O que faz mover os “defensores dos animais” em Portugal?

What makes the existence of domesticated farm animals particularly cruel is not just the way in which they die but above all how they live.” The Guardian, 25 Set. 2015

protesto-anti-tourada-em-viana-do-castelo122946f7_664x373

Uma obsessão inexplicável?

Existe uma obsessão que não é muito fácil de compreender na luta dos auto-proclamados “defensores dos animais” portugueses: salvar centenas de touros da dor cruel por que passam no espectáculo sangrento das touradas. Esta estranha obsessão é sobretudo difícil de entender se tivermos em conta que faz passar para segundo e terceiro planos aquilo que, dizendo respeito à vida animal, urge de facto discutir no momento histórico presente:

  1. a situação apocalíptica dos milhares de milhões de animais (vacas, porcos, galinhas, patos, peixes em aquacultura…) sadicamente torturados em cada dia das suas vidas, em ambiente de produção industrial, para serem reduzidos unicamente à condição de mercadoria alimentar ao serviço do lucro do agro-business
  2. as extinções em massa, sem dó nem piedade, em meio selvagem, de que é responsável a vida contemporânea – que é também aquela que a maioria dos “defensores dos animais” quotidianamente levam (pela comida que comem, a roupa que vestem, os móveis com que equipam a casa, os gadgets com que entretêm o espírito, as viaturas com que se locomovem no espaço, etc.)

Como justificar que estas duas questões, nomeadamente a primeira, apenas suscitem, pelo menos em Portugal, alguma reprovação pontual por parte dos “amigos dos animais”, mas jamais poderosos movimentos de contestação e indignação, capazes de levar centenas ou milhares de pessoas às ruas ou de levá-las a boicotar por exemplo os hipermercados? A minha (primeira) hipótese é simples: como típico movimento cívico de classe média que é, o movimento dos “amigos dos animais” é essencialmente superficial, hipócrita e incoerente, nada questionando de substancial na forma como a sociedade capitalista lida com a questão animal – a classe média vive obcecada com o que, no interior da sua bolha individual, choca a sua “sensibilidade”; e por isso, tomada por um egocentrismo e um individualismo quase crónicos, ela ocupa-se quase exclusivamente com o “bem-estar” das espécies animais que habitam essa bolha (particularmente, cães e gatos), mas também de algumas outras, como os touros ou os animais usados no circo, as quais, não a habitando directamente, acabam por aí penetrar episodicamente (via transmissões televisivas ou referências em jornais); tudo o resto (ou seja, toda a gigantesca massa de vida animal, domesticada ou selvagem, que ainda habita o planeta) é como se não existisse: e por isso se extinguem num quase absoluto silêncio milhares de espécies a um ritmo alucinante e se torturam diariamente e às escuras milhares de milhões de animais na indústria alimentar que inunda os nossos restaurantes e hipermercados.

No entanto, se estes “amigos dos animais” canalizassem toda a sua fúria por exemplo contra a existência de aviários, passaríamos a ter a possibilidade de comprar nos hipermercados de todo o país ovos de galinhas “felizes” (uma velhíssima conquista nos países onde aqueles movimentos são sérios), mas estes seriam substancialmente mais caros do que os ovos provenientes dos aviários; e é bem sabido que não há nada que a classe média prefira do que “comprar barato” – apesar da máscara de humanidade que esta classe muito esforçadamente sempre procura ostentar.

Um movimento em linha com o capitalismo ético

Na verdade, este movimento pequeno-burguês, de gente incapaz de ver um pouco além da micro-bolha que habita, consegue mesmo fazer algo de teoricamente impensável: abordar a questão da dignidade da vida animal sem fazer nenhuma referência ao quadro capitalista que regula as relações entre a humanidade e tudo o que a rodeia, incluindo os restantes animais. Defender os animais, em 2015, sejam estes sapos, focas, abelhas ou galinhas, sem criticar pela raiz o capitalismo é tão fútil como defender hoje os serviços públicos do estado sem procurar destruir as políticas neoliberais, como se fosse possível conciliá-los. Como qualquer movimento de cidadãos bem-intencionados de classe média, este movimento opera como se estivesse subtraído da história (formada justamente por quem nunca toma partido, a classe média é “composta pela massa daqueles que gostariam simplesmente de passar a sua pequena vida privada à margem da História e dos seus tumultos”), isto é, das relações sociais, económicas, políticas que definem este momento histórico concreto. Que seriedade e honestidade devemos portanto atribuir a um tal movimento, essencialmente despolitizado e a-histórico?

