“Outono”, por Kareef

12168002_10153017291090146_1244726146_n

O Outono tarda e o limbo instalou-se silenciosamente, perniciosamente, minando a cores escuras um céu que se despede do azul. Foi o Outono que lhes deu, certamente, rasgando os céus com labaredas pinceladas nos dias curtos e o chão coberto de folhas secas. Ninguém sabe precisar o exacto momento do encantamento. Não havia nada que o fizesse prever. Nem cheiro, nem forma. Apenas palavras, música e um luar em forma de piano. Ou terão sido as causas comuns e a estupefacção por um mundo demasiado permeável ao medo. O que é certo é que as palavras acumularam-se ao longo do fio seguro, para depois brotarem todas juntas numa torrente estupefacta, que inevitavelmente conduziu a sequência ordenada de acontecimentos que levariam à janela sobre o mar negro. Foi certamente culpa do Outono, que as demais estações nunca se oferecem assim.

Avizinhou-se envergonhado, lambendo as árvores já meio despidas e espalhando os castanhos e laranjas pelo chão, trincadas depois pelos sapatos dos que se passeiam resistentes aos guarda-chuvas torcidos pelo mesmo vento que antes lambia de mansinho os ramos ainda vestidos, voando desta vez aos tropeções como uma ave perdida. A chuva cai igualmente sem ordem, transformando a terra em incenso. As cabeças iam altas como o vento, entre drogas e revoluções tudo corria num andamento ritmado sem que se apercebessem, ou talvez se apercebessem mas não quisessem saber desses pormenores estéticos de se compreender exactamente o que se passa dentro das palavras.

Existiu uma noite em que músicos bêbados discutiram os mistérios do Universo, cada um mais seguro do que o anterior de que teria a chave secreta que explicava a origem da vida e todos os seus improváveis sucedâneos cósmicos. Tu dizias que devia inventar-se uma máquina para realizar os sonhos dos bêbados e dos loucos e eu dizia que não, porque há bêbados cuja imprudência não faz nenhuma magia. Trocámos os céus, um céu do Sul e um céu do Norte, as labaredas do Outono espalhavam-se estáticas, incendiando as nuvens e recortando as silhuetas de festas passadas. Queria saber da tua voz. Imaginei-a grave e com a frequência espaçada de um violoncelo ou de um contrabaixo. Depois aconteceu a música. A música acontece sempre, a toda a hora, na minha cabeça, como uma jukebox antiga, girando discos sem parar, discos do passado e do presente, pianos e violoncelos e acordeões em sequências aleatórias.

Perguntava-me que se teria passado com o Outono, que me tirava da caminhada mansa que traçava os meus dias, sem convulsões, apenas convenções apaziguadas. Eu, adepta de todas as revoluções, fervorosa em todas as lutas, cedendo mansamente ao que os outros querem que seja feito do amor. Era tarde. Os pensamentos incendiavam na viagem que precedeu o encontro desde a nesga de sol de um dia cinzento de Outono que levei comigo. O comboio seguia sereno pelos carris, compassando o tempo. Cancelar tudo, voltar à estabilidade mansa de uma vida dogmática, extrair as borboletas do Outono que passaram a morar dentro do meu ventre, através de processos científicos racionais e certos. Não. Ela seguia ao contrário do comboio.

Um homem lia o Livro do Desassossego no banco em frente. Poderia ter saído em qualquer uma das estações, voltaria para trás, pagaria o bilhete, silenciaria a sequência de pensamentos entre música. Mas em vez disso entrancei o cabelo. As minhas bochechas ficaram quentes e vermelhas sem motivo. Senti que as pernas cederiam se estivesse demasiado tempo de pé. Tu estarias lá, no destino, na forma de um corpo desconhecido, uma personagem materializada de palavras e música, uma voz certamente grave e bela. Não saí em nenhuma das estações. Olhei silenciosamente o homem do Livro do Desassossego. Olhei as árvores e os céus deformados pela velocidade compassada do comboio, esfumando os meus pensamentos em consonância. Por uns pés que oscilavam, caminhou da forma mais firme possível estação fora, sem saber onde estaria, o chão liso e claro diminuindo a distância e esfumando o tempo.

Continuaria a andar, estação fora, em ziguezague descontínuo entre as malas e as pessoas em todas as direcções. E foi assim que os sorrisos se cruzaram e se reconheceram mesmo nunca tendo estado juntos em lugar nenhum. Sorriu olhando e continuo a caminhar desejando não tropeçar sem querer e apesar do pé trémulo consigo chegar ao abraço sem torcer um pé ou deixar cair as malas. Ele era como ela imaginava, uma mistura de todas as imagens, uma nova forma conjunto de todos os ângulos formando novos e palpáveis ângulos e  formas. A cara talvez menos redonda, mas as três linhas da testa eram uma réplica perfeita do que já tinha imaginado, e ela quis beijá-las. Ficou o riso silencioso, enquanto ele, inquieto, caminhava de um lado para o outro tentando disfarçar as mãos nervosas. Um malte e um par de castanhas formaram o primeiro parágrafo, de um Outono em carne viva. Ele agarrou-lhe a mão, ela corou e sorriu inquieta. As mãos eram reais, uma forma de homem que lhe segurava a mão pequena e branca. Ele falava mais do que a timidez das mãos pequenas e brancas permitiam que se falasse. Ela pensava em beijar-lhe as três linhas da testa desde o primeiro minuto… mas talvez alguém os visse e assim, com a distância medida, acreditariam que não seriam mais do que dois desconhecidos frente a frente, cujos olhares, apesar de cúmplices, se cruzavam ao acaso. Talvez ouvindo as palavras que lhes brotavam da boca a suspeição existisse. Dois desconhecidos falam do amor e os olhos cruzam-se com fome, talvez nem toda a gente pudesse estar atento a essas nuances, a curva do sorriso ligeiramente mais tensa e nos olhos uma labareda reminiscente dos céus rasgados em laranja e vermelho. Ficaria. Para o bem ou para o mal, ficaria.

