termino acrescentando que além de demagogo, é mentiroso: “a tauromaquia promove a vida mais digna e livre de todos os animais de que o homem cuida” – oh por favor.

    1. A Mariana não percebeu patavina do que escrevi, nem os alvos da minha crítica. Logo, não é de estranhar que não tenha um único argumento com interesse a acrescentar ao debate. Não surpreende, pois da burguesia anti-tourada já não se espera outra coisa.

      1. Infelizmente acho que percebi tudo, e o seu texto não é um debate, é um ataque. Burguesia anti-tourada? “Lol”. Com a sua suposta formação, esperava um pouco mais de nível. Que básico. Cumprimentos.

  2. Manifesto-me todos os dias: no que compro e,mais importante, no que não compro, seja comida, seja roupa,sejam detergentes etc. Manifesto-me quando escolho o local onde faço as compras, no que coloco no prato, no respeito por toda a vida que atravessa o meu dia a dia. Não é perfeito nem vai ser tão cedo, é um processo de crescimento que não passa por manifestações públicas. Também não compreendo e talvez por isso tenha gostado tanto do seu texto. Embora não seja a forma correcta de usar o termo mas dar mais valor à vida de um touro que de uma galinha é uma forma de especismo, pelo menos para mim é. Vida é Vida e a generalidade das pessoas falta ao respeito à sua própria vida. Venham mais textos destes!

  3. De volta ;-)

    Temo que a sua abordagem à hipocrisia manifestada seja pelos que praticam as touradas, seja pelos que são contra elas, está ao nível das recentes notícias sobre a ligação existente entre consumo de carnes vermelhas e carnes processadas e o cancro!

    Ambas não levarão a lado nenhum!

    Afinal de contas cada um de nós nunca faz nada que não escolhe fazer.

    No final não passamos de animais que existimos ofuscados com a ILUSÃO de que somos Seres Humanos!

    Fica :cool:

  4. Confesso que fiquei estarrecido com o texto.

    Então o autor não sabe que os activistas e movimentos contra as touradas também denunciam TODOS os maus tratos contra animais, inclusive os destinados à industria ?

    Cá em Portugal os protestos contra as touradas dão mais nas vistas ?

    Evidentemente.

    Enquanto não se conseguir explicar a um povo que é moralmente errado torturar animais para diversão, como é que se lhe vai explicar que se deve poupar o sofrimento a todos os animais ?

    1. Confesso que fiquei estarrecido com mais este comentário. Então o comentador não entende que os activistas anti-touradas demonstram “uma obsessão (não em questionar o modo como a sociedade capitalista lida com a questão animal mas) em atacar isoladamente as touradas, obsessão que é perfeitamente patética no contexto histórico actual marcado, como vimos, pela massificação do exercício da crueldade e da tortura sobre a esmagadora maioria dos animais domesticados pelo homem”?

      E repito: “What makes the existence of domesticated farm animals particularly cruel is not just the way in which they die but above all how they live.”

      Para perceber o ridículo do seu “Cá em Portugal os protestos contra as touradas dão mais nas vistas? Evidentemente.”, compare por favor a vida dos touros que sofrerão barbaramente na arena com a vida dos animais que deram a chichinha que chegou ao prato do Pedro ou dos seus familiares e amigos… Páre, compare e pense; e depois cá estarei para continuarmos a conversa.

      Saudações vegetarianas.

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