Não é difícil de perceber que estes inocentes amigos dos animais são filhos da mesma época hipócrita que também fertilizou o solo para que pudesse germinar o capitalismo ético, essa fachada humanitária (feita de ‘café ético’, ‘restaurantes sociais’, ‘carros verdes’ e de tantas outras maravilhas ‘sustentáveis’) que os promotores do capitalismo criam para ocultar os seus controversos negócios. Interessa-lhes por isso menos o que acontece em todos os dias da sua vida a um animal à porta fechada numa linha de produção ultra-intensiva, do que o que acontece em público a um touro no último dia da sua vida. Tal como para os hipócritas promotores do capitalismo ético, o que não se vê não existe. Esta parece ser a ridícula e patética regra de ouro dos defensores da causa animal em Portugal que elegem como grande prioridade ética o fim das touradas, mas não o fim imediato da produção intensiva e industrial de carne (produção esta que possui vários milhões de vezes maior impacto sobre a vida animal do que o facto, a essa luz insignificante, de ainda se praticarem, de tempos a tempos e nalguns lugares, touradas).

Por outro lado, poderíamos questionar: o que há de mais cruel e sádico num touro que morre barbaramente numa praça de touros do que num qualquer peixe no momento em que morde o anzol (e assim desencadeia lentamente o processo fisiológico que o levará à morte) fazendo as delícias dos amantes da pesca? (E onde estão os movimentos de defesa dos peixes que têm um anzol à sua espera? “Ah, mas é que o peixe é para ser comido. Sofre mas com a finalidade de ser comido…” E o touro não será igualmente comido?)

Don’t get me wrong: acho muito bem que quem se preocupa genuinamente pelos animais se declare, entre tantas outras coisas, contra as touradas ou a contra a caça às perdizes (ainda que poderíamos debater, e fá-lo-ei mais à frente, sobre quem faz efectivamente mais pela dignidade da vida dos animais: quem cuida do habitat e da boa saúde dos touros que serão toureados e das perdizes que serão caçadas ou quem critica abstractamente a existência das touradas e da caça?); o que não faz nenhum sentido na cabeça de um ser minimamente sóbrio é que os touros que sofrem nas touradas, depois de viverem dignamente durante pelo menos quatro anos em regime de semi-liberdade e total tranquilidade no campo (e isto não é um simples detalhe), se convertam no porta-estandarte da luta pela dignidade da vida animal, uma luta que é do meu ponto de vista muito legítima e necessária – se deixei de comer carne há vinte anos é naturalmente porque essa luta me diz bastante.

Touros e frangos – pólos opostos na forma como esta sociedade se relaciona com os animais

A vida contemporânea baniu todos os resquícios de dignidade da vida animal ao mercantilizar um número crescente de formas de vida e extinguindo, a um ritmo impensável, aquelas que não consegue mercantilizar. A burguesia ocidental pode até tratar melhor os seus cães ou os seus gatos, antropomorfizando-os, e desejar também genuinamente acabar com o sofrimento dos touros, mas o estilo de vida que pratica é responsável pela morte (e pela vida) em massa mais cruel da história do planeta, uma morte mecanizada, estandardizada, industrializada – fria, muda, escondida. Há um mês atrás o jornal inglês The Guardian classificava a pecuária industrial como um dos maiores crimes da história. O touro morre na arena ou pouco depois, mas não passou toda a sua vida numa sinistra linha de produção em cadeia, onde vive e morre silenciosamente o gado de que a maioria das pessoas se alimenta. Vale sempre a pena comparar o dia-a-dia de um touro que será “cruelmente” toureado com o de um frango que irá parar ao delicioso churrasco do restaurante da esquina:

Mas o que apoquenta os fervorosos activistas da causa animal não é como os touros vivem e sim como eles morrem. Na verdade, poucos são os defensores da causa animal que sabem o que é viver durante anos num ambiente tão “livre” e tão “feliz” como um qualquer touro insubmisso e rebelde desses de que se nutre o espectáculo “abominável” da tauromaquia. Efectivamente, poucos são os militantes da causa animal que conhecem a realidade da vida dos touros no campo. A sua crítica da tauromaquia tem por isso um ponto de crítica abstracta – ou seja, de crítica que por comodidade se abstraiu, pelo menos em parte, da realidade.

