“Testemunho do atentado em Ancara”* por Chris Stephenson.

«Este é o mais recente duma série de eventos violentos que têm ocorrido desde que se tornou claro que o HDP (Partido Democrático do Povo) iria ter votos suficientes nas eleições legislativas de 7 de Junho para negar ao presidente Recep Tayyıp Erdoğan a maioria parlamentar que ele precisava para impor um executivo presidencial Putiniano. Antes das eleições houve 170 ataques violentos a escritórios do HDP, ataques à bomba em escritórios do HDP em Adana e Mersin, e depois o ataque à bomba do último cortejo final pré-eleitoral do HDP em Diyarbakır, que matou quatro pessoas.»

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Há muito mais a relatar, mas preciso de me dedicar à organização do que vamos fazer no meu emprego amanhã.

Um duplo ataque à bomba suicida numa marcha pela paz organizada por sindicatos em Ancara no útimo sábado matou mais de 100 pessoas e deixou mais de 500 feridas.
A marcha for a convocada por dois sindicatos: DISK e KESK, a ordem de engenheirxs e arquitectxs e a Associação Médica Turca. Centenas de autocarros organizados pelos sindicatos trouxeram milhares de pessoas de toda a Turquia para o ponto de encontro perto da estação ferroviária de Ancara.

Juntámo-nos em frente à estação ferroviária de Ancara. Enquanto organizávamos o nosso contingente, distribuíamos bandeiras e faixase nos preparávamos para entrar na formação da marcha ouvimos dois grandes estrondos. Pessoas começaram a chorar. Fizemos o que conseguimos opara tentar parar o pânico e por as pessoas a andar calmamente, não a correr, para longe da explosão. As pessoas tinham perdido os seus sapatos, xs amigxs, a compostura. Enquanto nos afastávamos vimos partes de corpos humanos espalhadas pelo chão, atiradas pela força das explosões. Apercebemo-nos agora que teríamos estado a meio do caminho entre as duas explosões e a cerca de 30 metros de cada uma delas.

Virámos numa esquina e passámos por baixo da ponte dos comboios. Lá vimos polícia de intervenção a aproximar-se a toda a velocidade, enquanto que as ambulâncias eram forçadas a esperar.

Sabemos agora que agendes desta polícia de intervenção atacaram pessoas que ajudavam na assistência a quem tinha sido atacada com gás lacrimogéneo e canhões de água enquanto que xs mortxs continuavam deitadxs no chão.

Bodies of victims are covered with flags and banners as a police officer secure the area after an explosion in Ankara, Turkey, Saturday, Oct. 10, 2015. Two bomb explosions apparently targeting a peace rally in Turkey's capital Ankara on Saturday has killed many people a news agency and witnesses said. The explosions occurred minutes apart near Ankara's train station as people gathered for the rally organized by the country's public sector workers' trade union. (AP Photo/Burhan Ozbilici)

Tínhamos viajado de Istambul a Ankara num autocarro de trabalhadorxs dos correios. Antes que pudéssemos regressar a Instambul, precisavamos de esperar por notícias de toda a gente [que tinha ido no nosso autocarro]. Finalmente um trabalhador cuja perna tinha sido retalhada por estilhaços de bomba chegou num táxi. Tivémos de pegar nele ao colo para subir para o autocarro. No hospital nem sequer lhe tinham dado uma canadiana. Ouvimos dizer que o presidente da filial número 9 do sindicato dxs trabalhadorxs dos correios estava nos cuidados intensivos. Com os corações pesados, voltámos para casa.

Este é o mais recente duma série de eventos violentos que têm ocorrido desde que se tornou claro que o HDP (Partido Democrático do Povo) iria ter votos suficientes nas eleições legislativas de 7 de Junho para negar ao presidente Recep Tayyıp Erdoğan a maioria parlamentar que ele precisava para impor um executivo presidencial Putiniano. Antes das eleições houve 170 ataques violentos a escritórios do HDP, ataques à bomba em escritórios do HDP em Adana e Mersin, e depois o ataque à bomba do último cortejo final pré-eleitoral do HDP em Diyarbakır, que matou quatro pessoas.

O partido de Erdoğan, AK, fez um pacto com o diabo na forma de estado profundo da Turquia, o aparato secreto dentro das forças de segurança que foi responsável por anos de terror na década de 1990, quando milhares foram vitimas de “assassinato de autoria desconhecida” ou simplesmente desapareceram, tendos os ossos sido dissolvidos em poços de ácido.

Tal como na década de 1990, os assassinatos atribuídos a “terroristas”  provocam medo e ódio. Anos depois descobriu-se que não foram obra de “terroristas” mas levados a cabo, ou encomendados, ou arranjados, pelo estado profundo.

O evento único mais importante que precedeu a intensificação da violência na Turquia e o fim do cessar-fogo de dois anos com o PKK foi o atentado à bomba em Suruç que matou 33 jovens activistas socialistas. O Primeiro Ministro Davutoğlu agora diz que o governo “apanhou a pessoa responsável”. Isto foi um ataque suicida. Nenhuma pessoa viva alguma fez foi responsabilizada, apesar de se saber que quem detonou a bomba estava a ser seguidx pelas forças de segurança. Acusaram o Estado Islâmico de autoria do atentado, mesmo que o ávido de visibilidade pública Estado Islâmico não o tenha reclamado, apesar de a BBC dizer o contrário. O bombista pode ter acreditado ou não que estava a agir pelo Estado Islâmico, mas não se conseguiu estabelecer nenhuma ligação efectiva.