Haveríamos de escrever esse conto, numa janela sobre o mar revolto. Tu falavas e eu agradecia, parcas que estavam as minhas palavras, mas nem assim os silêncios ficavam mal na prosa. Falaram do amor e da liberdade e mesmo sem saberem percorreram os pensamentos que a tinham atormentado nos últimos dias, como se ele tivesse estado dentro da cabeça dela a dissecar cada pensamento, cada bocado de culpa que entretanto, não sei porque que razão concreta, se havia dissipado. Falavas desse amor que não prende e que não julga e que é tão tentador quanto inteiro. E eu argumentava silenciosamente que não vivemos nesse Universo sem barreiras onde nos encontrávamos. Que as pessoas são frágeis e é tão fácil destruí-las. Que as outras pessoas acreditam copiosamente que detêm a verdade, tal como aqueles músicos já bebidos acreditavam ter a chave do Universo que desvendasse todos os sentidos do mundo. Tal como se desvendariam um ao outro. Coisas tão simples como os dedos de duas mãos desconhecidas a encaixarem perfeitamente. Era bonito estar ali contigo numa janela sobre o mar revolto, rugindo violentamente sob o tecto de madeira. Jantaram, entre silêncios e tilintar de copos e talheres, as palavras eram sempre mais dele do que dela. A voz ecoava serena através das labaredas da lareira, fazendo justiça às cores da estação e aos bichos que não paravam de dançar no estômago. Eu bebia rapidamente, na esperança que as palavras fluíssem da minha mente, rebentando dos meus pensamentos para a minha voz. Queria tanto beijar-te mas não me atrevia a interromper o diálogo agora era apenas feito a solo, pelos dedos.

Logo atravessámos a praia deserta e húmida, o céu negro coberto de nuvens e o mar rugindo ao fundo, sem percebermos bem onde acabava a areia e começava a água, e pediu-lhe que ficassem ali por um instante. Ele aproximou-se e abraçou-a e ela deu inicio a um beijo lento que durou o tempo de uma sequência de respirações profundas. Foi devagar que os corpos se aproximaram pela primeira vez, deitados na areia molhada, encontrando-se caminhos pela roupa até ao batuque das veias, desenhando-se na pele constelações de sinais e procurando-se memorizar detalhadamente o caminho mais lento que levaria da orelha até ao nariz, atravessando a boca e os olhos revoltados. A nesga de céu limpo antevia constelações mas o resto era negro e opaco. Uma luz laranja iluminava a praia ao longe, e a humidade deixava rolos de fumo no ar pesado. Não é determinável o tempo que durou esse abraço ou esse beijo que deixou de ser perceptível onde se iniciou e onde terminaria. O que é certo é que o mar ficou ciumento e avançou sobre eles de mansinho, terminando assim esse abraço que, se não fosse tocado, teria permanecido assim até ao nascer do sol.

Depois chegou a hora do refúgio, da janela aberta sobre o rugido do mar, onde fumaram cigarros em silenciosos murmúrios. Assim permaneceriam, os corpos procurando o contacto quente do outro corpo, a pele esfomeada de pensamentos transformados em pele. A floresta densa do teu peito foi o caminho que escolhi até ao sexo. A estranheza dos corpos nus quando se desvendam pela primeira vez e regressam sistematicamente um ao outro entre cigarros. No peitoril da janela, uma toalha curta envolviam os corpos e as pernas pendiam, despidas, para o abismo que se havia inaugurado. A humidade de fora da janela prendia-se aos poros, microscópicas gotas de orvalho salgado agarrando-se à estranheza dos nus. A noite seguiu, na estranheza de uma intimidade improvável, num desvendar de corpos e ritmo, lento, vagaroso, uma mistura doce entre peles salgadas. O cheiro quente do teu cabelo e do teu sexo. Os dedos dele a destrançar-lhe os cabelos espalhando-os como braços de anémonas espalhadas pelos lençóis brancos. Agora já só o mar falava, rugia aos pés da cama enorme pela janela escancarada, e puxava a noite para dentro do quarto.

A manhã trouxe o sol e um abraço. O cheiro dele espalhado no meu peito, outro abraço, as pernas procurando-se ávidas de continuação, as labaredas caindo dos olhos para o colo e as mãos entrelaçadas. Em frente, de frente, caladas, uma filha mulher e uma mulher mãe acabam por chamar a sua atenção. Eram belas, ambas, a filha de pele de porcelana, lábios de veludo vermelho e opaco e olhar fugidio, a mãe, firme e segura, guardava a boca entreaberta e silenciosa enquanto a filha olhava pela janela e sorria por dentro sem que a mãe notasse, procurando uma fuga na paisagem para o nosso abraço, que secretamente invejava. Imaginei um beijo, imaginei-a nua entre nós, dentro do mesmo abraço. Eu ama-la-ia primeiro sozinha, depois com ele, e depois deixariam os corpos submersos nas vagas das marés vivas.

A minha cabeça estremece. Assim é com as histórias simples que nos deixam a fantasia à solta. Eu quero que os contos, contem.

Deixe o seu comentário.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s