Quanto ao polémico espectáculo da sua morte, o touro, animal singularizado a quem se atribui um nome próprio, morre no decurso de uma luta em que à sua força bruta (reconhecida e admirada desde os inícios do  Paleolítico Superior) se opõe a coragem do toureiro que arrisca nada mais do que a própria vida; por sua vez o frango morre anonimamente numa fábrica asséptica de carne. O touro morre num combate, certamente desigual, mas no qual procura ao menos defender a sua liberdade, o frango não tem absolutamente nada para defender quando chega a hora da sua morte.

Para melhor se perceber o absurdo de alguns ecologistas elegerem as touradas como alvo prioritário convém referir que os touros representam uma das últimas formas de ganadaria extensiva da Europa, onde cada animal dispõe de vários hectares para desenrolar a sua vida. Acabar com as touradas representaria assim acabar com um ecossistema ecológico importante para a biodiversidade (onde proliferam vários animais selvagens, como raposas, javalis, abutres, cegonhas, etc.) e cada vez mais raro no conjunto do território europeu ultra-industrializado, para entregá-lo, muito provavelmente, à agricultura intensiva.

Para os defensores da causa animal, para quem a tourada não é arte nem cultura mas tão somente tortura, apenas seres sem sensibilidade se podem interessar por algo tão bárbaro. Terá sido certamente esse o caso, ao longo da história, de pintores como Goya, Delacroix, Manet, Monet, Picasso, Miró, Bacon, Alechinsky, ou de escritores como Luis de Góngora, Bataille, García Lorca, Hemingway, Michel Leiris, autores que se interessaram pela tauromaquia.

Da colecção ‘Toros y toreros’, Pablo Picasso, 1959

Depois de vermos que as touradas não são objectivamente mais cruéis do que a exploração intensiva de ‘máquinas anónimas de fabricar carne’, lancemos novamente a pergunta: porquê a obsessão dos “defensores dos animais” com o espectáculo taurino? Termino avançando uma outra hipótese: “porque as touradas contradizem a imagem asséptica e edulcorada que actualmente se tem do mundo animal” (Francis Wolff), imagem antropomorfizada, cujo estereótipo são os simpáticos e inofensivos animais da Disney.

walt-disney

Anúncios

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

27 thoughts on “O que faz mover os “defensores dos animais” em Portugal?

  1. gostei imenso…e já agora,não vamos esquecer que barata não é animal e não vemos manifestações contras as empresas que fazem desbaratização…

  2. E ainda outra hipótese: que o discurso público sobre touradas é muito mais fácil de veicular e é muito mais facilmente apreendido do que o discurso sobre os aviários (e a produção industrial de animais). Este cálculo é feito pelos grupos que sustentam a primeira opção.
    E ainda outro: entre desafiar uma cultura minoritária e regionalista e desafiar um modo de produção massificado num setor económico que movimenta milhares de milhões e dá emprego a milhares, qual é que escolhias?

  3. Companheiro, mais um post que não dá conta das sombras, apesar de parecer que dá (tal como quando escreveu sobre Ribeiro Telles: versão simplex). Se é certo que nem todxs na luta da causa animal o reconhecem, é inegável que a exploração animal é intrínseca ao capitalismo, seja na indústria agro-alimentar como aponta, SEJA NA INDÚSTRIA DO “ESPECTÁCULO” (incluindo as TOURADAS, mas também os circos, os oceanários, os aquamarines, etc e tal). Mas há quem abrace essa luta, sabendo que ela secciona muitas outras. Atrevo-me a dizer que ela é, talvez, a derradeira luta, porque não se defendem os animais – um touro, um lobo, um pombo, uma galinha, um porco, uma vaca, um cão ou um gato – por ser mais “humano” ou “humanista”, mas porque se reconhece (consciente ou inconscientemente) que também se é animal. Posto isto, aconselho-o a informar-se sobre as condições em que um touro entra na arena e, na tourada “à portuguesa” [SIC], como é que ele sai, o que lhe acontece depois. Além do mais, a tourada decorre de uma cultura marialvista e, portanto, patriarcal. Está a ver como isto é muito mais complicado e intersecciona efectivamente outras lutas, nomeadamente a feminista? (aliás, já que se interessa, a produção industrial de leite e lacticínios é hoje “the biggest feminist issue there is”). Na sua penúltima frase usou bem o tempo verbal: “interessaram”, no passado. Talvez se vivessem HOJE, alguns desses escritores e pintores não “glamourizassem” mais essa actividade “lúdica” do capitalismo (de todos os modos glamourização não é necessariamente coincidente com anuência, pelo menos no caso de Goya). De resto, eu acho que sei porque é que tanta gente está na causa animal e se “contenta” em salvar um gato, um cão ou até um pombo, mas não partilho esse “segredo” aqui. O que lhe digo é que esses pequenos gestos não deixam de ser micro-actos políticos da maior importância, mesmo (supondo) que os seus autores não estejam a pensar “macro”. Para alguém que é um adepto da micro e da cripto história e da(s) história(s) dos “outros”, não acha que há neste texto qualquer contradiçãozita (bom, ela é o princípio de tudo…eheheh). E viva a compaixão!