Mas foi uma intervenção dos Estados Unidos depois de Suruç que deu início à intensa violência estatal sob a qual vivemos agora diariamente. Em troca do usufruto da base aérea de Incirlik no Sudeste da Turquia por aviões de guerra dos EUA para bombardear a Síria, os EUA deram luz verde aos bombardeamentos por raids áereos de aviões de guerra Turcos em alvos Curdos no Iraque e na Turquia.

Agora, terra por terra, cidade por cidade, as forças de segurança do estado Turco declaram recolher obrigatório, atacando a população e detendo representantes locais oficiais de eleições. Estão a tentar forçar estes oficiais de eleições a declarar que as eleições não podem ocorrer em segurança nestes distritor onde o HDP habitualmente tem 80-90% dos votos.

Mas toda esta violência e repressão não parece ter efeito. As sondagens não mostram nenhuma queda no apoio ao HDP. Se há alguma mudança, o apoio entre Curdxs em risco está a aumentar. O apoio ao HDP entre Turcxs e outros grupos étnicos também não tem diminuido. A resposta do governo, do presidente, e das forças do estado profundo da Turquia a quem estão aliados, é intensificar ainda mais a violência.

A cada semana a violência, a repressão e supressão da liberdade de expressão está a aumentar. O co-presidente Selahattin Demirtaş ia falar esta semana no Bugün, num pequeno canal de televisão. 24 horas antes da emissão, esse canal e alguns outros foram retirados do satélite televisivo Digiturk pelo Ministério Público por “apoiarem o terrorismo”. Um desses canais de televisão era um canal infantil.

O que nos traz ao ataque de sábado em Ankara.

O governo não declarou três dias de luto pelas vítimas de Ankara. Declarou três dias de luto pelas vítimas de Ankara, e pela polícia, soldadxs e guardas de territórios paramilitares que morreram desde Julho. Notavelmente xs civis que morreram em zonas curdas nesse mesmo período não foram incluídxs. Nas declarações preferidas sobre as bombas de ontem, o Primeiro Ministro Davutoğlu começou por apontar o PKK como possível culpado, seguido de uma guerilha armada de esquerda e só depois o Estado Islâmico. Passou 20 dos seus 30 minutos de discurso a atacar o HDP.

Em resposta a estas acusações de Davutoğlu, o co-presidente do HDP, Selahattin Demirtaş, disse “Nós somos Turcxs e somos Curdxs, nós somos soldadxs, nós somos polícia. Nós somos que morrer. Nós sabemos para o que as vossas crianças acordam. Elas não morrem. Nós morremos. E vocês são os responsáveis.”

Por trás da diminuição de ataques violentos do governo Turco à sua própria população está a polícia de intervenção na guerra civil na Síria. Neste contexto de todas as intervenções externas na Síria, o governo Turco tem tentado lutar pelos seus interesses, e lucrar com eles, agindo como facilitador das intervenções do Qatar e da Arábia Saudita na Síria.

Agora o governo Turco está a receber apoio dos EUA pelos ataques às populações Curdas, na forma de usufruto da báse aérea de Incirlik. E está também a chantagear a União Europeia a apoiar as ambições regionais da Turquia ameaçando abrir as fronteiras com a Europa, permitindo a saída de dois milhões de Sírixs a quem tem sido negado estatuto de refugiadxs na Turquia.

As mãos da UE e dos EUA estão sujas. Têm apoiado sempre regimes repressivos na Turquia e aprovado todos os golpes militares na história da Turquia. Agora as suas intervenções na Síria também são responsáveis por fazer disparar as taxas de mortalidade na Turquia. Nós sofremos 600 mortes desde as eleições de 7 de Junho.

O massacre em Ankara pode ser atribuído ao Estado Islâmico, mas os culpados reais estão bem mais perto de casa. Bombardear a Síria não é solução. Vai fortalecer o Estado Islâmico na Síria e no Iraque e aumentar o número de assassinatos na Turquia pelo estado profundo.

Usar os acontecimentos na Turquia como desculpa para aprovar o bombardeamento da Síria pela Inglaterra seria uma hipocrisia perigosa.

Agora os sindicatos e associações que convocaram a manifestação pela paz convocaram uma greve geral para Segunda e Terça-feira. A natureza dividida dos sindicatos Turcos significa que esta greve geral não paralizará a Turquia. Contudo, será uma oportunidade nos locais de trabalho e nas ruas para construir uma unidade de exploradxs de diferentes etnias e credos contra as elites que querem defender os seus poderes e por-nos a lutar entre nós. Esta união de classe é a única forma da Turquia e todo o Médio Oriente poder prosseguir.

*Tradução do Modo de Volar

One thought on ““Testemunho do atentado em Ancara”* por Chris Stephenson.

  1. por favor, esses xs não são pronunciáveis, não têm nada de neutro porque não somos neutros, e a linguagem inclusiva surgiu para remover a invisibilidade das mulheres e acabar com o masculino plural. Esses xs mandam-nos de novo para as trevas. Párem com isso, é contraproducente e patético.

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