O Partido Revolucinhário

cunhalsoares

Dou a mão à palmatória: os etapistas é que sabem como elas se fazem. Anda um homem a pregar aos peixinhos com teoricismos estéreis sobre a invalidade da etapa democrática, e vêm os filhotes de Dimitrov pôr-nos na linha em dois tempos.

Já ia sendo tempo de aprendermos com estes génios da táctica. Afinal, andam a ensinar-nos 40 anos. Quando correram connosco das fábricas e sindicatos, onde éramos provocadores a soldo da CIA incitando à greve pela greve, infelizmente a revolução ficou inacabada: mas o PCP salvou as liberdades democráticas, o acesso às cadeiras e orçamentos do aparelho de Estado, a legalidade do Partido, «os valores de Abril» em suma. Agora que a democracia começa a recuar – isto é, quando já se contam tostões na Soeiro Pereira Gomes, que a militância está a cortar nas quotas e já se vendeu a Caminho à Leya –, é tempo de uma democracia avançada (por sinal título do programa eurocomunista do PCF em 1969), que nos volte a dar os «valores de Abril» – aqueles ali de cima, ‘tão a ver?

Que ninguém questione a coerência do PCP. A coisa vai ao ponto de nem se ter descurado o detalhe simbólico de, depois de o 25 de Abril ter sido derrotado no 25 de Novembro, se pôr no Governo Patriótico e de Esquerda com os valores de Abril no futuro de Portugal ninguém menos que o Presidente da Câmara de Lisboa que aprovou a comemoração dos 40 anos do 25 de Novembro. Há, até nisso, honra seja feita, um compromisso do PCP com a verdade, ciente de que só a verdade é revolucionária: o partido tem todos os motivos para celebrar o 25 de Novembro. A derrota dos «elementos esquerdistas irresponsáveis que julgando poder brincar-se às tomadas do poder comprometeram uma solução política pela qual o PCP se tem batido persistentemente», como Cunhal escreveu no Avante! de 30 de Novembro de 1975, não pode ser senão saudada pelas forças responsáveis, democráticas, progressistas, patrióticas e com sentido de Estado. Assim se abriu a porta por onde, quatro décadas e muitas tribulações depois, foi possível passar a procissão do meu país a cantar, sem ser pela ponte 25 de Abril, é certo, mas rumo à vitória de uma maioria parlamentar que há-de derrotar a direita e guinar o PS para a esquerda. Todos vemos o plano em curso e prestes a correr bem. Quem fala em tachismo ou lembra os exemplos do PC italiano, espanhol, ou francês, é um provocador sem vergonha.

O PCP merece respeito e crédito. O respeito que qualquer organização religiosa deve merecer aos homens sensíveis quando tentam discutir com ela em bases materialistas e percebem estar a magoar crenças arraigadas. Não se tenta convencer um crente de Fátima que está a chorar diante de uma boneca de cera, nem um militante do PCP que bate com a mão no peito diante dos «valores de Abril». Mas é também nosso credor: a capacidade de transformar a revolução na revolucinha, a revolucinha na reforminha, a reforminha no recuo, e o recuo ainda assim num avanço dos trabalhadores e do povo, é digna de aplauso. Ignorantes do génio táctico do PCP, melhor será deixar que a vanguarda nos guie, ignaros elementos recuados da massa, classe sem futuro histórico, gente do verbalismo histérico e dos grupelhos esquerdistas.

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