    1. Cara Inês, uma vez mais imensamente grato pelos seus comentários e respondendo aos 2 pontos principais que aqui levanta:

      – Sobre as condições por que que os touros passam antes, durante e depois das touradas, note que eu referi-me ao espectáculo da tourada usando expressões (sem usar aspas, logo sem imputá-las a terceiros, ou seja, elas traduzem exactamente o que eu penso) como ‘dor cruel’, ‘espectáculo sangrento’, ‘o touro que morre barbaramente na praça de touros’, ‘os touros que sofrem nas touradas’… Logo, não creio que a Inês tenha aqui razão no seu reparo de que eu me devia informar melhor sobre essas condições. O meu post já traduz tacitamente um conhecimento das mesmas.

      – Quanto ao segundo ponto, sobre o facto de ser um espectáculo eminentemente patriarcal, dou-lhe toda a razão. O meu post não dá efectivamente conta das sombras, como bem observa, longe disso, mas na verdade ele tinha um propósito bastante claro que (não era ser a última palavra sobre as touradas mas) era simplesmente evidenciar que, em Portugal, a quase inexplicável obsessão anti-touradas leva os “defensores dos animais” (agora, sim, com aspas) a desviarem as suas munições dos dois ‘issues’ que urgem ser discutidos no momento histórico presente, pelo impacto INFINITAMENTE superior que representam sobre a vida animal. Pelo caminho, tentei caracterizar ‘sociologicamente’ um tal movimento de “defensores dos animais”. Descrevi-o enquanto típico movimento cívico de classe média perfeitamente em linha com os princípios basilares do capitalismo ético, despolitizado, a-histórico e possuindo uma boa dose de futilidade e hipocrisia, movimento esse composto maioritariamente por gente incapaz de ver para lá da pequenina bolha que habita. E creio que é essa caracterização ‘sociológica’ que permite responder à questão que o post lança sobre o que faz mover os “defensores dos animais” em Portugal.

      Saudações do campo.

  4. Boas.

    Isto é que foi escrever!

    Sobre as classes…

    – Só a classe média utiliza máscara! É o que retiro do texto…

    A classe miserável nem sequer tem acesso a hipermercados, apenas tem aos caixotes do lixo e são os seus membros vistos pelas classes “superiores” como sendo animais não-touros! Serão algo como os porcos que podem ser vistos após seguir a ligação lá de cima para o “The Guardian”.

    A classe pobre entra, de quando em vez, nos hipermercados, especialmente nos feriados em que há descontos anti-concorrência! De resto deambula por entre bancos alimentares contra a fome (BACF) e outras IPSS!
    BACF estes que não são senão apenas uma forma de perpetuar a pobreza! Outra conversa…

    A classe alta está afastada da média e da miserável pois mandam os seus empregados, oriundos da classe pobre (e eternamente – até serem despedidos – gratos pelo trabalho), efectuar as incomodas tarefas de compras e levar o cão de raça a fazer cóco!

    A classe dos Donos… Bem sobre esta classe não se pode falar, pois as outras classes são constituídas por animais que se julgam “seres livres”, tais touros… Antes dos jogos claro!

    A tentativa de misturar sistemas inventados pelos actuais animais humanos para justificar a forma como nós usamos os outros seres vivos não deixa de ser curiosa! O capitalismo e a explosão no número de animais humanos apenas multiplicou a miséria. Não a criou nem a inventou!

    Como o touro tem a benesse dos Humanos para viver uma vida em semi-liberdade e, pelo que li, isto só por si já extingue a desumanidade e ausência de compaixão por este ser vivo, que irá ser furado e sangrado até à morte.

    O mesmo se passa com os cavalos para as corridas, os galgos, as ratazanas… Enquanto dão lucros dignos da designação são tratados de melhor forma que os animais da classe miserável, quando deixam de dar lucro, ou são abatidos ou são abandonados à sorte!

    Outra que me passou ao lado é a do touro estar na arena a “defender a sua liberdade”!

    Mesmo “ganhando” o jogo (furando devidamente o outro animal que participa no jogo e com sorte o mata… o “game-over”) acaba sempre por ser abatido! E nunca, mas nunca, “ganha a liberdade”!

    Quando para preservarmos ecossistemas temos de recorrer ao sangue de outros seres vivos derramado em arena de jogos… Muito está dito sobre a falta de compaixão e espírito do animal humano!

    Também não vejo com é que a evocação de uns quantos pintores, que sujaram umas telas com tintas revelando – o sujo – actividades dos jogos em causa, eleve a sua natureza cultural e sensível destes jogos?

    Comparar níveis de crueldade? Já dá para tudo de facto!

    Finalmente, e porque não quero escrever mais que o autor desta mensagem, a única razão pela qual existem estes espectáculos – e não estou a referir apenas as touradas – destes é porque o animal humano nunca deixou de de ser um animal.

    O Animal Umano…

    Be cool

    1. Caríssimo/a voza0db,

      Isto é que foi comentar!

      Sobre as classes… tanto haveria a dizer sobre as classes. Em particular sobre a classe média, a pequena burguesia a que o post afinal de contas se refere, mergulhada na sua bolha, a sua bolhinha, insignificante, desligada do colectivo e da história, pequenina, ínfima, egoísta, mas SAGRADA. Mas deixemos isso para outra ocasião, seguramente mais propícia…

      Quando diz “Como o touro tem a benesse dos Humanos para viver uma vida em semi-liberdade e, pelo que li, isto só por si já extingue a desumanidade e ausência de compaixão por este ser vivo, que irá ser furado e sangrado até à morte”, só lhe posso dizer que leu mal, bastante mal mesmo: onde é que escrevi ou sugeri tal coisa? Repito o que escrevi acima em resposta a outro comentário: “Sobre as condições por que os touros passam antes, durante e depois das touradas, note que eu referi-me ao espectáculo da tourada usando expressões (sem usar aspas, logo sem imputá-las a terceiros, ou seja, elas traduzem exactamente o que eu penso) como ‘dor cruel’, ‘espectáculo sangrento’, ‘o touro que morre barbaramente na praça de touros’, ‘os touros que sofrem nas touradas’…”

      “Outra que me passou ao lado é a do touro estar na arena a “defender a sua liberdade”!” Vai sempre a tempo de não passar ao lado: uma vez na arena o touro jamais ganhará a sua liberdade, é um facto como bem observa, mas ele morre sempre a defendê-la, porque, ao contrário do frango de aviário e da esmagadora maioria de animais domesticados pelo homem, ELE JÁ A TEVE (é este detalhe que faz toda a diferença). E teve-a durante pelo menos 4 anos…

      “Quando para preservarmos ecossistemas temos de recorrer ao sangue de outros seres vivos derramado em arena de jogos… Muito está dito sobre a falta de compaixão e espírito do animal humano!” A crítica muito abstracta e genérica ao ‘humano’ como o mal de tudo, a fonte de todos os pecados, como você parece em geral fazê-la, é demasiado inocente. Ela descontextualiza esse tal “humano” malvado da sociedade concreta em que ele vive – e aqui ela aproxima-se da crítica religiosa, em particular católica. Mas sem sociedade não há “humano”. Deixemos pois o “humano” em paz e analisemos minuciosamente o funcionamento das suas sociedades…

      “Também não vejo como é que a evocação de uns quantos pintores, que sujaram umas telas com tintas revelando – o sujo – actividades dos jogos em causa, eleve a sua natureza cultural e sensível destes jogos?” Que raio de autoridade (divina?) terá o/a voza0db para afirmar que esses pintores sujaram umas telas e o voza0db não me está a sujar o ecrã com todos estes seus caracteres?

      Saudações.

  5. Boas!

    Claramente a noção de “liberdade” anda algures perdida dentro de um campo delimitado por muros e vedações – algumas electrificadas – mas enfim… E acha que a “liberdade” é isso!

    Quanto à sua caracterização da minha crítica do animal humano, como sendo abstracta e genérica, é apenas a sua visão, porventura igualmente protegida por uma bolha de protecção contra a realidade.

    Os factos observáveis hoje em dia mostram claramente que nos locais onde deixaram de existir animais humanos a Natureza regressa do estado mórbido.

    “Deixemos pois o “humano” em paz e analisemos minuciosamente o funcionamento das suas sociedades…” Sendo as sociedades fruto do pensamento dos “humanos” devemos não desperdiçar tempo e energia a olhar para o fruto, mas sim analisar criticamente a “árvore” que andam a deixar cair tais frutos!

    A autoridade que tenho é a de ser um animal humano com liberdade para comentar e afirmar o que penso!

    Se o PDuarte considera os meus pensamentos sujos tem solução fácil e rápida… E quem sabe se fazendo tal acção não se aproxima um pouco mais da divindade?

    Be cool

    1. Companheiro/a,

      Nesta sequência de ideias afirma duas coisas mais ou menos contraditórias.

      Refiro-me a isto: “Quanto à sua caracterização da minha crítica do animal humano, como sendo abstracta e genérica, (…) os factos observáveis hoje em dia mostram claramente que nos locais onde deixaram de existir animais humanos a Natureza regressa do estado mórbido.”

      E depois isto: “A autoridade que tenho é a de ser um animal humano com liberdade para comentar e afirmar o que penso!”

      Em que é que ficamos? Na apologia do desaparecimento dos animais humanos ou na apologia do animal humano enquanto ser livre capaz de comentar, de afirmar e de pensar?

      (Será mesmo assim tão mau ser-se humano?)

      Volte sempre.

      1. E cá estou… De volta!

        Não sei o que é isso de “mais ou menos contraditórias”!

        A primeira afirmação é a constatação da realidade de que o animal humano vem há milénios a espalhar tortura, morte e destruição. Seja em animais da sua espécie seja em animais de outras espécies! Isto é um facto.

        O facto de afirmar que sou um animal humano com liberdade para comentar e afirmar o que penso apenas significa que não me escondo atrás da ilusão que as palavras “ser humano” geram a quem se auto-intitula desta forma!

        De resto como já escrevi o desaparecimento dos animais humanos provoca o renascer da Natureza.

        (dada a realidade dos tais milénios passados, e do presente, não sei como se pode achar que ser-se animal humano é algo de bom! Claro que os que removem a condição real de animais que são e existem sob a aconchegante ilusão da Humanidade creem que ser-se humano é fantástico! E pensam isto enquanto assistem a um espectáculo tauromáquico “O Homem domina o touro”!)

        Be cool

  6. Acho piada à forma como se atreve a ser quase mal educado… Eu sou anti touradas, mas não me lembro de o conhecer, nem de o ver a conviver com a minha familia para se autoconceder o direito de me chamar uma série de coisas perfeitamente idiotas.
    Nota-se que é um apaixonada pelas touradas.. Se assim não fosse, não teria escrito as barbaridades absurdas que escreveu para defender uma actividade tão nobre quanto a caça ás bruxas.Que há muitos erros e muita crueldade praticada contra os animais todos nós sabemos… Mas não se muda o mundo com um estalar dos dedos. Pelo menos, como anti touradas, faço o possível para que as coisas vão mudando para melhor… O senhor faz o quê, para além de escrever textos a defender touradas??
    Seria bem mais honesto da sua parte defender as touradas de forma clara sem recorrer a desculpas esfarrapadas de “defesa das galinhas” etc
    Essa é uma defesa da ética à moda de alguns dos nossos (in) corruptos politicos… Há que haver algum cuidado quando se escreve…. Não me lembro de lhe dar qualquer permissão para se referir a mim, como anti tourada, da forma que o fez!
    A propósito… gosto bastante dos animais da Walt Disney. São gostos…. os senhor, pelo que diz, gosta de vinho!

  7. O que é que pretendem?
    Desviar a nossa atenção da CRUELDADE, para que continuem a divertir-se à custa da tortura dos Touros?

    Só os parvos é que não sabem que quem PUGNA pela vida de um Touro, que é barbaramente torturado para divertir sádicos, pugna pela vida de TODOS os animais, desde os mamíferos (humanos e não humanos) aos insectos.

    Mas vamos por partes: primeiro acabe-se com a CRUELDADE para divertir criaturas desqualificadas, que não pertencem aos reinos nem Animal, nem Vegetal nem Mineral. Vá-se lá saber a que “reino” pertencerão…

    Ao mesmo tempo, acabe-se com a CRUELDADE contra todos os seres vivos que os que se dizem racionais praticam seja para o que for…

    E ao mesmo tempo acabe-se com esta mania de criticar quem faz alguma coisa ÚTIL na vida, porque os que criticam, não passam de uns inúteis, de uns PARASITAS que só andam no mundo a criticar, mas nada fazem para ACABAR com TODAS AS CRUELDADES de que só os que se julgam superiores na um lagarto são capazes.

    Sejam HOMENS, uma vez na vida.

    1. Isabel Ferreira, os insultos que me dirige são de quem não tem no discurso grande coisa de substancial para acrescentar ao debate. Se quiser que eu volte a aprovar algum comentário seu nesta caixa de comentários terá de aprimorar um pouco os argumentos (e não basta gritar CRUELDADE 4 vezes).

      1. Sentiu-se INSULTADO? Lamento.
        Esse é o argumento de quem não consegue discernir e confunde insulto com verdade, ódio com indignação, argumentos com desargumentos, enfim…

        Não preciso de dizer mais.
        Conheço bastante bem o género de “pessoas” que quando querem fugir com o rabo á seringa, fingem-se de mortos, ou sentem-se INSULTADOS.

        A mim, só me INSULTA quem eu deixo. E obviamente, não DEIXO.

        E a propósito, as maiúsculas não são gritos. São simplesmente palavras que eu quero DESTACAR. É essa a função das letras maiúsculas, na Língua Portuguesa.

        Bem, e se não publicar este comentário, para mim tanto faz…
        O meu “recado” é para si, e isso basta-me.

      2. Não aprimorou os argumentos (já tinha ficado explícito que não os tem), mas eu publico à mesma os seus caracteres estéreis, supérfluos e inúteis. Apenas porque demonstram algo que neste debate gostaria que ficasse claro: que não há nada que distinga um fanático dum analfabeto – como também compreendeu um comentador mais abaixo…

  8. SINCERAMENTE NEM DOU VALOR AO QUE LI,,,, POIS QUEM ESCREVEU É SO MAIS UM QUE ENCHE OS BOLSOS A CUSTA DE ALGUEM, SAIA DO SOFA E LUTE NOS HIPERMERCADOS A FAVOR DAS GALINHAS… ESCREVER É MUITO FACIL, QUERO BE LO NA RUA POR UM MUNDO MELHOR,,,, FORÇA

  9. Mais um belíssimo texto. Assim dá gosto ir passando por aqui.
    O que desanima é nivel dos comentários. Esta gente nem sabe ler quanto mais defender seja o que for.
    Cumprimentos

    1. Desanima-o a si e a mim. Há dois anos a escrever aqui e, exceptuando meia dúzia de comentadores mais ou menos assíduos (onde se incluem a Inês B. e o M., curiosamente ambos presentes nesta caixa de comentários), ainda sem conseguir aproximar-me de comentadores críticos, perspicazes, finos, elegantes. Desanimador…

      (Cumprimentos retribuídos!)

  10. Grande texto. Directo ao essencial, desmontando a hipocrisia dos “defensores dos animais”, preocupados com a centena de touros que morre por ano e não com os milhares de animais selvagens que são caçados por semana.
    E, já agora, grande parte do sofrimento do animal desapareceria se fosse permitido matar o touros na arena. Mas isso não pode ser, que é muito violento. Não faz mal, fica-se em casa a ver o CSI, onde não há mortes nem sangue

  11. Caro PDuarte,

    Escrevo-lhe sem saber ainda se este meu comentário irá ou não «passar» a moderação do seu blog, espero sinceramente que sim, apesar do que aqui lhe vou escrever não confirme, antes pelo contrário desmonta 3 argumentos falsos onde assenta toda a sua exposição.

    Primeiro e por uma questão de honestidade intelectual para consigo, porque acredito que o que aqui escreve reflecte exactamente o que pensa sobre o tema, devo dizer-lhe que não sou por principio contra as touradas, mas «tão só» contra a necessidade de picar e sangrar o animal para fazer do seu sofrimento um espectáculo.

    Primeiro argumento falso:
    A exploração de animais para consumo humano, que decorre da actividade agro-pecuária de natureza industrial não é uma actividade exclusivamente capitalista, pois todos os regimes politicos vivem ou dela viveram, incluindo os comunistas, sejam eles na Venezuela, ou Cuba, sejam os da antiga União Soviética ou de qualquer um dos países ligados ao extinto pacto de Varsóvia.

    Ligar o CAPITALISMO à exploração económica dos animais, não passa portanto de mais um argumento ideológico, vazio de sentido, conteúdo e veracidade.

    Segundo Argumento Falso
    O de que os que são contra as touradas, não se importam com a exploração dos animais para consumo humano.
    Este argumento cai por terra, quando se sabe que praticamente todos os que são contra as touradas são Vegetarianos ou Vegans, pelo que em nada contribuem para a exploração dos animais para consumo humano.

    Logo afirmar que os defensores dos animais só se preocupam com o sofrimento dos Touros, é falso.

    Terceiro Argumento Falso
    O de que os defensores dos animais, não são contra a caça, ou qualquer outro tipo de divertimento ou espectáculo que use os animais para divertimento humano.

    É falso. Os defensores dos animais defendem todos os animais de todas as actividades humanas, que deles se aproveitam, exploram e mal tratam.

    Para finalizar, e depois de já ter aqui deixado bem claro que não sou contra as touradas, também não sou a favor delas.

    Para mim o importante é de facto evitar o sofrimento do animal, nomeadamente o espeto de bandeirilhas no dorso do animal e o consequente sangramento, pelo que lhe pergunto, senão haverá forma de proteger o animal desse sofrimento, nomeadamente com artefactos próprios que permitam o espeto das bandeirilhas num coto de borracha própria e especial, equipado com uma pequena rede de aço que protege e evita o animal de ser espetado, por um lado e por outro lado, senão há possibilidade do animal ser lidado mais que uma vez de forma a cansá-lo antes de ser pegado pelos forcados ?

    São a meu ver estas as questões que os defensores das touradas se devem colocar se a prazo querem de facto preservar as mesmas, assim como a utilidade de criação de um animal que infelizmente só existe para este fim.

    Temo que ao persistirem na defesa da manutenção da parte mais selvagem e cruel do espectáculo, intacta, mais tarde ou mais cedo os que defendem o fim das touradas venham a dispor de apoios gradualmente crescentes no seio de uma população que vê o sofrimento animal de uma forma cada vez mais humana, e o sofrimento de animais para puro divertimento das pessoas, de forma cada vez mais cruel e desumana.

    Cordialmente

    Cordialmente

    1. Carlos Sousa, muito obrigado pela sua exposição, que passo a desmontar:

      1 – Podíamos discutir se os chamados socialismos não foram/são ‘capitalismos de estado’ (há muitos autores que o defendem e eu serei um deles). No ‘nosso’ capitalismo (neoliberal), ninguém no agrobusiness projecta uma exploração agrícola/pecuária tendo em conta a dignidade da vida das plantas, dos animais ou do ecossistema (nem de quem trabalha ou de quem consome), já que essa preocupação faz reduzir e não aumentar os lucros, que são, afinal de contas, a única razão de existir do agrobusiness. A vida (que os animais levam) torna-se um assunto economicamente irrelevante para o agrobusiness. E isto é um facto da economia capitalista que explica aquilo a que me refiro no post. Que isto não é monopólio absoluto do ‘nosso’ capitalismo, claro que não é. Não é você que me vai ensinar que, na URSS, a agricultura intensiva, por exemplo, secou o mar de Aral. E em que é que isso contraria o que eu escrevi?

      2 – Jamais escrevi que “os que são contra as touradas, não se importam com a exploração dos animais para consumo humano.” A única coisa que eu digo é: “existe efectivamente uma obsessão nos animalistas portugueses (não em questionar o modo como a sociedade capitalista lida com a questão animal mas) em atacar isoladamente as touradas”. Trata-se de uma opção estratégica que todos os animalistas reconhecem estar a ser tomada em Portugal (as manifs. nas ruas e nos média demonstram-no perfeitamente). Para mim ela é patética, hipócrita, vã e egoísta e creio ter explicado porquê. Num post posterior que entretanto publiquei talvez o explique um pouco melhor.

      3 – Os defensores dos animais defendem todos os animais, pois claro que defendem. Eu é que por azar vivo num lugar chamado Portugal onde eles têm uma obsessão ridícula, as touradas, que os faz desviar uma parte muito importante das suas energias da massa gigantesca de animais que estão a ser barbaramente explorados no agrobusiness e extintos na natureza. Repare que eu também sou defensor dos animais. Não porque assinei uma petição contra as touradas, mas porque deixei de comer carne e peixe há vinte anos, porque boicoto hipermercados e aviários, contribuo para uma associação local de defesa dos animais, pratico e divulgo agricultura biológica…

      Saudações.

      1. ainda gostei mais deste ponto 3…não tenho essa capacidade de escrita, não tenho pachorra para manifs para tv, a minha posição é essa mesmo: escolher todos os dias embora tenha acordado para esta realidade tarde e vá demorar muito a encarreirar

Deixe o seu comentário.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s